Mittwoch, 27. April 2011

Trêmulo

- O que você está fazendo?


Rasguei os papéis de parede achando que tivesse que deixar entrar um pouco de luz. Você fechou a porta e me esqueceu do lado de dentro, sozinho. Na companhia do meu caos, aquele que sempre fujo. É como sair de casa aos 18 anos sem perder a inocência... até aquele momento.

Inocência não existe. Aliás, me refiro a do tipo fanática, lembrada com saudade por todos. Lembro de jamais ter sido inocente, lembro de ter olhado as coisas com vontade, como novidade e como perpetuação. Ela não existe e não se perde porque nada muda. Nem quando se entra num rio.

É desestimulante ouvir que sempre se muda. Às vezes, chega a enganar. Muda quando entra num rio, quando sai de casa e o vento toca o rosto, quando se deita com alguém, quando se queima ao sol ou quando se pula de uma janela. Eu não aceito mudar nem ser violado de tal maneira. Nada do que foi citado toca meu espírito – literalmente.

Desde aquela data constrangedora eu senti vontade de roubar tudo o que passa dentro ou diante dos olhos daquele animal que nos observa por trás daquele monte de mato; ele tem a visão detalhada de tudo o que eu vejo em você e do que você vê em mim. Eu abraço você e ainda assim nada toca meu espírito, mas sinto com pesar a ingenuidade das lembranças do que ainda costumamos ser, do que ainda nos empurra e nos obriga a continuarmos abraçados.

Isso é perfeito demais. Como um bolo confeitado, como a leveza de um feliz aniversário. Parece que passamos o dia todo trabalhando naquilo. Nos consumindo de forma cíclica. E sempre nos deixamos ir sem perguntas nem espera, sem precisar contar uma história de príncipe e princesas.

Vamos desmembrar nossas mágoas e esperanças, as bizarrices e conversas de bilhetes. É uma idéia maravilhosa e a conclusão genial. Precisamos de um pouco de luz, precisamos deixá-la entrar. Foi agradável, tão agradável quanto os dias que tínhamos aquela idade. Ter uma vida, pensar nessa vida, claro, nem sempre é estimulante. Mesmo quando olhamos para quem é infinitamente infeliz.


- O que você está fazendo aqui?


J, M.

Freitag, 15. April 2011

Pensez-vous que l'hiver sera rude?

- Por que tu me ignoras?

Sempre perguntei e ele nunca respondeu. Apenas persistiu no comportamento.

Ele fala muito, pelos cotovelos, pelas pontas de cigarro, pelos copos de cerveja. Com todos e por todos, menos comigo. Faz pouco caso das minhas perguntas, das minhas intenções. Não faz nem o caminho da mea culpa quando me torno mais direto. Sai correndo.

Até pouco tempo atrás, a sensação era de estar sendo rondado. Ele nada dizia, mas observava-me. Claro que casualmente, sem nada querer. Era a impressão que tinha da nossa relação, se é que assim posso chamar. Atualmente nem isso. Não posso mais te ler.

Meu avô morreu, comuniquei e ele nada. O ano acabou, comuniquei e ele só muito tempo depois. Viajei, comuniquei e ele se deteve por uns instantes, parado na porta da minha vida, olhando além de mim, para as coisas que já foram dele. Vou embora, comunico e ele manda mensagens pelo descaso. Assim, para o vento trazer se quiser. E quando eu disser que fui embora para não voltar? Ele irá se manifestar?

Não sei se ele lembra, mas eu disse:

- Quando deixo de amar é uma verdade irreversível. Aquela pessoa se transforma em nada. Ou amo ou não amo. Não sou de me dividir em dúvida eterna.

Tento, mesmo aos trancos, ser amigo. Atitude no singular mesmo, pois a recíproca não é verdadeira. O que ele é hoje eu não sei, mas amigo meu não é.

Sei o que sou quando te ouço porque ninguém mais quer. Quando eu escuto as piores respostas, ofensas. Quando te enxergo nos piores momentos e não te peço pra sumir e só voltar quando fores uma pessoa de bem. Quando te desejo boa noite e sorte. Sei que me procuras quando todos te esqueceram. Sei que me achas quando te encontras no meio do nada.

Por mais doloroso que seja, sou consciente dessa realidade sem lógica. Não fazes isso por mim. Só fizeste quando havia amor e, agora que ele foi embora, não és capaz de fazer mais nada. Não pertenço ao rol de pessoas que merecem um diálogo da tua parte. O que eu não entendo é porque não és capaz de encarar o meu olhar. Por que é mais fácil dar as costas? O que é tão difícil em sentar à minha porta novamente e falar de amenidades, sem precisar entrar na vida infinita que tem por trás das paredes? É medo delas te engolirem?

Eu pensava que a essa altura da história, esse tipo de mensagem não fosse mais necessária. Era a melhor das minhas perspectivas, daquelas que você deixou na estante da sala, querendo minha valiosa amizade quando o amor acabasse.

Será a tua dificuldade padrão em cumprir promessas? Será a tua necessidade vital de escorregar das pessoas quando elas não querem nada além de uma resposta?

Será que sou eu, de novo, cismando em te decifrar e, várias vezes, acertar?

Sigo perguntando no vale do silêncio.


J, M.

Mittwoch, 6. April 2011

Lotado de culpa

O que vale é não se render. O triste não é essa cena depressiva, remoendo com rios de lágrimas o porquê do inevitável, ensaiando na frente do espelho o sufoco e desespero em que nem mesmo se reconhecerá. A tristeza se concentra no fim, às três da manhã, ou qualquer outro horário que você escolha voltar para casa depois de dizer ‘até logo’.

Frente a felicidade alguém o inveja, alguém não se contenta, felicidade alheia nunca é suportável. É sempre pouca, disforme ou ilícita. Se for para encará-la, então, nem a curto prazo; ninguém consegue nem encarar-se. É melhor andar lado a lado, de mãos dadas – como ajuda para atravessar a rua.

Seria bom poder colocar variados tipos de película para cada momento da vida, em sintonia com o nosso humor. Que ao menos a realização fosse conquistada após noventa minutos de projeção, ou quem sabe dez minutos antes. É substituir o momento da dor por algo mais brando, uma trilha sonora mais leve, cenas lentas ou rápidas, uma fotografia impecável.

Por fora só o sorriso. Brilhante, amarelado, cínico e até faltando os dentes. Por dentro tem dias que as coisas só despencam, em outros se escutam os batimentos cardíacos e a gente até sente um pontada no peito, cólica ou uma dor de barriga. Abre a porta, sente o frio, congela. Congela tudo. Hoje, desde a decida dos três degraus, vou ser só pensamento. Vou ser de fato contemplação, sem contar as horas. 

Ninguém sofre por amor, pessoas sofrem porque se subestimam. Nos deixaram não por falta de amor, foi por vontade de uma liberdade não compartilhada. É um direito aquém de egoísmo. Entender amor por somente delegar responsabilidades, anulando as consequências, é traiçoeiro; sendo assim nos tornamos nosso próprio carrasco, nos personificando como o fracasso cósmico, decepando a cabeça sempre que puder para esquecer o agora. Problema é firmar compromisso com marasmo e acordar com melancolia. É fácil pensar que término significa inicio. É fácil seguir em frente.


J, M.

Samstag, 2. April 2011

Por ontem

Já faz um tempo considerável que eu sinto que uma parte significativa de mim entrou em coma. Sem a tentativa final de querer encaixar ou falar sobre aceitação, pois penso que seria o mesmo que demonstrar que já explorei os caminhos mais surpreendentes e chatos sobre a solitária e lúdica maturidade. Não é o caso de preferência, mas sim de comodidade em manter uma concepção única de que seria tudo mais empolgante e eterno (como os sonhos) se a vida fosse só juventude – mesmo que fisicamente.

E esse é o mesmo tempo em que eu talvez – não estou certo – passava horas precisas na janela, frente a selva de pedra, observando o que todo dia parece ser o mesmo, nas mesmas horas. Eu, que de certo modo, agi com pouco caso e o deixei de lado, agora volto a tê-lo; eu, que antes pensava que havia morrido ao seu lado, coberto de sangue e lama, porque escorria sangue por todos os lados. Agora não mais com essa idéia de morrer por você nem morrer ao seu lado.

Perto de partir em direção a três destinos que se transformam em um, reservo as últimas e decisivas horas para voltar a nostálgica rotina. Mais do que tentar sentir o ar poluído e íntimo, ao debruçar-me na janela, é assistir mais uma vez a configuração de cores que deixou de ser para mim apenas uma vista e se fez uma impressão leal do que circula, passou ou passa dentro de cada célula minha; o espetáculo notório daquilo que fez parte da minha vida por alguns anos. E assim o dia acaba onde eu me encontrei. Eu só faço olhar para cima e enxergo o céu. Eu gosto do céu. Eu gosto do céu, gosto de contornos.


J, M.

Freitag, 1. April 2011

Até

Já tenho data marcada pra dizer adeus.

Escolhi um dia pra me enterrar na memória de vocês e viver em outros corações.

Ou simplesmente pra entregar minhas malas a um desconhecido e pedir que diga ao povo que estou fugindo.

Vai ser o domingo mais longo do ano. Pelo menos até que encontre alguém pra encher meus fins de semana de cigarro e sussurro.

Será o ano mais longo, dizem que uma maré de coisas muito boas vem aí.

Desejo que a cada vez que abrir os olhos possa enxergar um alvorecer mais promissor que o outro.

Do fundo do meu coração.

J, M.

Samstag, 26. März 2011

Eu, vigente

Percebi, pela milésima vez, que minha vida é baseada em equívoco. Dos certeiros, dos cruéis.
E agora? Retiro minha declaração de guerra? Ando pra trás sem olhar pra frente?
Já sei. Vou cortar o cabelo.


"Reclamam que eu me entrego demais. E se não fizer assim, vou fingir que vivo, fingir que amo e fingir que me importo? "


J, M.

Donnerstag, 24. März 2011

Do pouco que sabe

Não posso nem dar mais um passo. Voltar nem seguir, impossível.

Ninguém entende o peso, nem as lágrimas, nem a pena. Até que sintam…

Não quero mexer nos armários e nos papéis, nos livros, nos presentes, nos objetos guardados ao longo dos últimos anos. O sentido de mudar é o oposto. Por isso quero queimar, destruir, desintegrar tudo isso.

Eu quero parar de chorar o tempo todo, em cada “tudo bem”. 

Os olhos não fecham e o problema nunca é a falta de escuridão. Estou imersa nela o tempo todo. Aprendi a caminhar no nada.

Desde aquele sonho, o fatídico, o maldito, penso em como seria morrer. Quanto menos durmo, menos tempo tenho pra alimentar a idéia. Até o dia em que ela migrou para o real, passando a pintar minhas escolhas de dúvidas, de pesares.

O amor não resolve. Elas se foram e levaram minhas conversas de madrugada. Não ajudaram a trazer felicidade. Sempre continuei solitária mesmo inebriada de ilusões.

Sei bem como são os dias em que perco o que me sustenta aqui. Não durmo, não como, não amo, não nada. Deito no breu e encaro. É o mais perto que chego do âmago.

Me sinto doente da cabeça e isso é demasiadamente verdade. Não posso tomar um analgésico. Cada novo dia reitera o diagnóstico, basta acordar.

Quem finge ser feliz diz que é exagero, mas também não vem sequer conversar.

Quando me vi pendurada pelo pescoço finalmente entendi. Observei o pesar do corpo, de um lado ao outro. Sonhos tem dias certos pra se realizarem.

Os mais solitários são os melhores mentirosos. Disfarçam sua doença de espírito com diversas artimanhas. Cigarro, comida, sexo. Apenas o pranto é sincero. Não, menti de novo. É o silêncio.
Desisto solenemente.


J, M.

Mittwoch, 23. März 2011

Alternativo

Lembro de quando o cigarro deu sentido às coisas ou simplesmente ocupou minhas mãos. Agora eu poderia chegar perto dela sem procurar um lugar pras minhas pontas.


P.s: Gosto mais dos retratos. São infiéis até a alma.


J, M.

Dienstag, 22. März 2011

Sabendo

A cidade não tem nada demais. O que me leva até lá é que passa tão rápido que nem dá tempo de doer.

Quantos passos são necessários para seguir em frente?


J, M.

Montag, 21. März 2011

Meus

Se incomoda porque eu dramatizo muito meus amores.
E você que nem sabe o que é isso?


M, J.

Mittwoch, 16. März 2011

Véspera, medo, futuro

Eu amo nessa noite silenciosa. Aos prantos me recordo do beijo e do sussurro. Eles se perderam de mim em um amanhecer extasiante na fronteira.

À véspera de embarcar na viagem mais arriscada desde setembro, eu sinto o coração contrair em si mesmo; procura abrigo, procura fim. Se pudesse me virar do avesso e sumir no âmago, deixaria só esse amor intrépido de fora. Penso que ele andaria com as próprias pernas, finalmente.

Ele pesa tanto que percebo a impossibilidade de dar esse passo, de entregar esse cartão de embarque, sem buscar a resignação. Porque dói em silêncio a cada lapso de lembrança e, quando exerço o direito de verter lágrimas, nem me pergunto mais como vim parar aqui.

Amor de véspera, amor de medo, amor de futuro.


J, M.

Mittwoch, 9. März 2011

Página 5

Estou com fome de verdade. Não encontro nem em mim. 

Respeitar apenas os semelhantes é muito imbecil. Tratar decentemente alguém que você já conhece até do avesso é fugir do novo constantemente. Respeite aquele que parece um completo babaca e seu caminho vai começar a se abrir. É sempre bom ver uma nova saída, ainda que não seja usada. 

Ando carente de tudo. De confete, de parabéns, de amigos, de acolhimento, de abraço, de sinceridade. Como fez falta aquela simples palavra. Teria poder de demonstrar o afeto, a amizade, a franqueza. Todas as vezes que ela foi esquecida pude enxergar o outro lado e desgostar do que via. O lado do descaso, da indiferença, da dúvida e da arrogância. Eu não sei o que mais incomodou. Acho que foi o ar de superioridade, apenas ar e mais nada. Por isso tão frágil e questionável. O ar se esvai, mas e a amizade? Onde fica? 

Não fica… nada fica. Eles se transformam e querem que eu me iguale. Respeitar apenas os semelhantes é imbecil novamente. É um caminho que despreza os companheiros de outras estações. Reles amigos de outrora. 

Noto que as pessoas têm dificuldade em me elogiar. Meu lado criticável deve ser um gigante irremediável. Tenho vontade de exterminá-lo, mas é ele que me sustenta afinal. Também percebo que não mostro meu lado bom, o valorizável e bonito. Não tem beleza na minha postura. Sou corcunda e impaciente. Só não vê quem me elogia, e quem o faz é um completo estranho na maioria absoluta das vezes. Acabo gostando mais deles que dos que se dizem meus amigos, porque os estranhos conseguem me elogiar sem inveja ou reticência. Sou carente de franqueza alheia, o que é incoerente, pois mais sinceridade é impossível exigir dos amigos. Se eles nunca dizem sentir saudade ou nunca ligam quando eu viajo, paira algo de muito verdadeiro nessas situações: tem silêncio que vale mais que mil palavras.

Tudo volta para respeito e semelhança. Não é que queira imprimir uma moral da história, mas minha rotina tem sido afastar os queridos. Desculpem, mas eu ando em círculos adulando vocês. Tenho a ilusão de respeitar quem eu devo, no entanto é apenas conforto emocional. Resolvi rechaçar as relações consolidadas por nelas enxergar morte. Vou fazer um buraco no chão e não conseguirei trazer nada novo. Nossa relação é permeada pelo oposto do que deveria ser. Somos amigos, mas odiamos o que os outros escutam, assistem e gostam de comer. Por que não nos divorciamos logo? Nossa arrogância nos sufoca, não as diferenças. Não somos capazes de respeitar quem pensamos ser semelhantes, imaginem o diferente. Que o litígio seja doloroso, mas que o verdadeiro respeito apareça.


J, M.

Sonntag, 6. März 2011

Two doors

Eu queria que o mundo fosse mais palpável, que fosse de montar.

Queria poder juntar A com B e uma pitada de C.

Ter aqui o apartamento B de chão de ardósia, móveis novos e luz suficiente. O interfone funcionava. A televisão ligava sozinha exibindo Placebo. Nada combinado, ela gostava de me surpreender. 

De C eu traria as 38 polegadas e os dois colchões. A central de ar, os sofás, o carro. Conforto em todos os sentidos. Minha mãe e o inconveniente irmão. Ah! A vó de 10 anos atrás também.

A tem a chuva, o prédio que desaba, o doce caro. Caros, caros amigos. A vida bandida e barata. Inútil, esgotada. Os fantasmas…

Começo, meio e fim. Etapas. Minha vida montada seria dividida em peças absurdas e necessárias.

O amor delas, o meu afeto. Traria nossa felicidade de volta, passaria o filme de novo em sequências diferentes, pois nem de todas eu quis tudo. Extrairia o melhor e mergulharia nisso pra me permitir encontrar o novo ou o bom, pelo menos mais uma vez.

O medo eu fumaria, faria brasa da estupidez recorrente. Provavelmente prenderia o fôlego ao posar para fotos. Esperança de o tempo parar, sem chance de trocar as cartas.

Nessa invenção a peça fundamental seria eu, pois haveria contexto, moradia, conforto, pessoas e dramas suficientes. Eu bastaria e sustentaria… se fosse de montar, se fosse de escolher, se fosse de interferir.


J, M.

Samstag, 5. März 2011

Um e dois e

- As cenouras estão despreparadas, por enquanto.
- Eu não esperarei.
- Calma, elas amadurecem rápido. Se é que cenouras amadurecem, pensando melhor acho que elas apenas irão penetrar mais fundo.
- E quando?
- Ora, quando estiverem prontas.



Eram diversas e tímidas com suas folhas crispadas numa linha permanente. Uma após a outra naquele canteiro sob a sombra. Dentro da terra deviam ser assim também, exceto pelas minhocas.

- Fico até o laranja.
- Mas nem sequer há flores na laranjeira!
- Fico até as cenouras ficarem laranja...


Não quero discutir. Laranja não é cenoura, nem cenoura laranja. Melhor não contar ou ele vai embora.

- Café?
- Obrigado.
- Café preto?
- Sem leite.
- Preto?
- Claro, sem leite é preto.


Ele precisa de muito café.

- Estamos na estação errada, cenouras ruins nessa época.
- Agora que estou aqui, não vou desistir.
Cenouras não são laranjas. Ele parece não querer saber. Tem mãos fortes ao segurar a xícara e um nariz tombado para a esquerda.

- Algo mais?
- Paz.
- Assim súbita? Com todas essas letras: P-A-Z?
- P.A.Z.
- Você é bobo mesmo. As cenouras ali, você aqui. Quer paz? Eu tenho paz, não é legal. Saiba que as cenouras murcham com tanta paz. Precisam de agito, das minhoquinhas, das fortes chuvas. Pensa que admiram a convicção? Pelo contrário. São convictas demais para isso. Elas vão se esconder de você; aliás, escondê-las-ei, sem laranja ou frutacor alguma. Ah, quer saber? Fique com elas, eu vou. Antes de colher, diga a elas que eu te perdoei. Cenoura sem cor não é cenoura, nem laranja. Por fim saiba que: tchau, paz, adeus.

Eu só queria avisar que pombas não comem cenouras...


J, M.

Freitag, 4. März 2011

Brilhantina

Deletador de imagens. Fuzil avesso atira balas no rosto imundo do personagem de cinema mudo. Cadavérico dança freneticamente, como planta ao passar do vento: vulcânico ao rebolar, mecânico ao olhar.
Não há vestígio de suor, seqüela de dor ou tentações amorosas. Existe apenas a música tropicalista que combinada ao clima gera faíscas incessantes que reverberam por todo salão, sala, cozinha, porão.
Pó de giz próximo aos cadernos que antes eram objetos de estudo, hoje são estudo de objetos sem sinal de onde veio. Não interessa, se foi. Onde o sol está nas noites escuras? Não há quem saiba, ele vem e vai, olá - adeus. Muda de opinião freqüentemente, fala incessantemente, procura por algo que o faça enxergar a garota que está ao seu lado. Sabe que irá perdê-la, mas a lanterna já está tão próxima, ele precisa pegar seu sonho antes que ele evapore. Mente insana pensa numa grama verde como bílis, ácida e fatídica, onde eles possam deitar-se e fazer sexo, como antas submissas à escassez de sua espécie. Lá poderiam procriar manchando assim o chão de preto, batucando ao som do luar que ofusca as letras. A cabeça começa a girar até o tronco contorcer-se e com a saudação cavalar ele cumprimenta a moça.
As portas se abrem, delas partem um cheiro captado imediatamente pelo tato ensurdecedor, o vermelho do vestido da mulher esparrama pelo chão, os olhos petrolíferos jorram o dinheiro, os seios volumosos esparramam o líquido que antes dava vida; ele, tomado por um impulso causado pelo vento, lambe - a. Tentado ao sexo ele goza naquele ser estático explodindo o palco, cessa o som, um cigarro é aceso. Hora de observar as estrelas.


J, M.

Montag, 28. Februar 2011

Addicted to you

Não que eu seja um viciado, nem você. Mas é o vício que nos faz presença. Todos têm algum. Vícios não têm mínimos e os máximos podem ser fatais. O segundo gole de água é uma overdose. Ao menos se fossemos viciados teríamos objetivos. Somos usuários, passageiros que não tripulam na viagem.
Características são marcadas por vícios, sem eles não há definição. Nada nesse mundo é absolutamente irreversível - nem o vício. Um dia acaba.
Mostrar-se um viciado é fatal, corrompe os espectadores e nubla a personalidade. Temos de suar escondidos na sombra do que usamos. Não há julgamento cabível para um viciado, tudo não passa de opção e opto por não falar mais, pois ao falar do vício posso me tornar viciado.

"Vicio-me no odor das flores mortas no inverno que não vivi. Andei sem ver as coisas e cai de um muro alto, quase Berlin. Passo por aqui sempre, a observar teu minucioso processo de estar. Tu estás e isso me alegra. Quem és tu, não sei. Talvez tudo, poeta"

J, M.

Freitag, 25. Februar 2011

Espectrus

Eu encarava aquela parede. Não podia ser só isso. Teimo em dizer, eu vi!
Não sei se dentro ou fora, mas passou por ali. Mesmo que tenha sido ontem e escuro, mas foi. Tenho certeza, uma certeza não total, mas como se eu já tivesse visto isso e soubesse que realmente isso existe. Eu voltei lá hoje, agora estou aqui em partes. Perdi-me por lá. Não era escuro ainda quando (re)visitei o local, era dia. Olhei, sentei, refiz meu percurso e nada de encontrar aquilo que eu já vi. Talvez seja uma vez na semana que isso ocorre. Ou num ano, quem sabe até num século. O importante é que eu presenciei e de olhos bem atentos, justamente por não acreditar.
No momento, eu não reagi. Nem sequer dei muita importância para com a sua mensagem subliminar, prendi-me na sua forma errônea e obtusa, mas ela se importava comigo ou não apareceria. Agora, eu quero de novo a chance de agarrar e questionar. Será que vai voltar? Tomei uns remédios hoje durante a tarde... Quero tentar ver isso de novo, aquilo de novo. Talvez eu deva tentar sonhar com isso, ou quem sabe eu deva esquecer. Não, esquecer eu não posso. Não conhecia até ver e quando se vê estamos amarrados no visto, tentaremos assimilar o que era - o que é. Às vezes não saberemos nunca, mas já vimos. Pode parecer que ter visto aquilo seja um fardo, não se engane, estou radiante (creio que só eu vi).
Se alguém mais viu não se manifestou. Eu tenho vontade de contar, mesmo que não acreditem. Ao menos se alguém conseguir enxergar novamente poderei dizer que também vi, e vi antes. Mas ao mesmo tempo eu irei perder a dignidade ilusória, pois os outros podem tentar procurar, aí não serei mais exclusivo. Não que eu seja único, são tantos por aí, mas talvez eu tenha algo de especial. A coisa me viu! Tenho certeza da reciprocidade, foi algo como amor a primeira vista. Talvez sejamos parte da mesma música. Tenho dúvidas quanto a pertencer ao mesmo mundo, entretanto sei que posso me adaptar a qualquer circunstância, desde que ela esteja ao meu lado.
Já não sei mais onde comecei, queria poder (re)ver agora, começar o meu plano sistematicamente para não me perder nos detalhes. O importante, amigo, é que eu desejo que tu vejas. Não precisa acreditar, mas agora quando tu enxergar sei que vais lembrar o que eu te disse, mesmo que seja assim no anonimato. Aliás, é nesse mistério que a coisa aparece. Deve ser. Também não tenho certeza de nada. Mas veja...


J, M.

Mittwoch, 23. Februar 2011

Elis

Flor de coca que desmama o meu irônico gargalhar musical. Indiferente ao problema carnal se armazenava em estado espiritual de canção desarmada. Engajando no social, esperava uma nova retomada e sabia da incessante empreitada. Morreu de overdose de realidade e nós ficamos aqui na sabatina musical com a honra da readmiração pelo que se foi no desastre mental.

Sem muito que escrever. Na verdade, cansa não saber fazer a coisa lida e ser na vida um astro doido que ultrapassa os limites da palavra (espero que seja isso). Por isso digo: não escrevo, narro.


J, M

Montag, 21. Februar 2011

Amor-amar

Amor-amar é necessário. Ardência de galho-em-galho. Opressão do sistema poético. Gerador do caos epilético.
Amar-amor. Parte do ciclo. Na sua roda sou gigante. No menor dos egos. Embaixo dos pés elefante. Respondo narrando palavras. Desejo. Amar-amar. A tua busca pelo eterno sonhar. Entrada fria dificulta o respirar. Amor-amor. Sangue jogado na calçada. Das janelas o grito do objetivo. Amar-amor-amar. É sem pensar. Acontecido sem esperar. Flutua nos olhos, resvala nas bundas. Amor- amado. Não te quero ao meu lado, mas sim no mim do dentro onde não posso salvar.

- Começou como resposta, acabou em solução.

Algo cálido do escrever da gente. Pombinha branca logo a frente. Semente que brota no quintal ausente. Figura tua na face minha. Fulgura nua na carne ardente. A gente entende que se precisa, distancia crua da imprecisão. Preto-e-branco da eternidade mútua. Repousam as flores da sociedade. Jogada curta de blefe tolo. Amarelo-ouro. Tendência oculta da lua aflita. Sagrado boto das rosas-mil. Fumaça ecoa nos sem navio. Metade aberta no espaço alerta. Verdade amante em sensualidade esperta. Pluma sua na entrada esguia, o corpo esbelto de pomo quente.

- Sábado a gente se encontra lá, na mesma esquina do sempre amar.

Bem de mansinho. Devagarzinho que é para eu sofrer e te abraçar. Beijo quente na velha mente que já não sabe andar sem teu passo para guiar. Insinua-mente desenvolvida em berço do encontrar. O amor celeste que se veste branco para não encarar. Risos à toa na frondosa árvore do gesticular. Calados vamos de mão juntinhas para trás do mato regorgizar. Energizando e alavancando a promessa do estar.


J, M.

Samstag, 19. Februar 2011

Double

Aquela que me acompanha nos sentidos múltiplos da falência cardíaca agora me ajuda no erguer da escalibur atraente. Enciclopédia do falar intacto perdido nos provérbios antigos reencontro a minha essência. A dela.
Um tropical encantador que cega de verde. A poesia do seu beijo, arfar de terrorismo lírico. Destruiremos a pátria juntos para parirmos a rima. No pescoço as marcas do corte, nas esquinas a força do marco. Atendo ao que você me insinua no grito da oportunidade. Seus seios envolvidos no setim da onda balançam no olhar do corpo.
Por o acaso sobre a mesa e julgá-lo. Você não tem razão.
Tardando a seguir, piso na areia que marca meus pés, supera a força do calcanhar e atinge o vital dentro do organismo. Organizo um plano de destruição epilética onde o alvo sou eu e o atingido é você. Suicida duplo do rejeitar pensante. Double attack.


J, M.

Donnerstag, 17. Februar 2011

O que fica

Pesado como cruz de asas abertas retalhando em postas na noite de verão que está na cicatriz da nossa corrosão. Marco frio no ferro do fogo em carne viva. Nossa vida. Corações despejados no ralo da saudade onde brotam as serpentes que me rabiscam. Nossos olhos ainda estão naquele vidro tão próximo de mim que posso sacudir e ver seus olhos nublarem novamente, ao lado da minha errada estática. Entrevado no pedaço que falta, metade do exílio no infinito pela metade. Barco na onda na significância. Tratamento de choque. Arrancar o rabo do gato no desespero do ronronar. Um parto. Parto.


“Socorrendo vias de sangue eu te leio. Me sinto vendo meu reflexo na língua de um boi a tomar água. O líquido corrompendo o meu músculo. Colorida como bile. Uma página a menos e um dedo fora do botão power. Stop”


J, M.

Samstag, 29. Januar 2011

Por conta

Eis que resolvi escrever a nossa história. Significa? Você há de saber.

J, M.

Sonntag, 23. Januar 2011

Conciliação

Mosquitos em volta da lâmpada clamando por piedade energética. Nós dois logo abaixo, no mesmo patamar. Talvez, sem voar, mas sempre com asas tortas pelo suicídio ultrapassado.

- O que foi?
- Minha cabeça está doendo.
- Venha comigo para fora.


Lá, encontramos os caracóis silênciosos arrastando-se na sua velocidade premeditada que dispensa um olhar e quando vê, já foi. Grilos cri-cri-cri. Num tom violino despachado na véspera. Aqui fora eu realmente me sentia melhor, sem vidros. Nossos pés estão descalços e tenho medo de pisar na vida diminuta que está em todo pó de terra. Um mistério meio absurdo, estou diferente. Não tem luz, só um monte de flor, mas vale, valida, valeu. Não sei se estive realmente fora, pois agora vejo que o vidro está embaçado.

- E onde estavam vocês?
- Nós só estávamos passeando, senhora.
- Pensamos que estávamos na hora.
- Está tentando me dizer.
- Sim, senhora. É claro.


Sempre temos de concordar com a madame casca do avesso. Sei que ela parece uma barata, isso é muito frágil apesar de todo o resistir. Nem ligamos de não contar para ela o que fizemos, desde que não tenhamos de trabalhar na cozinha com ela. Ela tem uns pés tão pequenos, nem sei como anda. Tá cheio de mosquito. Tá cheio ali também, nem sei para onde vamos nem sei o que fazer. Você sabe?

- Ela vai se desculpar?
- Só porque você é um juíz?
- O que significa isto?
- Você é um ianque.
- Mas eu não julgo ninguém.
- Claro que julga, você tem orelhas, olhos e um cérebro. Claro que julga.


Eu não gostaria de ter ouvido tudo isso. Não agora. Não hoje. Sempre sincero comigo, meu amigo. Ele devia se controlar um pouco mais, parece muito absurdo tudo isso, mas eu sei que ele não mente, jamais. Acho que ele está me julgando...

- Não devias ficar bravo comigo.
- Não é que estou bravo. Tenho ciúmes.
- Mas todos tem xales. Alguns até casacos! Porque terias ciúmes?


Novamente uma incontestável verdade. Muito frio aqui fora, muito escuro lá dentro. A casa está toda suja, o pó toma conta, a televisão está engraçada. Tão suja que, quando aparecem personagens nela, nem podemos indentifica-los, mas eles ainda falam. Umas vozes esganiçadas. Acho que é um programa de humor. Eu não rio. Queria sair daqui, não sei para onde, só queria.

- Não há nada para rir. Você vem?
- Eu te amo tanto. Nem posso entender o significado para você do fato do meu pai falar num menino que sempre me segue na escola, cuja mãe...
- Não quero ouvir dele! Não quero saber mais nada sobre ninguém que você algum dia conheceu. Bom, era isso que eu queria te dizer.
- Você não dorme há uma semana, estou preocupado com sua aparência. Não quer me contar?
- Talvez seja só por você estar se sentindo só. O natal está chegando e você longe da sua família. Quantos anos você tem?
- Não sei. Não vou embora.
- Não vai? O que vai dizer quando a estrada estiver terminada?
- Sempre posso encontrar alguma coisa.
- Aqui é diferente dos lugares onde você já esteve. Eles precisam conhecer você.
- Ouvi dizer que o mar é bonito.
- Não mais do que as planícies.
- Você já viu o mar?
- Não preciso, já vi as planícies.
- Você nunca vai saber quantos anos eu tenho, então. Estou com medo.
- De quê?
- Não sei.
- Você de nada sabe. Nem sabes quantos anos eu tenho! 33! 33!
- Essa não foi a coisa mais inteligente que ouvi.
- E eu sei que logo você vai seguir em frente, você se acostumou com o movimento.
- Idiota, eu vim para cá no inverno. Quando é frio, não há movimento, não existe nem razão. Eu não sabia que você era tão velho, eu tenho apenas poucos anos de vida, por isso eu corro tanto. De você, daquilo, das pessoas. Eu tenho medo até de me apaixonar, tenho medo dele, dela. Os dois juntos são um corpo que não podemos penetrar. Eu tenho medo de me conformar, você gostas de fazer sexo já. Daqui a pouco o céu vai desabar, o seu nariz está escorrendo gripe, olha a sua idade! Seu pêlo, sua coxa. Eu não sou daqui, eu não sou. É inverno, eu sou você, estou contigo, mas sou só desde que eu sei que sou . É inverno e eu vou continuar aqui, depois quero ver o mar e a planície.
- Você fala demais. Da planície é possível ver o mar. É inverno mesmo, até sinto frio, agora que você disse.
- Você tem uma cicatriz no olhos.
- É, eu sou cego.
- Então, vamos ver o mar.


J, M.

Donnerstag, 20. Januar 2011

Nuances

Era um festa, um brinde à nova vida que aparecia dentre as vulcanizações proletárias de uma realidade pobre em desejos. Celebração de corações vazios que se doam numa entrega arrepiada de inocências bem-cuidadas. As vozes caminhavam rumo ao recém nascido. O que surgia era uma mistura. De tudo que existe e do que ainda haveria de surgir. É um monstro de conhecimento.
Os olhos nem precisam enxergar quando se tem o complemento de uma felicidade assolando todos num mesmo tempo, num mesmo resíduo de ilusão. O tilintar da espera assume formas bestiais, luzes, câmera, ação! Os clichês necessários também estão presentes, pois nem tudo que é bom é feito de bondade.
A possíbilidade daquilo ser premetitado era impossível. Apenas um sabia. O que que relata, aquele que se joga do abismo no compromisso da mensagem. A ponte ligação dos destinos era reforçada pelo sorrisso falso da nomeação. Deveria o algo ser nomeado?
Optaram pelo não, pois é sempre mais fácil negar-se ao mundo que está a sua volta, ao menos assim existe a história que é recontada por milhares de corpos: a história da impossibilidade da paz.
Num grito interminável, os presentes começam a aparecer. Acasalamentos geram novos frutos estéreis. Maldições recaem sobre quem os fazia. O que era fato, agora se desenrola em membro fátuo. O comércio de bijuterias sempre muito bem pago é relíquia nesse mundo de desdém.
A animação é feita de indiferença mútua. O que consola a todos numa frustração menina. Os cacos da noite que transbordava luzes por todos os cantos já começava a ser recolhido. A besta seguia seu ritmo, numa aniquilação prazerosa, todo fim é bem-vindo quando o começo foi bem realizado. Costumavam dizer as coisas que faziam, agora dizem o que vão fazer. O monstro não liga para o que ocorre, o ocorrido é ele. Segue, estilhaçando os tetos de vidro dos desprotegidos. A contaminação está realizada e cada momento do seu ler é agora ilusão de um ser que te carrega nos ombros por pena do tamanho da sua caminhada. Caminhemos unidos da feiúra do nosso esplendor, correndo com o fluxo migratório de andorinhas pardas. Nosso trajeto é desconhecido, mas nossa trajetória está agora em nosso peito de onde brota um novo feixe de luz que acalenta os dedos carregados pela besta do saber.

J, M.

Mittwoch, 19. Januar 2011

Em tudo

Vazou feijão dentro da minha mochila. Feijão no carregador de celular. Feijão nos óculos escuros. Feijão nas anotações. Feijão na minha vida.

J, M.

Montag, 17. Januar 2011

Mancha

Eclipse lunar. Fantasia do mistério na junção dos corpos contentes no quente-frio sem compromisso, atrás de uma idéa em teia que repassa na cadeia do pensamento. Unção dos enfermos que transmitem a translucidade em forma de touro no labirinto da paixão. Paixão-sexo em expectativa de espera no pensar do dilúvio monocromático vermelho que bomba o suco dos hormônios na porra do pau em pomba.
No assassinato da trangressão a morte é incerta, contente e gata ronronante do podre em garras fortes de unha. Sombra no opaco, com o dedo no nariz retira a impureza do respirar nicotina e no ventre habita o anticristo em forma de útero arredio. Sem separação no até do dia raiar. Até da noite em talvez e quem sabe no você da fantasia sem saudade. O de repente não mais sabe que o para dentro pretende seguir fingindo, seguir seguindo. Obscura poesia do ir. Com mais você sem menos de tu, querendo pendência da balança leve em pluma. Deitados no ninho do tapete em roda fulgurante. Bolero te quero em capim de bem-te-vi perto um do outro. Outronum. Verde vê o capim do pio do bem-te-vi no cerrado em pássaro sobrevoa a cascavel arredia no instinto agarrar. As mãos escorrem na flor do espeto trazido na nuca. Irmã no salto de rã que pula em sentido único acasalando-se com o coaxar dos entregues. Acaba em sopro onde a proximadade é deserta, irmão-irmã de couro unido nas mãos desgarradas do melequento jantar. Bocas abertas no espaço dos dentes. Áurea formigada no grito da tua pleura, as escapadas furtivas do toureiro em meio em minotauro. Chifres ar. Agarram-se no grito do rosto canção e vão à caminho do lunar-solático dos seus corpos eclipsados no embaraço do ver.

J, M.

Samstag, 15. Januar 2011

Resguardo

Você verá os primeiros quando o som da música que alimenta o monstro de dentes carniceiros vier falar contigo. Estou fadado a te contar essa história para todo o sempre. Uma rainha das águas que busca a águia da salvação imaginária. Ela necessita da sua ajuda, é indefesa e sem coragem mesmo possuindo o poder. Ruivacidade de olhos extremos que anda sobre a grama ainda orvalhada. O senhor da justiça precisa ser invocado. Você irá reconhecê-lo pela sua feiúra. De tão terrível ele mantém as coisas em ordem pelo medo do não-existir.
O músculo que se desenvolve apenas de um lado é forte e controlador, ainda que não o saiba. Na sua direita estraditada as aplicações de endorfina regeneram toda uma pesquisa inscrita no poder das estrelas agudas. O pacífico mestre aguarda, sabendo que o poderio reside na paz. Da amófica curandeira de cabelos brancos escorrem as palavras que serão passadas em forma de semente brotando o equilíbrio.
No agradecimento pala salvação ela cai nas garras do monstro novamente, na certeza do teu salvar. Os olhos encerram a noite dos astros alinhados.
O desjejum foi realizado e o movimento do teu astro sonhador guia a humanidade perdida. Creio que irás ouvir uma negativa muito forte, mas jamais te entregas pois a única verdade é aquela que te faz sentir bem.
No jardim das costas espinhentas o dono do mundo repousa sobre o choro da eternidade. Ajude-o, num conselho de profetas já citados e reviva a palavra fogo que arde no lago da inspiração.
Assim, no presente momento das icterícias abertas diga as formas da salvação e serás levado para o paraíso do morto sem nome. Residindo lá até que a sua benção torne-se sagrada e o teu humano renasça na forma de agulha que sai do dentro para o fora . Sem divindades, apenas na crença.

J, M.

Donnerstag, 13. Januar 2011

Terminal de continuidade

Num descaso meticuloso pelo tempo da linha torta a visão se embaralha pelo não importar das mentiras que se esvaem quando a porta se fecha. Não entra, não sai. A lilás invenção do salvamento me aflige, não serei convencido do medo, do tarde, do erro. Aqui por de trás das minhas paredes existe apenas o meu infinito particular de desastrosos abismos calados que vivem ao lado direito do meu peito. Queda de avião, fim de festa. Não existe morte, pois esse fim só é cabível aos que socialmente se jogam no mundo. Sem saudade não há.
O carregador do celular ao lado do bidê da cama de onde não me levanto faz horas (anos? meses ?), aumenta o poderio de energias no recinto. Assim que o dia ascendeu do outro lado do mundo eu me reencostei no travesseiro novamente, longe do ti parado, perto do esquecimento. Embaixo da cama residem meus aflitos-fritos. Complementos rídiculos de um deserto onde estou rolando na areia da vida que reside cada grão do meu corpo calorento. Nada para no meu semblante de amor, um oceano de idéias apagadas pelos sóis que estão na minha lua decadente. Tudo em exagero, tudo em demasia. Algo provoca asia rimada, demência, doença. Tic-tac. Tuc. O som do tempo que perpassa nas minhas veias acorrentando-me ao pé que desliza sobre os lençóis. Levanto no aqui e agora, e digo: nada do que for eu será teu, pois o nosso prazer foi escondido na ala das tuas asas que voaram sem minha autorização.
Dedos aflitos e rígidos são o único sinal de certeza por perto. Gelado no parar eu volto a dormir lembrando do carinho amanhecido do outro lado do poente. Não há mais nada sobre o que dizer nem quero mais rezar. Presumo estar salvo nos braços do finito ambiente acalentador de seres, sumo na palavra não dita e nos lençóis que ainda estão brancos apesar do sangramento.


J, M.

Mittwoch, 12. Januar 2011

Jardináceo

Elas residiam aqui, ao meu lado, naquele jardim imenso e descuidado. Enormes, majestosas confusas. Rosas. Alheias ao meu pensamento eu tinha a certeza da sua vivência. O perfume clichê exalado por elas fixava-se em minhas mãos. O poente dos seus acúleos residiam fixos e paralelos ao meu peito. De folhas verdes como deve ser eu me alegrava na noite escura e rosa.
Cada uma com sua peculiaridade, toda ela com sua dor. Caminhando na terra seca onde suas raízes residem a sete palmos de distância dos meus pés suculentos. Vez ou outra eu era ferido, algo que não machuca quando você está encantado, a dor esconde um algo de prazer no íntimo.
Tentavam comunicar-se com a ajuda do vento, tinha a impressão de que a qualquer minuto eu seria expulso dalí num jato de coloração indefinida, não fui. Deixaram-me na impressão e conquistavam-me com seu balanço. As sépalas rijas que ostentavam o pseudo-fruto florido jaziam no caule das incertezas duras. O destino delas era me servir de alimento.
Uma a uma eu fui cortando, num pudor ressecado pelos anos de solidão. Em luz do dia que começava a brilhar eu podia observar o término/realização do serviço que me fora predestinado ao nascer.
Um apanhador de rosas num campo de ervas-daninhas.
Amontoadas num canto da peripécia do meu lazer, elas mordiam seus lábios de compressão na vagina do polén. As mais pequeninas tentavam abrir-se para me entregar o resto de vida que jazia nos seus furúnculos de grito contido.
As mais venenosas se derramavam no chão para eu nunca mais poder encontrar. Todas as roseiras continuavam ali, sem colorido. O verde era parte da minha nova cútis e minha cabeça inchava em detritos de pétala. Nos meus pés as raízes traídoras que haviam deixado serem arrancadas me enlaçavam. Agora, os espinhos me amedrontavam, eu não tinha proteção, tranformara-me na rosa dentro da rosa. E lá no jardim eu era o único amaldiçoado. Florescendo eternamente no meio do vazio. Sem um admirador ou nem mesmo jardineiro que pudesse apaziguar a menina que existe dentro da mais bela flor do ego. O eu.


J, M.

Dienstag, 11. Januar 2011

Alcance

Meio que comentei... e obrigado por interferir no meu aprendizado com essa imagem misteriosa revelada a pouco.
Isso lembra uma poesia de um autor muito ruim. O ruim nao tem a ver com o seu texto, só o fato da natureza nos sequestrar... ou melhor... nos resgatar do humano demais.


"Agora, explícitas, as plantas fazem do meu corpo seus campos
e regam meus poros com seu choro de lótus,
abraçam meu pescoço com raízes e suplicam, aos prantos,
que um dia eu seja natural como elas, gotas de gozos.

A terra, em um gesto descarado, povoa e invade as correntes
sanguíneas através das unhas espaçadas com resquícios
da fauna que inebriam as raízes que já dominam, ó serpentes
da natureza e suas garras: espécies de deliciosos suplícios.

E, com a água das matas invadindo meus olhos, como quem compensa,
todas as lágrimas das nuvens de ódio no céu do meu pensamento,
construam lagos e oceanos imensos. A alma é um infinito relampeio!

Ora, pureza, tu és os troncos infestados de vida; as flores de menta,
os sabores da língua do vento que prova os adornos sangrentos
e incita, provoca a tormenta na alma; erupções seguidas de um beijo!".


J, M.

Montag, 10. Januar 2011

Efeito placebo

Flores petrificando o meu estado eufórico. Comendo pétalas com mel de abelha morta. Sob meus pés o verde chora e abraça meus dedos frios. Na alma, grita poesia inconteste. A ponta do dedo dormente contra os gritos loucos do âmago púrpura. Rosas, lírios, margaridas, giraluas. Colho e entrego no revelar dos cérebros. Boneca com aids. Flor sem espinho.


J, M.

Sonntag, 9. Januar 2011

Julietos de amor


Chá de melissas ressecadas ao sol sebastiano de uma quinta-feira vazia, como todas as outras de todo mundo. Há muito de poesia em tudo quando não se sabe a definição de algo. Escrever liberta de maneira que a sua prisão é abstrair e, num fluxo descontínuo, os exercícios transformam-se em prática de uma obra de arte manuscrita, que não liga para padrões ou concessões.
Não existe controle, todos vivem num sarcasmo a esmo do sol escaldante, das areias terrenas do meu coração eternamente inebriado pelo sorrisso jacarelado de Camila (a minha pequena e eterna pastora vestida de branco, cheirando a rosas extintas).
E era de Camila que gostava Alberto e Alberto que Camila amava. Cambaleantes despertos em meio a escuridão fogosa das noites atrevidas naquela cidade gelada e mesmo assim regada pelas bebidas refrescantes dos trópicos. As juras de amor tontas como baratas ao se defrontarem com a comida, receoassas sabem sempre haver um perigo, mesmo assim atacam o alimento como se aquele pudesse ser seu último regaço de vida. E realmente é, pois cada momento é único e a tentação de cada comida é diferente .
De dinherio não sabiam nada, nem o tinham para querer saber... Tinham era um cão, sem nome; aliás, todos nessa cidade têm um cão, é como um guarda, é uma lua, é um maçã em forma de câmera secreta que filma cada momento com polpa e semente ao léu ficando preta com a passagem dos dias até o apodrecimento consumir-se em inexistência.
Não olhavam para trás, não havia motivos para isso. As mãos enroscadas na certeza de quem faz a coisa certa. Eles seguiam o fluxo de que eram obrigados a aceitar para poderem julgar-se fiéis. E nisso eles andam e desandam naquele amor apelativo de gente mesquinha, que logo tem filho, depois trabalha, sustenta, cresce , olha o neto pedindo colo e a vida se foi sem mesmo ter existido. Sabiam que todo seu futuro iria ser assim, até eu sabia. São coisas que todos sabem, porque as coisas conversam coisas entre si e nós as consideramos estranhas, já que não possuímos a capacidade muito menos a vontade de ouvir.
Lá, segue o casal casado. Rumo ao destino onipresente de cada sensação humana que lubrifica a passagem neste mundo sobrepujado de realidade, deformando as costas e massageando os pés com porretes de ódio e no escalda-pés do amor a paciência aflora.
Lá se iam, viam, riam. Cotovias afoitas de formas desertas que tentam controlar-se, mas para que controlar algo que é tão inconsciente e nos faz delirar em suspiros eternos por vários minutos? A satisfação brejeira do amor total. A multidão nem percebe de tão discreta a forma desse sentimento, nascido, floresce e seus frutos vão autosemear-se mais e mais, sempre mais. Demais. De tanto que há, perde a essência. E nessa vai o nosso casal amante que já perdeu faz tempo a inocência.


J, M.

Samstag, 8. Januar 2011

O possuir

“Certo dia acordei numa empolgação, decidí escrever um livro, algo completo. Sim, com capítulos, temas inspirados em Clarice. Desisti logo no primeiro dia. Aí, está tudo que escrevi sobre o tal romance ou sobre o que ia ser um romance, um algo que fala sobre si mesmo, com vida própria e que vida mágica”


A interpérie bárbara do segredo é tudo que possuo. De uma grande montanha vejo todos vocês e digo no intuito de explorar, tentando chegar à uma forma sem fôrma e de luz envolvente, mesmo sem possuir qualquer resquício de energia. Não mais.
Até a minha negritude planar, não cessarei. Tenho ainda muito crédito para jogar, basta achar quem aceite o desafio. Brumas etéreas repousam sob a casa de telhado pontiagudo, plantas ornam a entrada para que ao entrarmos nela possamos ser envolvidos pela forma que tudo reveste na tentativa do conteúdo.
A estética é das mais barrocas, o anjo é o mais hermafrodita. Sussuro aos seus ouvidos o nome-que-não-deve-ser-nomeado. Ele arrepia, arrepio. Numa beleza infernal apunhaladora (tudo sempre continuará belo, isso dói).
Podes falar de satisfação e ainda assim vais enxergar os olhos do mistério cada vez mais próximos. Os tremores da tentativa pingam sob minha testa e os dedos cansados atestam minha idade avançada.
Do ventre imaginário (imaginação?) brotam dizeres proféticos do algo perto do fim, deve ser o parto. Esquecendo regras, sigo na tentativa da demonstração. A regra é indiscutível e repousa sobre nossas faces. Tentam quebrá-la, redimi-la. Ela continua, pois essa é a regra da regra; como a rosa dentro da rosa, comandante espinhenta das dores. Num gosto basílico as asas ouviam a frustração do estranhamento.
Velocidade dos corpos variável para que possamos nos encaixar. Nem o direito de sermos únicos nós temos. A perfeição, nosso modelo de vida existe e situa-se sempre do lado de fora. Enquanto isso nos perdemos em nosso labirinto, fugindo do minotauro, do eu.
Os traços dessas palavras sempre são retas por mais tortuosas que pareçam ser, pois se não fosse assim, como poderiam elas atravessar meu peito com tanta precisão?
Como língua de mariposa à procura de néctar, colocando seus ovos lagarta pelas esquinas, sem conseguir absorver o que diz, apenas sabe que acontece. Continuo sentado no verde com o grilo símbolo da esperança ao meu lado anunciador do verão.
Abaixo de tudo existe a terra vermelha, ressecada pela própria cor. Os pardais fazendo seus ninhos em meu ouvido com os restos de vida frutífera. Morros, colinas, ladeiras. Passagens difíceis de serem atravessadas, desafiam as pernas e perco o equilíbrio estilhaçando a taça diamantada que era promessa de vida, agora não é mais do que caco de ilusões.
São águas do dilúvio, são sapos e rãs. Distante a cidade luzidia com seus crimes banais comparados com o assassinato da trangressão que ocorre nos habitantes da sensibilidade. Esponjas amareladas de tanto se esconderem absorvem sem divisão todas as possibilidades de sonho.
Vejo cada vez mais a febre da minha maçã encefálica quando observo a tua certeza perante o balde de emoções esbanjadas pela arte.
Espetacular o receptáculo de investigações corpóreas que realizo com teu sexo brincalhão. Os morangos mofados quase no apodrecimento geram discórdia e continuo aqui, na descoragem de mexer no estragado. Planta de folhas enormes que de tanta sombra estrangula-se matando tudo à sua volta, afinando seu caule, enforcando suas raízes. Tudo, na chance de fazer uma fotossíntesse infinita, prosssigo. Em forma de cloaca manipuladora de sonhos, descrevo. Na hora do tocar, tento. Se nada ocorrer, continuo.


J, M.

Freitag, 7. Januar 2011

Tratamento da inocência

Um tipo de terapia, é o que começo a fazer. Eu agora acordo todos os dias. Que horas? Não importa, tempo é apenas uma questão de cor. Eu começo chupando gelo. Algo que dói na boca e vai se alastrando pela garganta; às vezes, o sentido é inverso mas nunca agride, refresca. Derrete e vira parte da gente. Começa sólido e agora não é mais nada.


Depois eu dou uma volta e me entrego para as plantas. Faço sexo e carinho nelas. É diferente, é legal. As roseiras cuidam para não me ferir mais do que já estou. Com a urtiga já não existe esse cuidado, pois ela sabe que vai doer e avermelhar sem sangrar. A dor nós conseguimos suportar, desde que o algo que nos machuca fique dentro de nós.

Agora chega um período crítico: o de escrever. É mito difícil e prazeroso. Existem dias em que eu não aguento de tanta paixão para e pelo que escrevo. Em outros eu choro até desmanchar o escrito. Nem sei o motivo pelo qual esse método ainda está contido na terapia, ele é um vício camuflado em sensação e me trato justamente para não ter vícios (o que é impossível). Não gosto muito de comentar sobre o escrever, ele é incomentável, pode apenas ser lido e na releitura você pode até enxergar a loucura que é.

O almoço é belo, alivia. Eu como muito, tudo que absorvo vira parte de mim, por isso tomo cuidado e seleciono muito bem meus alimentos. Tento embelezar a comida para os olhos aumentarem o apetite e eu poder me entregar mais à fome. Isso é demorado e sei que ainda não sou capaz de ser perfeito nesse quesito. Perdoem-me, mesmo não fazendo de forma exímia eu continuo já que tenho fome.

A tarde eu reservara para conversar. Acabei desistindo porque, quando você não sabe com quem nem o que falar, é algo possível então de se fazer sozinho. Então esse é o momento do pensar. Quando penso demais, durmo. Acordo tarde demais e, às vezes, irritado. Os planos esvaíram-se todos por causa de uma tarefa que não traz nada a não ser perguntas. A hora do jantar passou, o dormir é trocado pela insônia, a caminhada vira angústia rolando pela cama.

Amanhã vai ter tudo isso e um pouco mais, com cores diferentes e sabores iguais. Existem raras ocasiões em que o gosto das tarefas muda e é nesses momentos que aproveito para ir no fundo do sentimento e o poço não tem fim, jamais, nunca. A terapia é constante e agradável para quem não sabe o método “correto” para se tratar e nem ao menos o que tratar, sem saber se é doente ou mais saudável do que os outros. Sigo então espalhando a receita do meu experimentar.

 
J, M.