Mittwoch, 15. Dezember 2010

Fluxo imaginético de um capitalismo premeditado

E de dois em dois, ela compunha sua fortuna maldita. Conta por conta quitada, vida por vida não praticada; ao menos o dinheiro agora estava lá, fruto de trabalho semi-escravo, poupava-se dos prazeres para um prazer maior e nem ao menos sabia qual era ele.


Oferecia sua cabeça para ser usada de forma de objeto carrancudo que ao abrir a boca exterminava reações, egoísta e mesquinha como tinha de ser, sozinha no espaço e no tempo. Tinha uma casa. Uma casa azul, encantada pelo monotonia, lá ela se escondia e tinha um certo sossego. Podia olhar embaixo da cama e sentir a certeza de que nunca seria incomodada, e lá era também o refugio de seus níqueis.

Temia os invasores do espaço, pois privacidade para quem não tem alegria é fundamental. O resto do dia era trabalho árduo e fatídico, a mesmice salarial provinda da filosofia da luta de classes.

Começou a olhar as lojas, deliciar-se com o cheiro das comidas sabendo que agora tinha como possuir tudo isso, mas não o fazia. Ficava no desejo, pois a utopia é sempre mais real do que a intensa troca de massa corpórea realizada pelo homem com o meio.

Nas viagens de ônibus à caminho do lar nem sequer olhava nos olhos dos passageiros. Era tão baixinha e inocente que lhe brotava uma flor vermelha da nuca que se alastrava por todo o local em forma de perfume.

Às vezes, essa flor contaminava suas idéias, fazendo-a até sentir-se bela, uma bela de uma mocinha rica.

Estava viva afinal. Com seus ouvidos cata-vento, de olhar amanhecido e enxadas nos pés. Não era forte, mas era humana.

Jogou o dinheiro na sua caixa de vil-metal e saiu correndo pela rua na procura do que procurar. Via livros com suas páginas ao vento que soltavam letras aleatórias em forma de música de um lado, do outro os trauseuntes que passavam numa velocidade espontânea e a cigana de calças curtas. Ah, a cigana! Essa pediu-lhe a mão. Aliás, forçou-lhe a mostrar a mão e no fundo da palma, circunscrito em paisagens vermelhas, a leitora pode ver tudo e disse: “livra da mão do soberbo ao que padece injúria e não leves isto com amargura em tua alma". E como veio a cigana foi.

Não adiantava mais, o dinheiro já estava ali, nada que falassem poderia isso mudar. Era só comprar, comprar! O amargo previsto já tranformava-se em azia mental e alma que ela desconhecia possuir; materializava-se em forma de pena em sua frente, de formas coloridas e pontas agudas que infligiam em todo seu corpo uma sensação. A pena se foi como veio e a mulher pobre de rica ficou lá estirada no meio da praça, abraçada com seu dinheiro maldito e benzido pelas horas de esforço para conquistá-lo. O tempo parou. A moça parou. E o dinheiro continuou fluindo à procura da mão soberba.

 
J, M.

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