No passar dos anos, só Deus sabe o porquê, ficamos mais e mais convictos de que o mundo nada tem a ver com nossos delírios narcisistas, nossas esperas, nossas promessas e dores sem razão. Com o passar do tempo e com o cotidiano, nos tornamos escritores maduros. E péssimos poetas.
Meus versos eram tão belos quando eu só imaginava que sabia do que tratavam. Ser poeta exige antes de tudo a arrogância de dizer que o mundo é sim culpado, que a vida é sim doída, que o poeta é sim herói. Numa poesia não há espaço para “eu acho”s.
O poeta, até quando vacila, tem certeza. Aliás, é na dúvida seu estado de maior confiança. Mas, quando nos convencemos de sermos adultos e de que como adultos é que vivemos e decidimos e escolhemos, pronto, a vida nos adultera. E agora nada mais de imitar Clarice. Nunca mais começar um texto com ponto e vírgula. Agora sempre disparar a espingarda no fim do capítulo, se ela estiver no início.
Porque é assim que os adultos fazem, é assim que os adultos lêem. E há tão pouco tempo entre o tempo que se aprende a ler e o tempo de não ser mais criança. Vai levar tanto tempo para voltar a ser jovem.
Jucksch, Márcio.
1 Kommentar:
Olha! Postando neste exato momento, te peguei, idiota!
"E há tão pouco tempo entre o tempo que se aprende a ler e o tempo de não ser mais criança", parece o trecho mais simples e mais bobinho, mas é tão real e dolorido, às vzs.
Aparece!
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