Freitag, 29. Januar 2010

A seca

Existe um momento em que domina o instinto. Tal qual droga, nos afeta os sentidos. A escolha é simples. Ou sou o desejo ou lhe esfaqueio. Extravaso a mim para ser eu mesmo.


A mente fica vazia. Os pensamentos ficam, mas as idéias vão (estou fazendo algum sentido?). Nada é mais detestável que sentir falta do sexo. Tão animal que soa. As imagens são o pior. A memória decide funcionar com precisão impecável para os detalhes. Quando não se conhece não se tem as imagens. Jamais deveria ter provado.


Flash: o corpo deitado sobre o peito desnudo, ainda suado. A boca, que o ultimo beijo não deixou esfriar, solta ar no meu ouvido. Minha mão procura devagar, instintivamente, pela intimidade...


Explicitar, penso, é a melhor forma de se destituir. O explicito sempre queimou meu tesão mais rápido que qualquer outra coisa. Não que eu queira ser o possuidor eterno (até a expressão não me cai bem), mas não me excito com algo que esteja para todos os olhos. Sou mimado, de fato. Na cama, há de ser quem quiser, mas que seja para mim.


E foi-se o bendito tempo da casualidade. Depois da decisão de parar de rolar e, quem sabe, criar algum limo, a loucura casual que essa jovem cidade pode oferecer perdeu sua graça. Amigos voltaram a ser apenas amigos. Contudo a realidade está aqui. O romantismo que vai acabar me transformando em um cínico, parou de se esconder atrás da ilusão de diversão. O melhor mentiroso, dizem profissionais, é o que acredita na própria mentira. Quem será enganado agora?


Eis o problema, portanto. Há o coito. Há apenas coito. Só que as complicações é que são o meu forte. Por isso eu estava mentindo no parágrafo inicial, existe algo pior que sentir falta do sexo. É sentir falta do drama.


J, M.

Mittwoch, 13. Januar 2010

Uma estranha cadência

É alucinante. O bombardeio, o fluxo, as mensagens, são meteóricas. Passam por mim como vento, com aqueles grãozinhos de areia insistindo em perfurar a pele. Tentam me levar pra trás, mas eu resisto. Até que resolvo saltar, e viajar com eles. Uma luz perturbadora invade o meu estômago, de baixo pra cima, até fazer tudo virar de cabeça pra baixo. E girar e girar. Sou um pedaço de luz, cadente, viajante, livre. Informação. Sou levado pelo vento; uma viagem louca, translúcida, transversal e horizontaldina, com muito fervor de adrenalina. Até que consigo alcançar uma pequena foto três por quatro e...



-



... tudo escuro, o tempo pára. Nesse momento, somos só eu e ela. Na foto, seus olhos me dizem uma única mensagem. Uma profundidade inalcansável de um olhar. Tudo gira, é apenas um globo da morte. Então mergulho na foto.



Eternidade.



É uma estranha tensão entre o ser atemporal e o estar instantâneo. Um leve arrepio que percorre desde a infância até a efemeridade de uma ruga. De repente, tudo parece tão obsoleto. Volto à cena de uma leve troca de carinho, um olhar, no canto de uma sorveteria. Sou fragmento de eternidade, digitalizado, impresso, reticulado, imortal. Um pedaço de papel voando a percorrer o mundo inteiro junto com as folhas secas. Um amontoado de dados a se reconfigurar numa rede infinita de significados. Um breve sorriso, espontâneo, artificial, arrepiante. Um quase gemido de felicidade. E não vivi. Feliz. Para sempre.



J, M.

Sonntag, 10. Januar 2010

Azulniverso

o ziper se fecha
invólucro.
casulo.
eu.
,
um lugar
um não-lugar
um talvez-lugar
um certamente-absolutamente-lugar
território imaterial
quadrado
retangular
poligonal
cilíndrico
esférico
escorrendo
líquido.
,
o ziper se fecha
posso ser o que quiser
em qualquer época
em qualquer pessoa
em qualquer enredo
em qualquer absurdo.
sou sombra
fluida
traiçoeira
artística
eclética
indefinida
qgcpajeç's
oo
esquizofrênicas esquizofrenias
o ziper ainda não fechou
estou tecendo
estou moendo
estou roendo
sim, roendo
estou cantando
dançando, espremendo, dobrando
linhas, retas, tortas, bordados
pautando o céu
com beijos
...
sem ziper, sem saída
um invólucro.
uma gota.
um oceano particular
um infinito azul, meu coração, alma, sangue
um sonho vivo,
e as pessoas lá fora
e os humanos lá fora
e os bichinhos lá fora
e as plantinhas lá fora
e os ventinhos lá fora
o mundo;
em outra dimensão
tão distante que posso tocar.
eu
vivo no buraco negro
nas plumas
nas nuvens
nas molduras
moles
e duras
posso vê-los, mas eles não me vêem
hahaha!
aah
me torno invisível
morto para o mundo
nascimento em potencial
surgimento em potencial
aparição em potencial
assombração indesejada
transparente
invisível
vago
entre eles,
sem me mexer
broto em meio a seus cabelos
em meio a seus seios
sou fruto de seus sonhos
flutuo no suco
bebendo estrelas
e girando dentro de um globo que simula movimentos translatórios em
3d
sou eu, o detalhe
sou eu, o imperceptível
os ouvidos das paredes que têm ouvidos
sou eu, que passa despercebido ao olho nu
curtindo
alimentando
dançando
nadando
entre vocês
surfando
numa bolha de infinito prazer
de infinita doença
de infinita loucura
de mim
de nós
de ti
de
.



J, M.

Donnerstag, 7. Januar 2010

Frieza e marxismo

A Pós-Modernidade lança uma maldição: uma chuva de gelo nos corações das pessoas. E é incrível quando notamos que também estamos assim. É algo triste, melancólico, uma finalidade sem fim. Uma obra de arte ao avesso, o indivíduo pós-moderno. Abandona seus laços, suas raízes, suas vestes. Deleita-se em jornais entre cadeiras reviradas em uma calçada. Não enxerga mais ninguém. Não dá valor à nada, nem à si mesmo. Perambula por um objetivo que nunca chega, por vontades momentâneas nunca saciadas, e a vida passa. Passam os anos, passam as pessoas, morrem as pessoas. Morrem as pessoas. Morrem as pessoas. Morrem. Morrem. E não resta nada a não ser cinzas de inverno. É o aquecimento global. É o frio. É o descaso. Sou eu, descalço, brincando de patinar no gelo, à beira de um precipício. É você, um precipício humano, a me esperar, pra que juntos possamos nos encontrar na eternidade, sem nunca completarmos nem contemplarmos um ao outro. É a mãe natureza, clamando para ser vista, mas seus filhos pisam, pisam, pisam e pisoteiam, eiam, eam eiameiameiameiameiameiameinteiramente. É um mundo com paredes de lajotas que não deixam brechas. Não há escapatória, quer dizer há, mas cala a boca, eu não quero saber! Quero que tudo dê errado no fim! Quero acumular munição durante toda uma vida, pra que no final tudo se volte contra mim em forma de arrependimento...!
Aprendemos a viver errado. Nos obrigamos a viver errado. A vida é errada, tá tudo, tudo errado! Não devaria ser assim! Deveria aparecer uma doença, uma greve de ônibus, um estado de calamidade, uma emergência qualquer que converta tudo o que é normal em anormal, porque só assim, só assim, pode-se reverter alguma coisa, nem que seja por alguns instantes, e, então, poder perceber o quanto o habitual, o banal, o normal, enfim, a vida, o quanto tudo isso é tão, tão, mas tão errado.


J, M.

Montag, 4. Januar 2010

Tempotempotempo

Mais um mês, e já foram cinco.
Mais uns dia e se acaba um mês.
Mais um mês e se acabam os seis.
Mais um mês e se acaba o tempo.


Se acaba o tempo, e se acaba o limite.
Não se acabando o limite, pois pra isso não há o limite.
O limite chama-se paciência, ou talvez o destino, quem vai saber.
O destino pode se chamar tristeza, às vezes.
Lágrimas podem dizer muito mais que simples águas regadas a sal.


Distância pode aumentar como o tempo.
O tempo pode apagar lembranças.
O tempo pode colocar amores em chamas.
O tempo pode transformar pedras de gelo.
O tempo pode amanteigar.
O tempo pode queimar, desfalecer.
O tempo é poderoso.


Às vezes o odeio, esse tempo.
Muitas vezes queria que simplesmente não pudesse se mover normalmente.
Porque ele teima em ser apressado?
Porque nos faz esperar tão impacientemente, quando quer porque quer passar devagar?


Não falarei de relógios.
O tempo é invisível.
O tempo é surdo.
O tempo é mudo.
O tempo é cego, infelizmente, pois assim não pode ser piedoso.
Poderíamos chamá-lo de justiça.


Às vezes odeio essa justiça.
É injusta.


J, M.

Freitag, 1. Januar 2010

Um Não-Lugar

Queria poder me jogar de um lugar bem alto, bem alto. Mergulhar nas trevas da noite, sentindo minha alma se transbordar em estrelas, e me deixar levar pelo vento das nuvens. Pra cair numa piscina, atravessar o reflexo da lua cheia, e encontrar alguém. Alguém que está lá, a me esperar, de braços abertos, meu amor, meu mais complexo e maravilhoso sonho em matéria e espírito.
Existe um lugar por aí que eu ainda não conheço. Mas sonho com ele... é uma praia sem mar, uma lajota infinita, uma nuvem, um som. E nesse lugar eu respiro e sinto sabor de música de fundo. Um lugar onde a carne é prazer, e o prazer, imaterial. Um lugar onde eu possa sentir uma febre gostosa e uma fraqueza que me faça sentir bem perto do chão, como somos doentes. E é lá que eu vou dormir, e sonhar com uma realidade lúdica e quase fantasiosa.
É a água da chuva no meu rosto. Um frio gostoso atravessando o meu corpo, e meus dedos sendo engolidos pela terra molhada. É uma tela com uma mulher de chapéu preto cuidando de seu cavalo branco. É um simpático velhinho trazendo minha mais sonhada televisão vermelha em sua caminhonete, que me transportaria pra sempre para um universo de sonhos.
É um sonho cheio de camaleões pretos e estrelas cadentes, com um assassino em série me dando seu cartão e seu saco cheio dos próprios restos mortais. É um banho de velocidade com um capacete preto e respirando por um aparelho que nunca foi inventado.


Eu guardo em mim uma mensagem subliminar. Virem minha vida ao contrário, e verão um olho vermelho num corpo que cai de uma bicicleta e quebra um pulso. Mas não verão o pulso. Nem verão o verão.
Porque um dia, de tanto pressionar a testa contra um vidro de carro, vou acabar criando um calo. Ou me jogando de um ônibus em movimento.



J, M.