- Eu não esperarei.
- Calma, elas amadurecem rápido. Se é que cenouras amadurecem, pensando melhor acho que elas apenas irão penetrar mais fundo.
- E quando?
- Ora, quando estiverem prontas.
Eram diversas e tímidas com suas folhas crispadas numa linha permanente. Uma após a outra naquele canteiro sob a sombra. Dentro da terra deviam ser assim também, exceto pelas minhocas.
- Fico até o laranja.
- Mas nem sequer há flores na laranjeira!
- Fico até as cenouras ficarem laranja...
Não quero discutir. Laranja não é cenoura, nem cenoura laranja. Melhor não contar ou ele vai embora.
- Café?
- Obrigado.
- Café preto?
- Sem leite.
- Preto?
- Claro, sem leite é preto.
Ele precisa de muito café.
- Estamos na estação errada, cenouras ruins nessa época.
- Agora que estou aqui, não vou desistir.
Cenouras não são laranjas. Ele parece não querer saber. Tem mãos fortes ao segurar a xícara e um nariz tombado para a esquerda.
- Algo mais?
- Paz.
- Assim súbita? Com todas essas letras: P-A-Z?
- P.A.Z.
- Você é bobo mesmo. As cenouras ali, você aqui. Quer paz? Eu tenho paz, não é legal. Saiba que as cenouras murcham com tanta paz. Precisam de agito, das minhoquinhas, das fortes chuvas. Pensa que admiram a convicção? Pelo contrário. São convictas demais para isso. Elas vão se esconder de você; aliás, escondê-las-ei, sem laranja ou frutacor alguma. Ah, quer saber? Fique com elas, eu vou. Antes de colher, diga a elas que eu te perdoei. Cenoura sem cor não é cenoura, nem laranja. Por fim saiba que: tchau, paz, adeus.
Eu só queria avisar que pombas não comem cenouras...
J, M.
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