Mittwoch, 27. April 2011

Trêmulo

- O que você está fazendo?


Rasguei os papéis de parede achando que tivesse que deixar entrar um pouco de luz. Você fechou a porta e me esqueceu do lado de dentro, sozinho. Na companhia do meu caos, aquele que sempre fujo. É como sair de casa aos 18 anos sem perder a inocência... até aquele momento.

Inocência não existe. Aliás, me refiro a do tipo fanática, lembrada com saudade por todos. Lembro de jamais ter sido inocente, lembro de ter olhado as coisas com vontade, como novidade e como perpetuação. Ela não existe e não se perde porque nada muda. Nem quando se entra num rio.

É desestimulante ouvir que sempre se muda. Às vezes, chega a enganar. Muda quando entra num rio, quando sai de casa e o vento toca o rosto, quando se deita com alguém, quando se queima ao sol ou quando se pula de uma janela. Eu não aceito mudar nem ser violado de tal maneira. Nada do que foi citado toca meu espírito – literalmente.

Desde aquela data constrangedora eu senti vontade de roubar tudo o que passa dentro ou diante dos olhos daquele animal que nos observa por trás daquele monte de mato; ele tem a visão detalhada de tudo o que eu vejo em você e do que você vê em mim. Eu abraço você e ainda assim nada toca meu espírito, mas sinto com pesar a ingenuidade das lembranças do que ainda costumamos ser, do que ainda nos empurra e nos obriga a continuarmos abraçados.

Isso é perfeito demais. Como um bolo confeitado, como a leveza de um feliz aniversário. Parece que passamos o dia todo trabalhando naquilo. Nos consumindo de forma cíclica. E sempre nos deixamos ir sem perguntas nem espera, sem precisar contar uma história de príncipe e princesas.

Vamos desmembrar nossas mágoas e esperanças, as bizarrices e conversas de bilhetes. É uma idéia maravilhosa e a conclusão genial. Precisamos de um pouco de luz, precisamos deixá-la entrar. Foi agradável, tão agradável quanto os dias que tínhamos aquela idade. Ter uma vida, pensar nessa vida, claro, nem sempre é estimulante. Mesmo quando olhamos para quem é infinitamente infeliz.


- O que você está fazendo aqui?


J, M.

Freitag, 15. April 2011

Pensez-vous que l'hiver sera rude?

- Por que tu me ignoras?

Sempre perguntei e ele nunca respondeu. Apenas persistiu no comportamento.

Ele fala muito, pelos cotovelos, pelas pontas de cigarro, pelos copos de cerveja. Com todos e por todos, menos comigo. Faz pouco caso das minhas perguntas, das minhas intenções. Não faz nem o caminho da mea culpa quando me torno mais direto. Sai correndo.

Até pouco tempo atrás, a sensação era de estar sendo rondado. Ele nada dizia, mas observava-me. Claro que casualmente, sem nada querer. Era a impressão que tinha da nossa relação, se é que assim posso chamar. Atualmente nem isso. Não posso mais te ler.

Meu avô morreu, comuniquei e ele nada. O ano acabou, comuniquei e ele só muito tempo depois. Viajei, comuniquei e ele se deteve por uns instantes, parado na porta da minha vida, olhando além de mim, para as coisas que já foram dele. Vou embora, comunico e ele manda mensagens pelo descaso. Assim, para o vento trazer se quiser. E quando eu disser que fui embora para não voltar? Ele irá se manifestar?

Não sei se ele lembra, mas eu disse:

- Quando deixo de amar é uma verdade irreversível. Aquela pessoa se transforma em nada. Ou amo ou não amo. Não sou de me dividir em dúvida eterna.

Tento, mesmo aos trancos, ser amigo. Atitude no singular mesmo, pois a recíproca não é verdadeira. O que ele é hoje eu não sei, mas amigo meu não é.

Sei o que sou quando te ouço porque ninguém mais quer. Quando eu escuto as piores respostas, ofensas. Quando te enxergo nos piores momentos e não te peço pra sumir e só voltar quando fores uma pessoa de bem. Quando te desejo boa noite e sorte. Sei que me procuras quando todos te esqueceram. Sei que me achas quando te encontras no meio do nada.

Por mais doloroso que seja, sou consciente dessa realidade sem lógica. Não fazes isso por mim. Só fizeste quando havia amor e, agora que ele foi embora, não és capaz de fazer mais nada. Não pertenço ao rol de pessoas que merecem um diálogo da tua parte. O que eu não entendo é porque não és capaz de encarar o meu olhar. Por que é mais fácil dar as costas? O que é tão difícil em sentar à minha porta novamente e falar de amenidades, sem precisar entrar na vida infinita que tem por trás das paredes? É medo delas te engolirem?

Eu pensava que a essa altura da história, esse tipo de mensagem não fosse mais necessária. Era a melhor das minhas perspectivas, daquelas que você deixou na estante da sala, querendo minha valiosa amizade quando o amor acabasse.

Será a tua dificuldade padrão em cumprir promessas? Será a tua necessidade vital de escorregar das pessoas quando elas não querem nada além de uma resposta?

Será que sou eu, de novo, cismando em te decifrar e, várias vezes, acertar?

Sigo perguntando no vale do silêncio.


J, M.

Mittwoch, 6. April 2011

Lotado de culpa

O que vale é não se render. O triste não é essa cena depressiva, remoendo com rios de lágrimas o porquê do inevitável, ensaiando na frente do espelho o sufoco e desespero em que nem mesmo se reconhecerá. A tristeza se concentra no fim, às três da manhã, ou qualquer outro horário que você escolha voltar para casa depois de dizer ‘até logo’.

Frente a felicidade alguém o inveja, alguém não se contenta, felicidade alheia nunca é suportável. É sempre pouca, disforme ou ilícita. Se for para encará-la, então, nem a curto prazo; ninguém consegue nem encarar-se. É melhor andar lado a lado, de mãos dadas – como ajuda para atravessar a rua.

Seria bom poder colocar variados tipos de película para cada momento da vida, em sintonia com o nosso humor. Que ao menos a realização fosse conquistada após noventa minutos de projeção, ou quem sabe dez minutos antes. É substituir o momento da dor por algo mais brando, uma trilha sonora mais leve, cenas lentas ou rápidas, uma fotografia impecável.

Por fora só o sorriso. Brilhante, amarelado, cínico e até faltando os dentes. Por dentro tem dias que as coisas só despencam, em outros se escutam os batimentos cardíacos e a gente até sente um pontada no peito, cólica ou uma dor de barriga. Abre a porta, sente o frio, congela. Congela tudo. Hoje, desde a decida dos três degraus, vou ser só pensamento. Vou ser de fato contemplação, sem contar as horas. 

Ninguém sofre por amor, pessoas sofrem porque se subestimam. Nos deixaram não por falta de amor, foi por vontade de uma liberdade não compartilhada. É um direito aquém de egoísmo. Entender amor por somente delegar responsabilidades, anulando as consequências, é traiçoeiro; sendo assim nos tornamos nosso próprio carrasco, nos personificando como o fracasso cósmico, decepando a cabeça sempre que puder para esquecer o agora. Problema é firmar compromisso com marasmo e acordar com melancolia. É fácil pensar que término significa inicio. É fácil seguir em frente.


J, M.

Samstag, 2. April 2011

Por ontem

Já faz um tempo considerável que eu sinto que uma parte significativa de mim entrou em coma. Sem a tentativa final de querer encaixar ou falar sobre aceitação, pois penso que seria o mesmo que demonstrar que já explorei os caminhos mais surpreendentes e chatos sobre a solitária e lúdica maturidade. Não é o caso de preferência, mas sim de comodidade em manter uma concepção única de que seria tudo mais empolgante e eterno (como os sonhos) se a vida fosse só juventude – mesmo que fisicamente.

E esse é o mesmo tempo em que eu talvez – não estou certo – passava horas precisas na janela, frente a selva de pedra, observando o que todo dia parece ser o mesmo, nas mesmas horas. Eu, que de certo modo, agi com pouco caso e o deixei de lado, agora volto a tê-lo; eu, que antes pensava que havia morrido ao seu lado, coberto de sangue e lama, porque escorria sangue por todos os lados. Agora não mais com essa idéia de morrer por você nem morrer ao seu lado.

Perto de partir em direção a três destinos que se transformam em um, reservo as últimas e decisivas horas para voltar a nostálgica rotina. Mais do que tentar sentir o ar poluído e íntimo, ao debruçar-me na janela, é assistir mais uma vez a configuração de cores que deixou de ser para mim apenas uma vista e se fez uma impressão leal do que circula, passou ou passa dentro de cada célula minha; o espetáculo notório daquilo que fez parte da minha vida por alguns anos. E assim o dia acaba onde eu me encontrei. Eu só faço olhar para cima e enxergo o céu. Eu gosto do céu. Eu gosto do céu, gosto de contornos.


J, M.

Freitag, 1. April 2011

Até

Já tenho data marcada pra dizer adeus.

Escolhi um dia pra me enterrar na memória de vocês e viver em outros corações.

Ou simplesmente pra entregar minhas malas a um desconhecido e pedir que diga ao povo que estou fugindo.

Vai ser o domingo mais longo do ano. Pelo menos até que encontre alguém pra encher meus fins de semana de cigarro e sussurro.

Será o ano mais longo, dizem que uma maré de coisas muito boas vem aí.

Desejo que a cada vez que abrir os olhos possa enxergar um alvorecer mais promissor que o outro.

Do fundo do meu coração.

J, M.