Dienstag, 30. November 2010

Submissão

E mesmo sem jasmins ou margaridas, fazia da vida um baile jardinário. Andava pelas ruas vendo nos olhos das pessoas o amanhecer, que no seu viam a curiosidade. Aguçado semblante de maldições frustradas, possuia um cão: Pedro. Sim, o cão tinha nome de gente; ou a gente que tem nome de cão? Pouco importa, a vida é a mesma...

Acordava muito cedo todas as manhãs. Um cigarro e uma xícara de chá gelado abasteciam seu ser na quebra do jejum. Ouvia os latidos por todo seu ser, num espetáculo nostálgico, pois quando ele era criança possuíra um cão: Tobi. Com esse brincava, afagava, seduzia. Com o de agora, é tudo diferente, pois mudamos, mesmo que para pior. Dependendo do dia e da angustia, escrevia. Fazendo de seu laços estreitos comoção.

Olhava o coração apaziguado pela escadaria imensa que tinha de subir para chegar ao seu apartamento, tudo que queria era mentir e mentia. Ao encontrar desconhecidos e relembrar os falecidos (pois mentira nada mais é do que exalar as aventuras mortas que tivemos em forma disfarçada), sempre tinha uma história falsa na ponta da língua e o mais fantástico: tudo partia de uma verdade.

O cão era pura felicidade, mesmo sem ser amado, amava. É o dom do cão! Nesse mundo problemático onde todos estão quebrados, ele continua granindo para os carros e cavando à procura de pertences inexistentes.

Certo dia, um belo dia, colocou a coleira no animal para demonstrar seu poder e arrastou-o para fora de casa. Ele não queria ir, mas não há diferença entre querer e não querer. Não para um cão que segue o destino sem reclamar.

Andou, andou, andou. Ele não se cansava, havia tempos que não tinha tal disposição, não parava de ir em frente e o cão latejando de solidão ambulante seguia.

Encontraram um poste, local onde todos caninos se redimem e lá ele ficou. O homem contra aquilo não tinha como lutar, era a natureza. O animal esperto enrolou, demorando muito e fazendo seu dono suar. Os dois continuaram lá, por anos, décadas, milenios. Nada ia, nada vinha, tudo era desejo de contrariar. E o cão ao final de tudo subiu no colo do seu amor e urinou numa demonstração de afeto inusitada. O homem nada fez a não ser reconhecer que a única esperança que o alimentava se chamava Pedro. Seu profeta, seu homem, seu dono, seu cão.



J, M.

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