Samstag, 31. Mai 2008

A mulher que ficou empoeirada


O que não posso jogar fora é minha pele. Mesmo quando a poeira me faz triste e doente. Tenho um segredo: planejo desde o ano passado um suicídio muito delicado. Planejo esperar a poeira, me ver empoeirar. E depois, escrever assim: "Dormiu e acordou empoeirada".
Sentou na cama. Ficou imóvel por muitos dias. O quarto fechado. Ninguém na casa. Apenas ela, os móveis e os objetos. Todos silenciosos e em completa imobilidade. Ela respirava devagar como quem percebia a cama respirar e também as roupas e os sapatos. Ela estava muito silenciosa, e atenta. Respirava devagar. As prateleiras do guarda-roupa e as cobertas também respiravam devagar. Na rua havia ruídos e latidos de cachorro. Mas ali no quarto todos se concentravam no que havia de silêncio. Ela sentia que havia descoberto um buraco. Até que fechou os olhos e dormiu um pouco - ainda imóvel e silenciosa.
Então, dormiu e acordou empoeirada.

Irina
31.05.1972


J, M.

Sonntag, 25. Mai 2008

Dia estranho

Às vezes é preciso acreditar no impossível.
Às vezes é preciso fazê-lo.
O medo diante do absurdo, o desconhecido óbvio, um simples desejo.
Seguir na rua um estranho e nunca lhe perder de vista.
Uma avenida lotada, com tráfego caótico, um encontro de amigos, sem nunca perder de vista.
Alguém revela o pranto, caindo na calçada, em desespero, sem consolo.
Seu estranho observa; você também. Ninguém pára.
Só quem está desfalecido e você, que tem a impressão de já ter visto aquilo.
Falta pouco tempo e está quase chovendo.
O estranho tem pressa e você quase o perde. Uma caneta dele cai e você se abaixa para pegar, mas quando levanta...ele já se foi.
Jucksch, Márcio.

Seqüestre o coelho

Às vezes parece que um universo paralelo, caótico (não faltei nessa aula de História da Filosofia, não), ridiculamente simplório, conspira por algo incompreensível. Assemelha-se a um andarilho de mente sórdida, que dá rasteiras nas crianças hiperativas e assalta os pomares alheios. Duvida? Pois bem, você vai sair e a porta não quer fechar, precisa insistir até que ela pare de teimar, causando um estrondo daqueles. E a modernidade que trouxe as maçanetas seguras, enrigecidas por fora e de leveza sã por dentro, não lhe dá o direito de voltar. Suas chaves ficaram lá dentro e agora um andarilho come pêras, sentado no chão, recostado na sua porta.

Duvida? Pois não, eu... até lhe mostraria a silhueta dele, mas você já pediu a ajuda da vizinha e neste momento alguém se esbalda em gargalhadas não pausadas, cuspindo minúcias de pêra para todos os lados. Não há escada que alcançe os azulejos altos do seu andar. Os vizinhos já se aglomeram querendo saber o que você faz parado com cara de infeliz quase no meio da rua.

Eis que surge, não mais que de repente, Jarrão. O andarilho até arrisca olhar para fora, controlando o riso, ensaiando um arremesso de meia fruta na cabeça deste, porém hesita; tamanha é a massa de Jarrão, que a pobre pêra talvez voltasse para onde veio...e doeria. O gigante que sobe a rua caminhando consegue uma escada, pula a janela (tem alguém escondido no seu armário) e abre a porta. Pronto, pode subir, armar a rede e ajeitar a antena. Ahhh, mas a vizinha lhe chama! Cozinharam peru, jogaram no tucupí, com arranjos de jambú. Vá comer, que o andarilho sabe voltar sozinho. Aliás, dizem que o nome dele é Destino e no tal universo paralelo tudo acontece em nome dele. Duvida? Pois continue.


Jucksch, Márcio.

Gia

Apaixonei-me por ela. No fim de mais um domingo cinzento, deitado de bruços, esperando algum vestígio de insônia, eu observava a TV distraidamente. Mudando os canais a cada dois segundos, juntando os pés para tentar amenizar o frio, que mesmo embaixo do cobertor, ainda conseguia sentir. De repente, ela surgiu. Ela não – Gia surgiu. Apareceu como um presente, uma festa surpresa, simplesmente Gia. Assim a dona Insônia sentou-se ao meu lado com uma tigela de quindins. Partilhou comigo o nascimento daquela paixão fugaz.
Gia era linda, quase perfeita. Só não o era, porque não era minha. Seus lábios eram o meu pecado, seu sorriso meu paraíso. O corpo um verdadeiro deleite. Hiperativa, impertinente, doce, impulsiva, assassina, perdida. Gia amou, derramou, fechou os olhos, visitou o inferno e quase não voltou. Viciou-me. Sim, viciou-me em seus gestos, em sua voz, em seu sexo, em sua vida. Enquanto me hipnotizou pelas próximas horas, dona Insônia espalhou-se na cama, deitou no meu colo.
Como quem acorda de um pesadelo, Gia se foi sem que pudesse perceber. Dona Insônia já até roncava, enquanto meus olhos não queriam se fechar. Recusavam-se a esquecê-la, pois não era qualquer uma. Era Gia. A noite passou, o sol escancarou as cortinas com vigor, mas a única luz que eu via era dela.

Lexter
28.02.1958 - 21:43




Jucksch, Márcio.

Grande porto

Nunca fui de promessas. Passei a ser quando ser sincero não adiantava mais. Não olhava para o rosto das pessoas; não para depois saber enumerar cada defeito e, sim, para saber quem era quem. Era superficial em muitos sentidos, menos quando se tratava de mim. Conhecia-me, entretia-me, aventurava-me, bastava-me. Egoísta não, introspectivo. Pés não se incomodavam com a pedra quente, braços cansavam rápido contra a correnteza, cabelos pesavam - nunca gostara deles -, coração não parava.
Ainda não conhecia bem os livros, desconsiderando os da escola, mas já perguntava-me o porquê de quase tudo que me cercava. A goiabeira, a cerca onde acabava o nosso quintal, a parabólica enferrujada, as palmeiras da entrada da casa, as bicicletas quase grandes demais, os parentes de visitas freqüentes, o balneário, a piscina gigante (de plástico), a garagem recém-construída. Preferia o pão da padaria mais distante, o lanche do bar Tabajara, acampar com crianças mais medrosas, fazer guerra de carrapichos, chegar na escola ao simplesmente atravessar a rua.
Foi-se.


Jucksch, Márcio.

The place

Abria as janelas, varria os cantinhos das brancas paredes, dobrava os lençóis quase corretamente, observava a rua por dois segundos. Sentia preguiça quando deparava-se com a pilha de roupas a organizar; preferia cozinhar. Lavava o arroz lentamente, sem perder a sensação estranha e boa que os grãos úmidos, juntos, proporcionavam.


Jucksch, Márcio.

Samstag, 24. Mai 2008

Ama-me, bastardo!

As vagabundas levantaram com vontade de dar as bundas. Gratuitas, a quem quiser, com rum e licor. Os malandros viram a mesa da jogatina com fúria, desprezo, raça. Os homens dementes de decência apenas tomam um capuccino, observando os traseiros graciosos dos garçons. A criança teima com um sorvete de mabé, embora a avó diga que não pode.
Hoje todos têm direito de dizer e levar um Foda-se para casa. Um Foda-se vale mais que mil palavras.
Lambuzaram-se com o rum das vagabundas os malandros, porque elas lhes pertenciam.
Acabaram com a tinta da caneta de $40 dólares os senhores da decência ao quererem deixar um guardanapo com oito dígitos escrito no bolso do garçon.
Chorou até doerem os pulmões a criança, sem perceber que os olhos da avó também se derramavam em doídas lágrimas por não entender como mabé só pioraria o cancêr daquele anjo insano de cisma.
Corra e não se deixe para trás.


Jucksch, Márcio.

Dizer apenas não basta

Ela não sabia da tensão nos meus lábios quando lhe ouvia dizer "Eu te amo". Era como se tentasse guardar o momento para sempre entre as partes tencionadas, como o terno segredo que muda o semblante do ouvinte e sua vida nunca mais é a mesma. No entanto, ele já escapulira porque paixão e momentos são amigos do tempo. Receio que ela não me ame mais no instante seguinte. Abro os olhos e ela ainda joga os cabelos como antes, sorri perto da minha boca, minhas mãos ainda lhe afagam e o coração...
Dizer a frase de amor não basta, eu quero chorar de emoção acumulada e tola. Não consigo, não há como. Continuo de olhos abertos e ainda estamos aqui.


Jucksch, Márcio.

Pacto

Quando lhe beijei selei um pacto de paciência e compreensão, aventura e tentação, insegurança e conformismo. É que nada podia nem deveria fazer com seu passado e pouco sabia do que me serveria o futuro. Os sonhos não me revelariam o suficiente para abandonar a ansiedade e fechar os olhos sem hesitação. Você me atraía para uma liberdade compartilhada, porém tímida, necessária, mas complexa em seus primeiros passos. Assim guardei teu cheiro em mim, pra mim, pelo momento. Continuamos a falar dos outros tão naturalmente por causa do que éramos antes e do que almejamos preservar. Também falamos nele, porque não há ser que escape da idéia. O que me atormenta não é saber que ele existe e, sim, o entendimento muito claro que possuo dessa realidade amarga.


Jucksch, Márcio.

Constatações e observações

A vida me ofende e eu tento retrucar na mesma medida, mas não consigo. Hoje os hóspedes chegaram e dissiparam um pouco da má sorte e do marasmo dos últimos tempos.

Estava a conversar com a "Pessoa Distinta de Modos" e tudo parece clarear até os mais insolentes hábitos de revolta sólida.

1 - Descobri que esquecer um ex-namorado é questão de pareamento de estímulos e que jamais devemos voltar atrás uma vez sequer, pois será bem mais difícil afastar-se de novo. Informação muito válida e coerente.

2 - Um simpático rapaz se apresentou e em 5 minutos deu até pra conversar sobre cinema. Não era um pretendente. Era uma prova de como a vida ofende e me afaga simultaneamente.


É necessário compartilhar estas constatações e observações.


Jucksch, Márcio.

As últimas madrugadas têm sido de lembranças


Que saudade de fazer corte pros meus pais no dia em que passaram uma tarde inteira conversando sobre epidemiologia aqui na sala de casa. Eu olhava a cena com a vontade pueril de que durasse para sempre, pra que uma certa história houvesse começado e terminado completamente diferente.

Que saudade de amar aquela mulher, com medo do tempo que se esgotava e com a intensidade do meu vigor. Aquela garota que despertou o melhor e o pior de mim, de quem sinto um medo nulo de estar longe, através de quem sinto bem-estar porque há distância.

Que saudade de brincar de Lego na sala daquela casa grande, bem localizada, naquela cidade bucólica. Depois eu subia na goiabeira e comia goiaba amarela.

Que saudade da inabilidade da minha mãe pra cozinhar e ainda assim fazer lanches maravilhosos pros três filhos. Não que ela tenha melhorado, mas é que mãe é mãe e tudo que vem dela é meio precioso por si só.

Que sensação boa de liberdade, a do melhor tipo. A que emana de mim e faz a vida parecer melhor, mais forte, mais palpável, mais verdadeira.


Jucksch, Márcio.

Mittwoch, 7. Mai 2008

°

Márcio Jucksch, 87; tupiniquim cheio de suíngue latino; míope; psêudo-estudante; eterno amante (escroto) de filmes positivos & pb; jeito bem tezão de biscate; descobriu o mundo recentemente; batalhou em copa e acha que já viu de tudo. é só isso mesmo. =B

Marxenhu - (1815 - 1715)


p.s.: ai, esse meu gingado sulamericano na europa...


Jucksch, Márcio.