Freitag, 31. Dezember 2010

S-T

Lá nos meios das jabuticabeiras - tão escuras que a noite não se atreve a entrar naquele recinto -, rodeadas pelo imenso deserto da mais pura areia que se dá ao vento na procura de unir-se numa grande duna pontiaguda, para que dessa maneira possa perfurar o céu. Sim, o céu; pois ele ostenta o simulacro quente e vermelho que faz da areia nada mais do que ela é: grão. Ninguém gosta de ser um grão e ter de unir-se para somar forças.

E do alto da jabuticabeira há um pássaro possuídor de um arquiinimigo ainda desconhecido para ele, mas o ser alado já o procura com seus olhos de dragão adormecido e asas escamosas de quem reza por penas para poder acalentar a alma. Garras, muitas delas ele possui. Cada uma mais afiada do que a outra, pois após tanto tempo de isolamento você precisa estar muito bem preparado para o novo e o estranho que pode aparecer.

Seu inimigo já criava consciência por debaixo das areias movediças de um canto à leste (onde o sol maior nasce). Lá ele estaria seguro, porque sabia que o grande falcão reptiliano não ousava sair do oeste com frequência; ele preferia a lua que nunca se punha naquele lugar, toda tingida de vermelho e branco, uma fantástica bola de duas cores que se fundem nos dias de alegria em forma de espiral, derretendo-se pela ânsia de viver. Ao norte existe algo que ninguém sabe o que é. Sempre existe algo cujo desconhecido é o principal fator de a coisa ainda existir e lá ela estará também para sempre segura, pois não existe ninguém capaz de vê-la, tocá-la ou mesmo senti-la. Entretanto fazem diversas orações para que lá ela mantenha-se.


Ao sul, o caminho que escorre em forma de faca rumo ao infinito tentando encontrar um paralelo que se oponha ao seu desejo de matar. E acho que no final disso tudo existe água, muita água com muita onda e muitos peixes voadores que formam um balé de meretrizes fantasmas, e nesse canto ao sul é que todos os locais se fundem numa eterna paz efervescente.


Este lugar existe. Existe pelo simples fato de haver um equilíbrio. Todas as forças são fortes. Porém, ninguém duvida da capacidade da outra, nenhuma delas interage e todas sabem do poder da intimidade. O nosso pássaro possui um inimigo e os dois tem de se confrontar. E todo esse confronto ocorre no simples fato de que um reside no céu, o outro na terra. A impossibilidade do encontro faz do sonho de um dia encontrarem-se manifestos de desejo e ódio. E a fonte de energias residentes no centro pulsa para tudo continuar como é. Apenas não posso revelar que força é essa, mas se você procurar dentro de seus orgãos podres quem sabe você não ache um resíduo da fonte do equilíbrio. Uma dica: ela é amarga. Esse local não-nomeável para sempre continuará dessa forma, escrito em duras palavras alucinógenas por mais que você contexte, por mais que eu esteja errado e é isso que me motiva a procurá-lo na ânsia de poder viver nessa sincronia interminável.


 
J, M.

Mittwoch, 22. Dezember 2010

A espera de um natal

O peso do natal já recai sobre minha espinha, na forma barriguda de seu símbolo. Ele chegará quando eu estiver sonhando com todas as coisas curiosas e me desperatará para sua sombria face barbuda. Tudo isso é para ele pior do que para mim, por isso me consolo, afinal eu nada tenho a fazer senão obedecer às leis. Seria isso de sentir tudo tarde demais e não poder mudar o passado, uma cruel brincadeira de Deus ou do Diabo ?



Como peco... Eu queria poder pedir a alguém que me deixe pecar mais, que me livre da tentação. E não posso! Toda mulher é para mim uma mãe, assim como homens são pais. Meu pai morreu antes de eu poder lembrar-lhe a face, não vejo meu filho desde que o tive e por isso me comprometo em abastecer esse homem Noel de tudo que está guardado dentro de minha concha.


Agora, tenho um símbolo pelo qual lutar, posso finalmente abandonar as serpentes aladas que eu seguia. Todos ainda hão de me olhar como se eu tivesse fome e é verdade; eu sou meu próprio alimento fora de alcance. O que pode resultar disso é amor. Eles com sua compaixão, eu com minha ironia, tudo forma de sofrimento camuflado na boca por não saber o resultado. Seria ainda pecado implorar para ter o dom da visão?


Mulheres bem vestidas passam com as sacolas carregadas e vão sem se dar conta que suas marcas não ficarão no mundo. Nem as minhas. Nem as suas. Mas ao menos elas disso não sabem e seguem cantantes.


Perdi até o direito de rezar depois dessa noite, onde todos deliciam sua ceia de natal com garras afiadas e bocas suculentas. Pobres homens, não sabem que a cada pedaço que engolem algo deles se tranforma e morre para criar algo novo.


A lua nova cresce dentro das minhas pupilas dilatadas. Não lembro mais quando perdi minha mente , apenas recordo o flash de energias. O causo ocorreu, pois eu sabia demais. Ficava louca dentro de um mundo paranormal implorando para pensar duas vezes e o único aviso que recebia era o de parar antes que a estrada terminasse. Eu na minha loucura, fazia-os loucos. Meus heróis e eu fugiamos para um país encantado - e sem natal. Eu fui seduzida pela cidade volupstuosa e clandestina. Talvez eu seja louco, talvez tu seja louco, mas provavelmnete somos loucos. Um barrigudo que entra por uma chaminé estreita com um saco vermelho? É, se for para crer nisso, prefiro pensar que sou louco. Melhor do que morrer esperando, esperando, esperando...

 
J, M.

Mittwoch, 15. Dezember 2010

Fluxo imaginético de um capitalismo premeditado

E de dois em dois, ela compunha sua fortuna maldita. Conta por conta quitada, vida por vida não praticada; ao menos o dinheiro agora estava lá, fruto de trabalho semi-escravo, poupava-se dos prazeres para um prazer maior e nem ao menos sabia qual era ele.


Oferecia sua cabeça para ser usada de forma de objeto carrancudo que ao abrir a boca exterminava reações, egoísta e mesquinha como tinha de ser, sozinha no espaço e no tempo. Tinha uma casa. Uma casa azul, encantada pelo monotonia, lá ela se escondia e tinha um certo sossego. Podia olhar embaixo da cama e sentir a certeza de que nunca seria incomodada, e lá era também o refugio de seus níqueis.

Temia os invasores do espaço, pois privacidade para quem não tem alegria é fundamental. O resto do dia era trabalho árduo e fatídico, a mesmice salarial provinda da filosofia da luta de classes.

Começou a olhar as lojas, deliciar-se com o cheiro das comidas sabendo que agora tinha como possuir tudo isso, mas não o fazia. Ficava no desejo, pois a utopia é sempre mais real do que a intensa troca de massa corpórea realizada pelo homem com o meio.

Nas viagens de ônibus à caminho do lar nem sequer olhava nos olhos dos passageiros. Era tão baixinha e inocente que lhe brotava uma flor vermelha da nuca que se alastrava por todo o local em forma de perfume.

Às vezes, essa flor contaminava suas idéias, fazendo-a até sentir-se bela, uma bela de uma mocinha rica.

Estava viva afinal. Com seus ouvidos cata-vento, de olhar amanhecido e enxadas nos pés. Não era forte, mas era humana.

Jogou o dinheiro na sua caixa de vil-metal e saiu correndo pela rua na procura do que procurar. Via livros com suas páginas ao vento que soltavam letras aleatórias em forma de música de um lado, do outro os trauseuntes que passavam numa velocidade espontânea e a cigana de calças curtas. Ah, a cigana! Essa pediu-lhe a mão. Aliás, forçou-lhe a mostrar a mão e no fundo da palma, circunscrito em paisagens vermelhas, a leitora pode ver tudo e disse: “livra da mão do soberbo ao que padece injúria e não leves isto com amargura em tua alma". E como veio a cigana foi.

Não adiantava mais, o dinheiro já estava ali, nada que falassem poderia isso mudar. Era só comprar, comprar! O amargo previsto já tranformava-se em azia mental e alma que ela desconhecia possuir; materializava-se em forma de pena em sua frente, de formas coloridas e pontas agudas que infligiam em todo seu corpo uma sensação. A pena se foi como veio e a mulher pobre de rica ficou lá estirada no meio da praça, abraçada com seu dinheiro maldito e benzido pelas horas de esforço para conquistá-lo. O tempo parou. A moça parou. E o dinheiro continuou fluindo à procura da mão soberba.

 
J, M.

Samstag, 11. Dezember 2010

Tentativa poética

Se por tuas mãos eu não cresço, em ti me desfaço ao menos. Num boxe de oponentes sempre distraídos vamos caindo num poço brilhante de glória dedicado aos campeões, com rostinhos de cinema e inteligencia de escritores. Vamos e vamos. Não precisamos de nada além do que já temos, e não temos nada! O resto de tudo é a nossa verdade absoluta, materializada em topetes arroxeados de um cantor dos anos 60, que declama palavras drogadas de uma noite em reviria; com adolescentes fulgazes e audácias vorazes. Teu rosto não esconde nosso amor e nem queremos e nem sabemos o que é amar. O cheiro de sexo em cada membro de nosso corpo relembra a noite passada em forma de espiral coadjuvante de um circo de bestas lascivas.


E vamos e vamos. Correndo seguimos com a pressa de quem espera a morte; em nosso bonde verdejante de saltos pipocados vamos para o destino que nos aguarda agora e em todo sempre. E de tudo que é nosso escorre um líquido gotejante que entristece os que se encontram ao nosso redor, mas nos dá uma alegria e coisa boa e qual sentimento santo é esse. Embaixo de todos esses véus há desejo escondido em rubra face pré-adolescente. E é por saber disto que somos assim, pois em cada camada de nosso ódio há um apego enorme pela tentativa de viver.


J, M.