
Acabei de lembrar...
Lili estava no seu quarto. Lembro que tinha várias revistas científicas espalhadas pelo chão; o notebook, como sempre, sua companhia em cima da cama.
Conversando com sua mãe, dona Marta, mulher branca de assustadores olhos azuis profundos, que aquele dia trajava um lindo vestido vermelho, descobri que Lili resolvera pintar seu quarto de verde. A mãe estranhou a mudança de comportamento repentina. A menina meiga, de também profundos olhos azuis, cabelos negros... Agora mostrava seu jeito introspectivo, absorto; no momento, tinha preferência pela cor verde e laranja.
Dona Marta pensou que a filha estava sofrendo de depressão. Apesar das cores vivas, muitos de seus amigos comentavam a mudança de Lili. Ela não mais participava de nada, não mais namorava.
Num dos dias chuvosos e cinzentos do inverno, Lili sentou-se no quintal de sua casa e olhava fixamente para as suas árvores preferidas. Ficou ali pouco mais de 5 minutos, quando a chuva passou e apareceram os primeiros raios de sol; as nuvens mudaram o aspecto, ficaram com um tom alaranjado, rosa. Ela voltou para seu quarto.
No seu mundo particular, Lili era feliz. Sempre se divertia entre cores vivas, ausentes, aglutinadas; ela sorria como nunca o tinha feito. Os lábios vermelhos provando a qualquer um, sua felicidade. Mas sua mãe jamais soube disso... Acho.
Lili gostava de pensar que, nesse ponto, era uma pessoa egoísta. Gostava de ser feliz sem ter que dividir o que era temporário e de propriedade de raros momentos. Lili caminhava por sua diversidade, imensidão; sempre tentando imaginar o por quê das pessoas se preocuparem com a mudança de seu jeito.
Tinha decidido apartir do dia (que ninguém jamais soube) que não se importaria tanto com as pessoas e, sim, com seu próprio "eu". Mais tarde, no quarto, Lili apaixonou-se pelo quadro velho, de dez anos, que há muito habitava sua casa; namorava-o sem parar.
Mas dona Marta é mãe. Ela sabe o que se passa a seu redor. Nem Lili conseguia esconder tudo o que queria.
Mais tarde Lili dormiu... Isso me acalmou. Sabia que ali ela estava apenas perpetuando aquilo que jamais viria a ter; ou mesmo eu, não desejasse que ela passasse por perigos na busca desse "algo".
Lili era meu tesouro mais íntimo. Perde-la seria minha degradação, meu crime, meu suicídio... Era o que jamais poderia ser exposto ao mundo externo.
Und dann... Vamos.
Jucksch, Márcio.
Lili era meu tesouro mais íntimo. Perde-la seria minha degradação, meu crime, meu suicídio... Era o que jamais poderia ser exposto ao mundo externo.
Und dann... Vamos.
Jucksch, Márcio.
1 Kommentar:
é a mesma história do moço que roubou o girassol do canteiro da padaria, queria a beleza só pra si.
é tão lindo que chega a ser triste...
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