
O que não posso jogar fora é minha pele. Mesmo quando a poeira me faz triste e doente. Tenho um segredo: planejo desde o ano passado um suicídio muito delicado. Planejo esperar a poeira, me ver empoeirar. E depois, escrever assim: "Dormiu e acordou empoeirada".
Sentou na cama. Ficou imóvel por muitos dias. O quarto fechado. Ninguém na casa. Apenas ela, os móveis e os objetos. Todos silenciosos e em completa imobilidade. Ela respirava devagar como quem percebia a cama respirar e também as roupas e os sapatos. Ela estava muito silenciosa, e atenta. Respirava devagar. As prateleiras do guarda-roupa e as cobertas também respiravam devagar. Na rua havia ruídos e latidos de cachorro. Mas ali no quarto todos se concentravam no que havia de silêncio. Ela sentia que havia descoberto um buraco. Até que fechou os olhos e dormiu um pouco - ainda imóvel e silenciosa.
Então, dormiu e acordou empoeirada.
Irina
31.05.1972
31.05.1972
J, M.
2 Kommentare:
isso me lembra uma metáfora nova que ainda não sei onde colocar no novo livro:
morrer de acordar profundamente.
'
ficou imóvel e lindo, a poeira de tão bela fez o chão estático em breves instantes no ar.
particularmente acho essa foto tão foda, assustadora, íntima, agressiva, inteligente, natural e... tão márcio.
e o texto? guri, guri! se eu pudesse, com certeza, lançaria livros com esses teus textos. essa guria de cima vai escrever um, por que também não escreve?
só quer saber de namorar e estudar pra dominar o mundo, rapaz! ahauhauahau.
te amo, márcio! uma visita, por favor.
p.s.: talvez eu adote esta prática de suicidio delicado e acabe empoeirado de saudades suas!
té!
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