- O que você está fazendo?
Rasguei os papéis de parede achando que tivesse que deixar entrar um pouco de luz. Você fechou a porta e me esqueceu do lado de dentro, sozinho. Na companhia do meu caos, aquele que sempre fujo. É como sair de casa aos 18 anos sem perder a inocência... até aquele momento.
Inocência não existe. Aliás, me refiro a do tipo fanática, lembrada com saudade por todos. Lembro de jamais ter sido inocente, lembro de ter olhado as coisas com vontade, como novidade e como perpetuação. Ela não existe e não se perde porque nada muda. Nem quando se entra num rio.
É desestimulante ouvir que sempre se muda. Às vezes, chega a enganar. Muda quando entra num rio, quando sai de casa e o vento toca o rosto, quando se deita com alguém, quando se queima ao sol ou quando se pula de uma janela. Eu não aceito mudar nem ser violado de tal maneira. Nada do que foi citado toca meu espírito – literalmente.
Desde aquela data constrangedora eu senti vontade de roubar tudo o que passa dentro ou diante dos olhos daquele animal que nos observa por trás daquele monte de mato; ele tem a visão detalhada de tudo o que eu vejo em você e do que você vê em mim. Eu abraço você e ainda assim nada toca meu espírito, mas sinto com pesar a ingenuidade das lembranças do que ainda costumamos ser, do que ainda nos empurra e nos obriga a continuarmos abraçados.
Isso é perfeito demais. Como um bolo confeitado, como a leveza de um feliz aniversário. Parece que passamos o dia todo trabalhando naquilo. Nos consumindo de forma cíclica. E sempre nos deixamos ir sem perguntas nem espera, sem precisar contar uma história de príncipe e princesas.
Vamos desmembrar nossas mágoas e esperanças, as bizarrices e conversas de bilhetes. É uma idéia maravilhosa e a conclusão genial. Precisamos de um pouco de luz, precisamos deixá-la entrar. Foi agradável, tão agradável quanto os dias que tínhamos aquela idade. Ter uma vida, pensar nessa vida, claro, nem sempre é estimulante. Mesmo quando olhamos para quem é infinitamente infeliz.
- O que você está fazendo aqui?
J, M.
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