Sonntag, 23. Januar 2011

Conciliação

Mosquitos em volta da lâmpada clamando por piedade energética. Nós dois logo abaixo, no mesmo patamar. Talvez, sem voar, mas sempre com asas tortas pelo suicídio ultrapassado.

- O que foi?
- Minha cabeça está doendo.
- Venha comigo para fora.


Lá, encontramos os caracóis silênciosos arrastando-se na sua velocidade premeditada que dispensa um olhar e quando vê, já foi. Grilos cri-cri-cri. Num tom violino despachado na véspera. Aqui fora eu realmente me sentia melhor, sem vidros. Nossos pés estão descalços e tenho medo de pisar na vida diminuta que está em todo pó de terra. Um mistério meio absurdo, estou diferente. Não tem luz, só um monte de flor, mas vale, valida, valeu. Não sei se estive realmente fora, pois agora vejo que o vidro está embaçado.

- E onde estavam vocês?
- Nós só estávamos passeando, senhora.
- Pensamos que estávamos na hora.
- Está tentando me dizer.
- Sim, senhora. É claro.


Sempre temos de concordar com a madame casca do avesso. Sei que ela parece uma barata, isso é muito frágil apesar de todo o resistir. Nem ligamos de não contar para ela o que fizemos, desde que não tenhamos de trabalhar na cozinha com ela. Ela tem uns pés tão pequenos, nem sei como anda. Tá cheio de mosquito. Tá cheio ali também, nem sei para onde vamos nem sei o que fazer. Você sabe?

- Ela vai se desculpar?
- Só porque você é um juíz?
- O que significa isto?
- Você é um ianque.
- Mas eu não julgo ninguém.
- Claro que julga, você tem orelhas, olhos e um cérebro. Claro que julga.


Eu não gostaria de ter ouvido tudo isso. Não agora. Não hoje. Sempre sincero comigo, meu amigo. Ele devia se controlar um pouco mais, parece muito absurdo tudo isso, mas eu sei que ele não mente, jamais. Acho que ele está me julgando...

- Não devias ficar bravo comigo.
- Não é que estou bravo. Tenho ciúmes.
- Mas todos tem xales. Alguns até casacos! Porque terias ciúmes?


Novamente uma incontestável verdade. Muito frio aqui fora, muito escuro lá dentro. A casa está toda suja, o pó toma conta, a televisão está engraçada. Tão suja que, quando aparecem personagens nela, nem podemos indentifica-los, mas eles ainda falam. Umas vozes esganiçadas. Acho que é um programa de humor. Eu não rio. Queria sair daqui, não sei para onde, só queria.

- Não há nada para rir. Você vem?
- Eu te amo tanto. Nem posso entender o significado para você do fato do meu pai falar num menino que sempre me segue na escola, cuja mãe...
- Não quero ouvir dele! Não quero saber mais nada sobre ninguém que você algum dia conheceu. Bom, era isso que eu queria te dizer.
- Você não dorme há uma semana, estou preocupado com sua aparência. Não quer me contar?
- Talvez seja só por você estar se sentindo só. O natal está chegando e você longe da sua família. Quantos anos você tem?
- Não sei. Não vou embora.
- Não vai? O que vai dizer quando a estrada estiver terminada?
- Sempre posso encontrar alguma coisa.
- Aqui é diferente dos lugares onde você já esteve. Eles precisam conhecer você.
- Ouvi dizer que o mar é bonito.
- Não mais do que as planícies.
- Você já viu o mar?
- Não preciso, já vi as planícies.
- Você nunca vai saber quantos anos eu tenho, então. Estou com medo.
- De quê?
- Não sei.
- Você de nada sabe. Nem sabes quantos anos eu tenho! 33! 33!
- Essa não foi a coisa mais inteligente que ouvi.
- E eu sei que logo você vai seguir em frente, você se acostumou com o movimento.
- Idiota, eu vim para cá no inverno. Quando é frio, não há movimento, não existe nem razão. Eu não sabia que você era tão velho, eu tenho apenas poucos anos de vida, por isso eu corro tanto. De você, daquilo, das pessoas. Eu tenho medo até de me apaixonar, tenho medo dele, dela. Os dois juntos são um corpo que não podemos penetrar. Eu tenho medo de me conformar, você gostas de fazer sexo já. Daqui a pouco o céu vai desabar, o seu nariz está escorrendo gripe, olha a sua idade! Seu pêlo, sua coxa. Eu não sou daqui, eu não sou. É inverno, eu sou você, estou contigo, mas sou só desde que eu sei que sou . É inverno e eu vou continuar aqui, depois quero ver o mar e a planície.
- Você fala demais. Da planície é possível ver o mar. É inverno mesmo, até sinto frio, agora que você disse.
- Você tem uma cicatriz no olhos.
- É, eu sou cego.
- Então, vamos ver o mar.


J, M.

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