
Na numerologia existe uma coisa chamada "Grande Amor". O Grande Amor é uma espécie de contrato assumido pela alma em vidas anteriores; diz-se dele que é avassalador, que precisa ser vivido a qualquer custo nesta vida, que nutre sua força de uma profunda mudança na vida dos dois envolvidos. Um que amará desenfreadamente, sem poder esperar nem conseguir retorno pleno. O outro que deverá aceitar esse amor muitas vezes sem ter como retribuí-lo de todo.
O grande amor tem regras específicas, potentes, de duras penas para quem as infringe. Virá numa certa época da vida. É uma grande lição. Da maior importância. Não espera. Não permite o gozo de outras relações a menos que tenha sido esgotado; que a lição tenha sido aprendida, que um tenha tudo entregue, o outro aceito. Que se tenha crescido, passado adiante. E, então, que se finde. Dessa forma. Os dois saem da relação marcados para sempre. E não haverá outra igual. Mas ela acaba. Finito e inescapável. O grande amor se morre, é substituído. Possui um prazo. É terrível. Tudo marcado, como gosta a numerologia. Essa sabedoria sem o menor sentido e absurdamente fascinante.
Eu não tenho o grande amor. O amigo que estudou meus números, minhas vogais e consoantes, disse-me, quase sentindo alívio por mim. Ele. Não eu. Eu sempre quis o grande amor. Amei-o mesmo antes de saber qualquer coisa, sem acreditar em coisa alguma. Sem fé, sem crença. Amei essa mudança absoluta a partir da entrega de dois seres humanos que nisso e apenas nisso, não se podiam governar. Eu, como naquele filme das bruxas, erguia os braços e rodava pelo pátio da casa, até cair tonto. Eu, sem juízo, sem limites. Eu merecia o grande amor.
Corroí-me de inveja. Que graça tinha a vida, perguntei ao amigo numerólogo, agora que não era só o combustível para se queimar nessa paixão fulminante. O amigo, esse sim, tinha o grande amor marcado em seu destino, como uma promessa apavorante, agravada pelo fato de ter conhecimento dela. Andava receoso de seu tempo, temia pela liberdade dos seus sentimentos, dos seus gestos. Em poucos anos, aos 28 numa esquina, ele perderá o coração. Para alguém que não conhecera, regra essa essencial.
Eu não. Para os números, meu coração será sempre meu para dá-lo a quem quiser, com toda a responsabilidade por isso. O grande amor, o amor romântico, a velha idealização, todos têm o mesmo rosto. Cujo aspecto mais agradável é a loucura de ser possuído por um amor governante de si mesmo. No qual se entra sem escolha, para se perder. Todo amor é para perder pelo menos um pouco. Mas só no Grande Amor faz sentido culpar os outros.
R
Jucksch, Márcio.
2 Kommentare:
eu conheço um amigo assim juro! hahahahahahahahah
mto bonito isso aí, amor!
Bah!
Como assim tu não tens um GRANDE AMOR?! TEM, SIM! TU TENS VÁRIOS, GURI! TU É LOUCO MESMO!
AINDA ASSIM TE AMO!
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