Donnerstag, 31. Dezember 2009

O amor não dura

Do casamento naufragado chegaram as caixas como se fossem destroços. Vieram flutuando pelo espaço do tamanho do mar que se cria entre duas pessoas que não dividem mais nada. Nem a vida, nem a cama. Vieram repletas de objetos que nunca foram usados. Vieram como vêm as promessas para alguém que se lembra delas muito depois de terem perdido o sentido. São os talheres e taças que o casal usaria no jantar, os panos de prato bordados, o saleiro, o azeiteiro. Não são sequer espólios de guerra, porque ninguém brigaria por eles. São os restos mortais do que era amor; ossos da expectativa de um lar, de uma casa imaginada que não vai mais existir.


Ele não mandou as caixas por vingança. Mandou porque não as queria por perto. Ela não as deixou para trás, na casa da mãe, por despeito. Deixou por falta de espaço na mala, deixou porque nunca pretendeu levá-las. O desejo, a saudade, são coisas que não se desligam como uma luz se desliga. São coisas que desvanecem, como a água evapora, como a madeira incandesce e vira cinza. O amor, talvez, obedeça outras regras. Talvez um dia acorde morto sem ter dado notícias de sua falência, como se lhe estourasse por dentro um abscesso. E cada promessa com a qual se construiu a segurança vire um tijolo na muralha de palavras dadas a uma relação que não se quer mais, cujas portas são arrombadas por dentro.


Só o que resta é um amontoado de tudo o que ninguém quis. Sobras de um futuro, espalhadas por uma casa que não pertence a ambos, sussurrando com vozezinhas lamuriosas e inconvenientes a quem passar os olhos:


... o amor não dura...
... o amor não dura...
... o amor não dura...


Gutte Neu Jahr


J, M.

Mittwoch, 30. Dezember 2009

Trilhas

Eu não quero que você saiba o nome de todas as músicas que escuto quando chove. Muito menos que saiba-as pelas letras, reconheça-as pela melodia, lembre-se de mim quando começam a tocar e pense no sentido que fazem e que provavelmente estão cantando nós dois. Eu não quero pendurar nas paredes da minha casa os cartazes dos teus filmes mais queridos. Menos ainda... menos ainda quero ter visto esses filmes contigo.


Não quero os teus livros emprestados e nunca pegue os meus. Se algum dia eu te ouvir recitar poesia, por favor, me fale o nome do poeta, para que eu nunca o procure, nem o leia nem o escute. Que os lugares de nossos passeios jamais sejam no trajeto entre minha casa e meu trabalho. Que você não tenha uma flor favorita e que ela não seja dama-da-noite. Não decore o número do meu telefone. Não dê o endereço da minha casa para a sua correspondência.


E quando formos dormir e você me abraçar; não me conte histórias de povos distantes, de guerreiros honrados e de amores profundos. Não precisa falar seus segredos. Não deixe pegadas, nem farelo de pão nem barbante amarrado na porta do labirinto. É mais fácil de perder o amor assim.



J, M.

Dienstag, 29. Dezember 2009

Namorar me castrou

É que em vez de ser fértil, bonito, poético e inspirador foi simplesmente... aquilo. Não me trouxe nada de poderosamente transformador. Foram só seis meses. Ou um ano e 5 meses. Tempo agora é o de menos.

Fato é que pensar em amor, paixão, casamento, filhos, casa, pensar em tudo isso que só existia em energia desconhecida, foi emburrecedor. Porque fechei os livros, larguei as aulas mais chatas e enriquecedoras, parei de escrever à mão, não soube mais o que era escrever cartas pra alguém que nunca vi, não soube mais assistir televisão, não soube mais ficar bêbado e me divertir.

Namorar me ensinou a depender de alguém, a ligar pro mesmo número toda madrugada, a saber coisas que eu não queria, me ensinou sobre a ignorância alheia, me ensinou a gastar o dinheiro que eu não tinha, me ensinou a não ter pudor. Namorar também destruiu meu vocabulário e minha mente perspicaz.

Depois de namorar, eu acendo um cigarro, ouço a música e contemplo. Porque não namorar me permite enxergar o mundo de novo, o mundo novo. Sim, senhor, eu acendo um cigarro porque namorar é rápido, voluptuoso e aquela outra coisa que eu não sei descrever. Namorar acabou com isso também.

Sem namoro, não tem cerimônia. Você ama e pronto. Ninguém te pergunta se é muito ou pouco. Ninguém te pede a terceira via do formulário. Você bebe e fala o que quiser. Disso eu senti tanta falta.

O não namoro é como um espelho. Ou melhor, é um reencontro. Depois que você se livra da alma gêmea do ano, é obrigado a conviver consigo de novo. Mesmo que não goste, seu eu estará sempre bem atrás. E o pior: às vezes os fantasmas vão bem à frente. Nesse caminho não tem desvio.

Tem namoro que só serve pra te distrair. Quando acaba você pensa “Eu de novo?!”. Até entender o que aconteceu naquele espaço de tempo em que você mesmo esteve longe, parece tarde. Aí é a parte em que acende um cigarro e toma cuidado pra não queimar os velhos papéis que vai catar pelo quarto pra tentar se refazer.

Todo fim de namoro é uma oportunidade pra se reencontrar e limpar aquele espelho velho e persistente. E de emagrecer.



J, M.

Montag, 28. Dezember 2009

Evolução

Um certo macaco, a milênios antes de nós, chegou a dizer: vá tomar banho, criança! Quantas vezes vou ter que repetir? Uma? Trinta e três? Quarenta e cinco mil? Novecentos e trinta e sete vírgula nove meia dois? Ou seria uma questão não de números, mas de vogais, como iaeio, ou uiaoe? Para sua informação, eu já inventei as consoantes: são @%#¨$* e &. Meu querido, não fique zangado, mas em certos momentos, precisamos falar duro com você. Você precisa pentear os pêlos da consciência, e fazer tranças na honestidade. Seu rabo está maior que nunca, daqui a pouco vai tocar a lua! Meu filho, ninguém ensinou você a ir tão longe! Por que és assim? Me diga! Hein? Eu já não sei o que eu faço contigo, seu transgressor da matéria e de todos os elementos da mais pura e dócil realidade que nos cerca através do amor! O amor! E sou capaz de repetir ainda: o amor! Você deveria aprender com nossas parentes, as abelhas. Pois elas sabem lidar com os sentimentos. Nunca se envolvem com os homens, são todas lésbicas. Você deveria ser assim também, meu filho. Você deveria ser lésbica. A opção sexual do futuro reside na universidade mais próxima de você. Depois de dizer isso, nosso amigo Gorila Shun Peddy Siri cometeu um bárbaro suicídio, um suicídio em massa, um etnocídio, um genocídio, um antropocídio, um shunpeddycídio. Seu sangue escorreu pelas vísceras das calçadas da época - quando os vizinhos ainda colocavam cadeiras no meio da rua, para protestar contra a revolução automobilística - e chegaram aos esgotos, até que os ratos se tornaram radioativos, e, evoluíram, até se tornar o melhor amigo de um bicho, que hoje em dia, costuma dizer por aí que é racional.


J, M.

Sonntag, 27. Dezember 2009

O desespero ou você?

Você tem o cheiro de alguma coisa picante, como canela, só que mais velha e salgada, um cheiro antigo, que envelhece meio rançoso. E esse é o seu cheiro, eu sei. Se fizessem uma essência de você, ela teria esse cheiro. Combina perfeitamente com todo o resto, as camadas de perfume e óleo, os cheiros de castanhas e amêndoas doces, são todos cheiros da terra, sementes e grãos oleosos que falam de você exatamente o que você quer que os outros saibam: que você é uma proposta, uma promessa, uma possibilidade de qualquer coisa maravilhosa sem hora para acabar e de inícios súbitos, a surpresa simples no fim do dia, a conversa perfeita e a sensação de estar inteiro no mundo, compreendido, acolhido pela profundidade dos seus nutrientes, dos seus olhos que abraçam. É assim que você seduz, e isso é você também. Mas não é tudo. Nunca é. Há algo salgado, picante e antigo em você. Como uma dor envergonhada que virou segredo, como o embaraço de uma criança humilhada na escola, rejeitada. Além do desespero. Sim, há uma pequena dose, quase imperceptível nos seus dias bons, mas está ali, e quem se aproxima acaba vendo. O desespero gritando entre dentes: não me diga não.
Mas se dissolve na boca e acaba.



Jucksch, Márcio.

Samstag, 26. Dezember 2009

Cross-age

- E o que havia de errado com o rapaz?


- Nada. A percepção que tinha de si mesmo é que não combinava com a que eu tinha.
- Qual era a percepção dele?
- Achava-se irresistível.
- Sim, mas isso sabíamos todos desde sempre, não é possível que você tenha percebido só agora.
- Realmente. Só que acreditei que era uma proteção contra algum medo; uma camada apenas, para esconder coisas mais valiosas, que eu tomei como seus verdadeiros sentimentos. Ou melhor, o verdadeiro ele.
- Não era?


- Não. Era só ele mesmo.


- Você sempre acha que as pessoas são mais interessantes do que são.
- As pessoas são sempre interessantes, mamãe. Acontece-nos de procurar nelas só o que nos interessa.
- O que é a mesma coisa que eu disse. Está passando da hora de você deixar de confundir silêncios com profundidade. Às vezes a pessoa simplesmente não tem nada a dizer.


- Não acredita que possa haver uma essência por trás dos disfarces que não condiz com o comportamento?


- Para quê? Acreditar nisso não é prático. Somos nossas ações, independente das intenções. Para mudar, mudamos as ações. Não dá para sair à procura dos precedentes de cada atitude, da raiz de cada problema. Você chama a arrogância de máscara, mas há quem as use por tanto tempo que acabam por lhes deformar as feições e ninguém distingue mais o artificial do real. Do mesmo jeito que as crianças aprendem por imitação, nós também somos o que fingimos ser.


- Não sou prático, mamãe.


- Nem um pouco. Mas a gente só dá conta de se salvar, filho. Isso quando se salva.



Jucksch, Márcio.

Mittwoch, 23. Dezember 2009

Über B.K.

Os anos ímpares têm certas tradições.

O 1º semestre é sempre lindo, divino, fabuloso. No 2º, por volta de setembro/outubro, a vida muda, desmorona.
Mudo de cidade, alguém da família morre, perco o amor da minha vida.
É sempre um FAIL bem grande, bem na cara.

E os anos pares? Imprevisíveis.



Jucksch, Márcio.

Dienstag, 22. Dezember 2009

O menino que rompeu com adultos

Ficou com aquilo de ser quando crescer na cabeça. Foi para a frente da casa como quem sai de si um pouquinho, mas fica na porta, à espera, e se sentou no meio fio, olhando a poeira voadora da rua. Numa meninice muito séria e compenetrada. Era-se sempre uma coisa quando se crescia. Era-se médico, professor, tio, pai, namorado e era-se também entendedor das coisas todas. Mas e se nunca fosse? Cresceria? Mas e se nas provas de para-ser-grande não passasse? Que acontecia aos que nunca conquistavam o entendimento das coisas? Sentiu uma desilusão muito grande com os adultos, naquela tarde à porta da frente, porque deduziu nunca poder provar caso lhe estivessem mentindo. Se toda aquela espera fosse uma pregação de peça, feito a de perguntar a alguém como fazer um bobo esperar por um dia e então dizer “te conto amanhã”. E talvez nenhum adulto realmente fosse: Qualquer coisa. Só faz-de-conta que fosse. Ao crescer só se ganhava o direito de tapear os pequenos para lhes obrigar coisas.


Jucksch, Márcio.

Sonntag, 20. Dezember 2009

2 semanas

É verdade que às vezes tento me contentar com a confusão entre raciocinar e intuir. Convencido de ser essa a minha jornada, caminhar no confuso e encontrar as verdades úteis no meio dele. Sempre mudando, sempre reciclando.


Jucksch, Márcio.

Freitag, 18. Dezember 2009

25 horas e meia

É engraçado nós esperarmos sempre que todas as reações nos atinjam de imediato, quando muitas delas, mesmo a raiva, e o medo, que são as mais apaixonadas, podem demorar horas, dias ou qualquer outra medida de tempo para se manifestar claramente. Através de uma imagem, ou de uma sensação, como uma paisagem, um vento no rosto. Um cheiro ruim. Já tive vezes em que desatei a chorar no meio da rua com uma lembrança que, na hora acontecida, não me provocou nada que me tirasse da indiferença. Há um imediatismo da nossa formação, a formação da nossa geração. Chega a ser possível que só percebamos o prazer das nossas relações muito depois, quando pensamos ou falamos sobre elas. Tão atribulados estávamos em fazer com que fossem prazerosas. Nesses casos não sei se está tudo bem o prazer vir depois, através da lembrança, ou se ele poderia ser parte do acontecimento, caso eu não estivesse tão ansioso pelo minuto seguinte. Ultimamente estou sempre em dúvida se é preferível dizer alguma coisa ou apreciar simplesmente o silêncio.


Jucksch, Márcio.

Dienstag, 15. Dezember 2009

Bloqueio

Onde coloquei esta história? Onde está, onde está? Onde a perdi, como ela sumiu de mim? Será que ainda a guardo comigo? Talvez eu a tenha deixado cair nos arquivos velhos e empoeirados, estranhamente reluzentes da memória esquecida.
Os arquivos trancados, emperrados com a falta de uso, empilhados uns sobre os outros, próximos demais, apertados demais. Prestes a cair daquela imensa janela circular remendada com toras de uma madeira apodrecida - o único lugar por onde o sol pode entrar.
Exageradamente afastados da escada. Pelo risco de que um visitante qualquer, vítima de um tropeção em um dos livros não lidos no tapete, usasse a alça de uma das gavetas para se sustentar.


Como outra vez aconteceu a minha tia Vera, no mezanino do meu avô, aleijando a velha empertigada, que passou o resto da vida conciliando aquele nariz empinado com um mancar ridículo. E nunca participou de aventura nenhuma, porque se recusava a "se misturar".


Será por isso que a história ficou aqui?



Jucksch, Márcio.

Montag, 14. Dezember 2009

Trecho

Alguns dias eu nem acredito das coisas das quais faço parte.
Veja o menino que fui; o que tinha certeza de que a vida passaria num quadro impressionista, retratando eternamente aquele mato orvalhado cobrindo a terra lamacenta do quintal. E o único lugar para o grande, para o notável, seria a tela daquela cabecinha de menino, de imagens rápidas, sólidas e surrealistas. É esse menino que se isola no quarto com outras telas repletas de artificialidades pontilhadas e digitais, a salvo dos sustos de notar a vida notavelmente grandiosa que construiu sem se saber construindo – pois de outra forma, inclusive, poria tudo abaixo -, para tomar algum fôlego, pois os anos passam e ele ainda guarda a sensação de que a felicidade é vertiginosa, estranha, expansiva. Que lhe descompressa os pulmões e exige ar, tomando espaço, ocupando; com um agir intuitivo de levantar a mão e se imprimir no mundo.

Mas essa felicidade é um sopro, está claro. Veja como escrevo: falando a você, sempre a você – querendo ser visto (bem, isso é humano, nós sabemos). Só que tão pequeno, tão comprimidamente. Um comprimido de texto. Como se diz das crônicas de humor, só que sem graça. Espere.

Eu sou simplesmente um produto do meu tempo (olhe que tolice: acabo de dizer “isso é humano”. Como se tudo mais, inclusive eu, não o fosse). Assim vivemos, sentimos e lembramos. Tudo junto. Pequeno e rápido, talvez não se viva. Mas certamente se fala assim. Economizando. Um ponto disso, um ponto disso e você já sabe o que quero dizer, então para que precisamos ter isso dito? Nós dois, você e eu, temos pressa, mesmo que seja uma pressa tranquila. É porque vamos apenas passar. E a sua vida na minha mente fica sendo um retrato impressionista.
Então temos tristeza. Eu noto tristeza; bom, na verdade, noto uma vaga sensação de perder algo e lembro da familiaridade, da expressão no rosto dos outros, do nome que ouvi: tris-te-za. É bonito. É a questão do impressionismo, existe sempre mais de uma sugestão, quando vi uma, perdi outra.
Seria bom poder escolher que impressão levar. Talvez a tristeza da infância esteja nisso: nós não escolhemos a impressão que trazemos, mas algo aqui soube das possibilidades. Que o mato orvalhado poderia ter sido uma selva e a lama, areia movediça. Sem telas voyerísticas do mato e contemplações surrealistas, eu teria sido mais feliz? Ou só teria sido qualquer coisa que não sou.

Falta sempre um fecho. Digo a mim mesmo quando isso acontece: “você está com medo de dizer tudo”. No entanto, quando é que dizemos tudo? Diz-se que deixar brechas é tão pseudo-profundo. Mas outro dia disseram de mim que, por sempre delinear tanto e trazer cada ponto, sou por demais didático. Como se isso fosse uma coisa ruim. Como se para imprimir tivesse de ser vago. Como a vagueza no notar a felicidade das coisas que andam e funcionam na vida.


Jucksch, Márcio.

Samstag, 12. Dezember 2009

Senhor Deus,

Venho lhe pedir para me mostrar como errar erros novos. É que dos erros antigos, Senhor Deus, as pessoas já cansaram. Eu nem tanto, a maioria das vezes eu nem os percebo e, sabe, estou até tão acostumado a errar algumas coisas, que nem quero tanto assim mudar não, porque é cansativo.
Mas não quero que as pessoas que eu gosto cansem de mim; e dos meus erros já conhecidos e óbvios e piadas entre amigos.
Na verdade, Senhor, para ser totalmente honesto com sua Onisciência, preciso dizer que quero mudar sim, que é ruim não mudar, que entristece ver todos mudarem e a gente não – ficar assim, parado, olhando, e todos indo e a gente não -. Então quero mudar sim, mas é que não sei como.
Quando penso muito acho claro que o problema está aí: no ‘não saber como’, Senhor. Então penso mais um pouco e começo a achar que, sinceramente, eu não sei direito que erro é esse que tem que deixar de ser errado. E quando dou exemplo disso ou daquilo, dizem-me simplesmente “bom, então deixe de fazer isso”. É mais difícil não matar o pé de ipê quando somos nós os donos da rua.
Parece muito mais difícil descobrir o como antes do o que. Mas, um pouco que analisando, talvez se alguém simplesmente me dissesse o que fazer eu só não ouvisse. E se me disserem o que faço, eu não vou entender, porque não percebi sozinho. Nos metemos em cada sinuca por aqui, Senhor, o Senhor nem ia acreditar.

Senhor Deus, vai ver então que o Senhor nem precisa fazer nada não. Que quem tem que ver sou só eu mesmo. Mas, se o senhor não puder me dar uma dica, uma pista ou coisa assim, eu vou ficar muito grato só de saber que tem alguém olhando eu reclamar. Vendo.

Muito obrigado,


Jucksch, Márcio.

Freitag, 11. Dezember 2009

Tomada de consciência

Descobri recentemente que sofro de uma timidez crônica com personalidades e seus respectivos públicos.

Jucksch, Márcio.

Donnerstag, 10. Dezember 2009

Por capítulos

Capítulo 1:

Os desamparados tendem a colecionar figuras paternas.

Capítulo 2: Crônica prematura

Ah... pobre Virgínia, quisera sempre o melhor homem.

Capítulo 3:

Caminhei a vida inteira em beiradas de abismos e agora sinto-me viciado nas vertigens.


Jucksch, Márcio.

Dienstag, 8. Dezember 2009

Crônica urbana: Macabéio

Ele era um gay feio, do tipo que é melhor fingir que não vê. Morava ali na comercial da trezentos e onze, num daqueles apartamentinhos de um quarto e sala com varanda colada na do vizinho. Falo assim porque sou politicamente correto e não sei dizer coisas como bicha afetada e veado uó. Ele era feio, do tipo que não se repara a menos que um amigo incauto do mesmo grupo resolva namorá-lo, ao que logo se atribui baixa auto-estima e carência afetiva. Parecia-me sempre aquela estatueta da Deusa, baixinha, toda furada, com o corpo caindo sobre si mesmo, peitos sobre uma barriga redonda por sobre as perninhas rechonchudas. Ele era mais ou menos do mesmo jeito, só que tinha pêlos, as pernas eram mais finas e usava umas bermudas desbotadas curtinhas para ficar na varanda sem camisa. De modo que tinha também um tom de pele ao qual não se vê com bons olhos em gente desse perfil; era um bronze avermelhado, mistura de índio com negro, que logo se fazia notar nos pêlos do peito e no cabelo que não era exatamente ruim, mas era crespo. Era uma figura medíocre e eu não gostava dele porque toda vez me fazia gracejos embaraçosos e de baixo nível quando me via passar.


Pensei sempre que devia ser algo como vendedor em loja de importados; com aquela pele azeda, sempre suada, e uma cara que eu nunca teria coragem de beijar de tão oleosa. Mas não era, era contador. Passava o dia num escritório apertado, com um andar discreto e falando baixo, coisa que eu nunca desconfiaria, visto que não me parecia um homem elegante. Era muito efeminado e de um jeito ruim, do tipo que não cai bem ao porte, fazia pose e vestia roupas de atacado, naqueles tons de verde e vermelho e com aqueles tecidos de que fazem camisa de time de futebol. As falsificadas.


E, quando chegava em casa, eu esperava que passasse as tardes ouvindo música ruim e vendo novela, mas assistia os jornais e gostava dos documentários do mundo animal. E tinha um amor. Ele o visitava umas quatro vezes na semana e dormia por lá, e ia embora na manhã seguinte porque tinha trabalho e morava com a avó. Faziam amor de noite e de tardinha – já tinham trepado um bocado e aprenderam que na cama não é lugar de serem comedidos ou fingirem. Às vezes invertiam, mas geralmente era certo quem dava e quem era penetrado. Trocavam juras de amor no colchão e falavam coisas bonitas. Bonitas no meu entender também. E depois voltavam a suas vidinhas que me faziam pensar em formigas, porque nunca vou olhar com ardor para o sangue que não corre azul.


E foi assim até ontem quando ele foi encontrado lá na setecentos e seis, com formigas na boca e hematomas na cara oleosa do sangue, não mais de suor. Entrou em coma depois do espancamento, disseram. E ainda vivia só que morreu no caminho para o hospital e a ambulância fez volta para o necrotério. E a mãe teve que pagar três passagens de ônibus. Foi currado também, o legista notou. Quem me contou foi o parceiro, depois de pegar as coisas no apartamento hoje cedo, viu-me na padaria – essas coisas não são para jornais. Nos jornais, a discriminação é coisa que a gente vê nos outros e que se discute nas aulas o motivo da TV tentar esconder, mas que agora já está mudando, porque os gays são capa de revista e queridinhos nas novelas das oito. Onde são bem-sucedidos. Casados. Dão-se bem com a família e os vizinhos. Não se beijam nem trepam antes do almoço e nunca, nunca são feios. Gay feio não existe, é lenda urbana. Esse aí, aliás, eu que inventei.



"[...] de herói porque somos covardes, o de santo porque somos maus. E o de assassino porque sempre existe alguém que gostaríamos de matar [...]"
Jean Paul Satre



Jucksch, Márcio.

Montag, 7. Dezember 2009

E corta

Aquela música não pára. A voz canta tudo que ela quer no ritmo bailante. Inacreditável. É o cd certo?


The emotion it was, electric
And the stars, they all aligned
I knew I had to make my, decision
But I never made the time
No, I never made the time


Três carros vermelhos, quatro pretos, um branco, ela do outro lado da rua. Ela não é carro, tira um. Ela não é carro, então pára! Ela não é carro, respira, sabe ler, fica em pé esperando o sinal fechar, calça sapatilhas, veste jeans, blusa de algodão cru, óculos gigante, enrola uma revista na mão, o cabelo num coque mal feito, ensaia um espirro, ela avisa que não é carro.


In the dark, for a while now
I can't stay, so far
I can't stay, much longer
Riding my decision home


Difícil chegar do outro lado assim. Ela tem que dar licença, porque carro não pode ficar na calçada. Será que vou ter que levar pela mão mesmo? Ah, Brandon Flowers, por favor! Se não parar de cantar assim... In the dark, for a while now, I can't stay, so far... não vai dar. Ela olha direto, bem reto, para a frente, observa uma outra que canta baixinho aqui desse lado. O vento traz o perfume bem dos seus segredos indolentes até aqui, pra mim e pro Brandon. Se você ao menos pudesse estar perto o suficiente pra sentir.


There is a majesty at my doorstep
There is a little boy in her arms
Now we'll parade around without game plans
Obligations, or alarm


Os carros param. Eu posso passar. Aí tudo engata e olho para o céu, depois para ela. Brandon me convence e começa a sair um cantar raro de se ver:

- In the dark, for a while now... I can't stay, very far...

O silêncio. Ela leva a revista na direção da boca e antes de pensar que além de ser carro, ela engole publicações inteiras, ouço:

- I can't stay, much longer... Riding my decision home!

E corta.




Aquela música não pára. A voz canta tudo que ela quer no ritmo bailante. Inacreditável. É o cd certo?


The emotion it was, electric
And the stars, they all aligned
I knew I had to make my, decision
But I never made the time
No, I never made the time


Três carros vermelhos, quatro pretos, um branco, ela do outro lado da rua. Ela não é carro, tira um. Ela não é carro, então pára! Ela não é carro, respira, sabe ler, fica em pé esperando o sinal fechar, calça sapatilhas, veste jeans, blusa de algodão cru, óculos gigante, enrola uma revista na mão, o cabelo num coque mal feito, ensaia um espirro, ela avisa que não é carro.


In the dark, for a while now
I can't stay, so far
I can't stay, much longer
Riding my decision home


Difícil chegar do outro lado assim. Ela tem que dar licença, porque carro não pode ficar na calçada. Será que vou ter que levar pela mão mesmo? Ah, Brandon Flowers, por favor! Se não parar de cantar assim... In the dark, for a while now, I can't stay, so far...não vai dar. Ela olha direto, bem reto, para a frente, observa uma outra que canta baixinho aqui desse lado. O vento traz o perfume bem dos seus segredos indolentes até aqui, pra mim e pro Brandon. Se você ao menos pudesse estar perto o suficiente pra sentir.


There is a majesty at my doorstep
There is a little boy in her arms
Now we'll parade around without game plans
Obligations, or alarm


Os carros param. Eu posso passar. Aí tudo engata e olho para o céu, depois para ela. Brandon me convence e começa a sair um cantar raro de se ver:

- In the dark, for a while now... I can't stay, very far...

O silêncio. Ela leva a revista na direção da boca e antes de pensar que além de ser carro, ela engole publicações inteiras, ouço:

- I can't stay, much longer... Riding my decision home!

E corta.




Jucksch, Márcio.

Mittwoch, 2. Dezember 2009

Full Disclosure

Hoje, eu acordei sorrindo. Quase gargalhando, na verdade. despertei e tive a consciência de que faltam partes da minha vida. As pessoas entram na minha vida, se divertem comigo, sentem raiva de mim, dizem me amar. E se vão. Por obrigações pessoais, sonhos, ironia, tédio, fome. Ou o que seja. Aí, fico assim. Vez ou outra acordo consciente. Consciente da falta, da solidão, das vozes, dos conceitos, do que já não é. Consciente de que a minha essência se espalhou por esse mundo, sem ter noção do inicio; e que eu vou ficando lúdico, sentindo o gosto pueril, a preguiça esperta e cínica. Achando que som tem cor, pedindo estórias para dormir, me preparando para partir.

Masquerade



Jucksch, Márcio.