- E o que havia de errado com o rapaz?
- Nada. A percepção que tinha de si mesmo é que não combinava com a que eu tinha.
- Qual era a percepção dele?
- Achava-se irresistível.
- Sim, mas isso sabíamos todos desde sempre, não é possível que você tenha percebido só agora.
- Realmente. Só que acreditei que era uma proteção contra algum medo; uma camada apenas, para esconder coisas mais valiosas, que eu tomei como seus verdadeiros sentimentos. Ou melhor, o verdadeiro ele.
- Não era?
- Não. Era só ele mesmo.
- Você sempre acha que as pessoas são mais interessantes do que são.
- As pessoas são sempre interessantes, mamãe. Acontece-nos de procurar nelas só o que nos interessa.
- O que é a mesma coisa que eu disse. Está passando da hora de você deixar de confundir silêncios com profundidade. Às vezes a pessoa simplesmente não tem nada a dizer.
- Não acredita que possa haver uma essência por trás dos disfarces que não condiz com o comportamento?
- Para quê? Acreditar nisso não é prático. Somos nossas ações, independente das intenções. Para mudar, mudamos as ações. Não dá para sair à procura dos precedentes de cada atitude, da raiz de cada problema. Você chama a arrogância de máscara, mas há quem as use por tanto tempo que acabam por lhes deformar as feições e ninguém distingue mais o artificial do real. Do mesmo jeito que as crianças aprendem por imitação, nós também somos o que fingimos ser.
- Não sou prático, mamãe.
- Nem um pouco. Mas a gente só dá conta de se salvar, filho. Isso quando se salva.
Jucksch, Márcio.
2 Kommentare:
Texto FODA!
A conversa de fato aconteceu?
Agora sim eu boto mais fé ainda nessa minha tia gostosa! ahuahauahau
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