Quando criança eu costumava ter sempre um mesmo pesadelo. Havia uma criatura maligna perseguindo quem eu amava e os matando todos, roubando-os de mim, e eu não conseguia vê-la. Eu sabia que ela estava atrás de mim, mas toda vez que se aproximava, tornava-se um vulto indefinível. Uma noite, decidi me virar subitamente para trás e olhá-la. E a criatura tomou forma. E nunca mais sonhei com ela.
Hoje me pergunto: qual é? O seu grande medo, qual é? O que é? O que te espreita nas sombras e te segura? Se você pudesse descobrir qual é o seu maior medo, você poderia enfrentá-lo? E você deveria? Ou será que o grande medo, o monstro debaixo da sua cama, é exatamente o que te segura no chão? E se isso for bom? E se ter medo for bom?
Tecnicamente o medo é um instinto de proteção. Gerador de duas reações básicas: ou ficar paralisado, ou atacar. O alerta desse instinto pode ser real, é possível estar a caminho de uma enrascada quando nosso instinto nos diz “pare!”. E pode não ser. Talvez você esteja só vendo semelhanças em uma situação segura, com uma insegura. Contudo, o cérebro não foi adaptado a todas as possibilidades do mundo. Numa perspectiva evolutiva, nossa estrutura neurológica emocional é muito mais velha que a racional. Ela recebe os sinais do ambiente primeiro, e sua reação tende a suprimir a razão. Embora esses sinais não estejam necessariamente bem interpretados, podem significar uma vida salva. Ou uma preocupação inócua. Em ambos os casos, você precisa da sua cabeça para decidir isso.
“A vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”, de acordo com Horace Walpole.
E o medo pode ser tão burro, desconectado da realidade, reagindo a estímulos sem ligação com um perigo. O medo pode ser tão parecido a um gatinho silencioso; bastante assustador numa noite escura, com seus olhos arregalados e se confundindo às sombras. Mas tão só um gatinho. Que se você se aproxima devagar, pedindo permissão e ele permite ser tomado no colo, acaba por descobrir nele uma parte sua precisando ser tranqüilizada. Se o medo é como algo dessa pequenez, dessa carência de afagos e tolice, então... então deve haver algo melhor para te segurar. Assim o medo deve ser só um alerta. Não uma base. Não um princípio.
Bases e princípios são coisas que nos guiam. Coisas que podem estar erradas. De modo que o medo pode ser muito útil se lhe dermos ouvidos. Mas ele precisa sair da esguelha, precisa ser olhado de frente, em sua verdadeira dimensão, e receber um nome. Às vezes, para o seguirmos, quando ele tem algo realmente importante a dizer. Às vezes, não. Só para dizermos a ele que estamos à altura do desafio. O nosso medo precisa ser visto.
R
Jucksch, Márcio.
2 Kommentare:
Da visão clinica e fisiológica que formulo como o médico que sou (hehe, brinca comigo!): o Dr. Símbolo acredita que o medo é o melhor mecanismo de defesa existente no organismo humano, ele incita-nos a hesitar todas as vezes em que nos sentimos ameaçados ou até mesmo e que nós ameaçamos! O que seria de nós sem os limites do medo?
O meu "eu" (muito covarde como sou) , acredita que deve fugir do medo, sem olhar pra trás, de tal forma que encará-lo seja a última opção a ser adotada.
Prefiro chamá-lo de "medo" e SÓ!!
Prefiro que ele seja medo até os últimos segundos.
Não quero saber o nome dele e tenho raiva de quem sabe!!
Abraços! Ótimo texto!
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