Freitag, 16. Oktober 2009

22/05/07

Queria cruzar distâncias como cruzam meus pensamentos.
E que todo dia fosse novo.
Que o mundo não estivesse feito, mas cru; feito massa de bolo, onde a gente enfia o dedo para ver o ponto do açucar. E pode pôr nescau, e umas migalhas (?!) e laranja. Depois mudar de idéia e fazer bolo de cenoura.
Outro dia a gente se preocupa se a massa vai crescer.


Outro dia a gente se ocupa de crescer.



Jucksch, Márcio.

Mittwoch, 14. Oktober 2009

Ingrata, faminta

Ah, vida ingrata, vida faminta.

Julho é saudade e lembrar é como "arrumar o quarto do filho que já morreu". Porque nada vai ser igual aos dias frios e à escola acolhedora de todo-santo-dia-9horas-de-aula.
Não teve saudade, choro, balela. Tudo era lindo, pois logo acabaria. Estava acontecendo, sabem? Era o nosso momento, nosso talento.

O dia da volta foi solitário, doente, hesitante.
Foi triste, babaca, silencioso, errante. Eu deveria nunca ter acordado. Nem te conhecido.



Jucksch, Márcio.

Freitag, 9. Oktober 2009

Adulterado

No passar dos anos, só Deus sabe o porquê, ficamos mais e mais convictos de que o mundo nada tem a ver com nossos delírios narcisistas, nossas esperas, nossas promessas e dores sem razão. Com o passar do tempo e com o cotidiano, nos tornamos escritores maduros. E péssimos poetas.


Meus versos eram tão belos quando eu só imaginava que sabia do que tratavam. Ser poeta exige antes de tudo a arrogância de dizer que o mundo é sim culpado, que a vida é sim doída, que o poeta é sim herói. Numa poesia não há espaço para “eu acho”s.
O poeta, até quando vacila, tem certeza. Aliás, é na dúvida seu estado de maior confiança. Mas, quando nos convencemos de sermos adultos e de que como adultos é que vivemos e decidimos e escolhemos, pronto, a vida nos adultera. E agora nada mais de imitar Clarice. Nunca mais começar um texto com ponto e vírgula. Agora sempre disparar a espingarda no fim do capítulo, se ela estiver no início.


Porque é assim que os adultos fazem, é assim que os adultos lêem. E há tão pouco tempo entre o tempo que se aprende a ler e o tempo de não ser mais criança. Vai levar tanto tempo para voltar a ser jovem.



Jucksch, Márcio.

Dienstag, 6. Oktober 2009

Pâncreas

Como um sonho, líquido; como o tempo, insólito; como a passagem, rarefeita; como o gelo, prático; como sua mão, dois minutos; como a imagem, mútua; como vitrola, escaldante; como a passagem, psicosomática; como o passo, indelével; como o aroma, pueril; como o espelho, pareado; como a morte, lôbrega.

De você, limítrofe; no dia, lodo; no cartaz, malopéia; de requinte, marajá; o enfeite, marfim; o pé, marítimo; a hierarquia, marquês; de espírito, máculo; com voz, metafísica; na noite, metódica; o quadro, mítico; o vento, mórbido; a saliva, mutável; a náusea, sempre; a negligência, avisada; de natureza, néscia.


Jucksch, Márcio.

Sonntag, 4. Oktober 2009

Outros demônios

Assim que se abriu a porta do amor, passaram por ela todos os demônios vestindo ternos de linho do velho mundo. Pularam com seus sapatos pontudos para o lado de cá, batendo os saltinhos no chão da realidade segura. Saíram um atrás do outro, andando apressados com suas pastas de couro preto agitando o ar macabramente. Olhavam-se entre si, bruxuleando em círculos, reconhecendo-se as feições de palhaços negros, com as maçãs duras maquiadas saltando por cima dos sorrisos iguais.


Virando a cabeça mecanicamente de um lado para o outro, como se o queixo de todos fosse puxado por linhas de um titeriteiro sádico, indagaram-se quem era e onde estava o que abrira a porta enferrujada. Sozinhos no recinto da metáfora, pararam os movimentos ridículos lentamente, até se tornarem absolutamente imóveis e então, sem aviso algum, viraram-se para as letras formando seu mundo de página, estenderam a mão para abrir um espaço, como quem afasta dos olhos uma cortina. Olharam para mim.


Falamos desonestidades à príncipio.



Jucksch, Márcio.