Do casamento naufragado chegaram as caixas como se fossem destroços. Vieram flutuando pelo espaço do tamanho do mar que se cria entre duas pessoas que não dividem mais nada. Nem a vida, nem a cama. Vieram repletas de objetos que nunca foram usados. Vieram como vêm as promessas para alguém que se lembra delas muito depois de terem perdido o sentido. São os talheres e taças que o casal usaria no jantar, os panos de prato bordados, o saleiro, o azeiteiro. Não são sequer espólios de guerra, porque ninguém brigaria por eles. São os restos mortais do que era amor; ossos da expectativa de um lar, de uma casa imaginada que não vai mais existir.
Ele não mandou as caixas por vingança. Mandou porque não as queria por perto. Ela não as deixou para trás, na casa da mãe, por despeito. Deixou por falta de espaço na mala, deixou porque nunca pretendeu levá-las. O desejo, a saudade, são coisas que não se desligam como uma luz se desliga. São coisas que desvanecem, como a água evapora, como a madeira incandesce e vira cinza. O amor, talvez, obedeça outras regras. Talvez um dia acorde morto sem ter dado notícias de sua falência, como se lhe estourasse por dentro um abscesso. E cada promessa com a qual se construiu a segurança vire um tijolo na muralha de palavras dadas a uma relação que não se quer mais, cujas portas são arrombadas por dentro.
Só o que resta é um amontoado de tudo o que ninguém quis. Sobras de um futuro, espalhadas por uma casa que não pertence a ambos, sussurrando com vozezinhas lamuriosas e inconvenientes a quem passar os olhos:
... o amor não dura...
... o amor não dura...
... o amor não dura...
Gutte Neu Jahr
J, M.
2 Kommentare:
Foda-se! Como vc consegue escrever coisas com uma tristeza tão linda?!
um dos melhores que já li por aqui: seco, sarcástico, mas com uma pitada de doçura que eu sei que vc tem, negrón...
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