
Assim que estiver lendo esta carta, provavelmente já estarei no aeroporto.
Saibas, primeiramente, que eu amo você. Jamais estaria aqui, neste momento, me arriscando em uma grande aventura sem nada muito concreto, se não fosse por seu imenso carinho e paciência.
Acho que mesmo quatro anos sem notícia alguma sobre ambos, não foi o suficiente e nunca será o bastante para diminuir nosso amor. O que me incomoda é a sensação que vou partir deixando algumas coisas pendentes. Talvez seja pelas noites e madrugadas que fiquei em diversão virtual com a galera e resolvi dormir até mais tarde; talvez pelo fato de que, quando eu acordei, você não estava lá para tomar o café da manhã do meio-dia; talvez por termos perdido valorosos almoços em "quase-família"; talvez por alguns de nossos raros desentendimentos; talvez por aqueles dias que você resolvia não me querer ver pela frente quando algo no trabalho estava te irritando; talvez porque eu ficava no quarto escutando música ao invés de te encher de beijos; talvez porque eu sempre passava horas no telefone tentando matar saudade de alguém que mais a frente iria parecer ridícula e, mal sabia eu, que a verdadeira saudade estava por vir nesta carta; talvez pelo fato de muitas vezes você não se mostrar a mãe presente, não revelar o amor materno e mesmo assim eu morrer de rir vendo você chegar cansada, mal-humorada, desarrumada, pouco apreciativa, te amando sempre mais. É coisa de filho que entende que todo sacrifício é por um bem maior, sabe?
Ah! Mas não há quem consiga apagar todos aqueles dias que eu, quando criança, era bem mais feliz e sem preocupações posteriores por simplesmente ter você ao meu lado em tempo integral, me defendendo. Aqueles abraços fortes, calorosos, aconchegantes, amorosos. Era uma sensação real de estar superprotegido, que nada poderia me atingir mesmo, claro, que não tivesse consciência sobre os cuidados que jamais podem ser comparados ao que quer que seja (...).
Como esquecer os nossos momentos de descontração? Aqueles que você folgava pra tentar viver e, mais uma vez, eram momentos indescritíveis. Nossos momentos escutando músicas juntos, assistindo dvd's, das nossas conversas em que te contava tudo sobre meus sofrimentos, dúvidas, sobre o novo... ah, faz voltar, por favor!
É, sei que apesar de você ser mãe... Aquela mãe que, por mais que o filho cresça em outros sentidos, a seu ver vai ser eternamente: a criatura frágil que sempre vai te causar preocupações cruciais. Vai sempre te fazer perder o sono e ajoelhar-se no chão frio para pedir, desesperadamente e com o coração na mão, que o Senhor Supremo proteja com todas as forças. Sei que por mais que seja essa grande mulher, você não controla o tempo.
Lembrar das dores e preocupações de uma mãe, me deixa fraco, triste... com vontade de chorar.
Um dia, todos têm que aprender a voar sozinhos, já dizia algum sábio. Mas, sabe, só queria te abraçar... Poxa! Espero eu aprender bastante com essa dor. Passei a pensar mais em você. Me preocupa, agora que estou distante, se você vai ficar bem; me destrói a paz de espírito ficar pensando quem vai te proteger, na minha ausência.
Saibas que te levo na minha mente, coração e bolso (risos). Espero que meu estado psicológico jamais perca o equilíbrio que mantém minha fé em, futuramente, te ver outra vez.
Ah, antes de sair de casa, peguei algumas coisas da geladeira e da dispensa. Por sinal, estou escrevendo essa carta comendo aquele bolo de cenoura e chocolate que eu sei que você deixou, pra mim, em cima da mesa. Bolo que há muito havia me prometido.
Bem, assim que chegar eu te ligo. Prometo chegar inteiro e que vou me comportar. Prometo!
A propósito, ficaram algumas roupas em cima da cama; não coube tudo nas duas malas. Minha luva e minha bola de baseball ficaram dentro do guarda-roupa, algumas anotações da faculdade em cima do criado mudo, algumas roupas sujas pelo chão. Desculpa, mãe! A pressa um dia ainda vai me fazer perder a cabeça.
Diga que deixei um abraço pro pai e pro irmão - os amo com todo meu "cosmo". Mande muitos beijos para o vô e para a vó; volto a tempo da boda deles. E diga, também, que quero muito dançar com ela, no mínimo, duas músicas.
P.s.: Mãe! Por favor, entrega os cd's da Jaiana por mim. Peça desculpas em meu nome. Ela entende meu jeito pouco preocupado.
P.s.: Sonhe sempre comigo e, antes de dormir, dei sempre um carinhoso beijo no meu retrato que coloquei próximo ao seu telefone.
No mais... Amo você, Mulher da Minha Vida!
J, M.