Samstag, 28. August 2010

O que o tempo leva

     Vontade vadia de jogar-se ao chão...
     Encosta sua cabeça anuviada na fumaça negra da almofada, sente o corpo esparramar-se pelo carpê. Não sabia de sua história. Com dez anos havia tido sua primeira glória, agora tão próximo do final sua história de amor acabava de começar, as janelas apareciam destroçadas e junto delas o dejeto do dia anterior; ele amava sua prisão, mais dez anos se passaram e o conjugê ameaçado de extinção continuava a tentar reanimá-lo. Era um lindo garoto, limpava a casa, fazia a janta, desejo constante de alimentar o vazio interior. Despido, realizava-se sexualmente junto de seu parceiro inerte de corpo igualmente prazeroso; eram dois lindos garotos, recriminados pelo ato do esconder. Duas rainhas dançantes, duas vidas fumegantes, tatos, barcos, sem o vento necessário nem ao menos havia a bendita maré de pesadelo da vida lá fora. Dentre tudo era pacato, beleza resguardada pelo feudalismo inapropriado para a época, um mundo doce de noivas vestidas de negro numa floresta de duendes chapados, uma inocência reprimida que despojava tentações sem posseções.
     Eles eram uma partida de futebol, onde os jogadores apenas empurravam a bola sem o objetivo de marcar pontos e a grama crescia indiscriminadamente tomando conta das bocas salivantes que as alimentavam, dominando o estádio rumo ao céu azul inerte que sacrifica seus pássaros em prol de uma ideologia.
     Eles não possuíam cor favorita, apenas coisas boas jaziam em seus olhos. Faziam questão de não registrar os momentos, tudo era como se nunca houvesse existido, eles não ligavam , não havia a tomada de um partido, apenas conselhos de um mestre sabiá que todas as manhãs pousava sobre a janela, defronte a fachada estonteamentemente colorida por todas as cores.
     Em cada raio de luz o sabiá anunciava sua passagem por ali, ele sabia não existir preconceitos naquele antro. Então vinha despido de suas plumas e dançava frenéticamente a procura de um par; um dos dois, um de um, um balé secreto que teimava em nunca terminar. Mais anos se passaram, ambos jaziam ali naquela caverna lapidada inundada por verdades nunca antes vistas, o corpo estendido no tapete respirava ofegantemente, previa a necessidade de uma mudança. Vrum-plaft-toc. O sabiá cantou pela primeira vez. Sabia que a mudança sempre esteve ao seu lado, dali em diante percebeu que nada era tão importante quanto o momento não registrado; ele queria sempre estar ali, ao seu lado seu companheiro alado, lado-alado, gritavam de felicidade, liam livros simultaneamente em voz alta, cozinhavam, nunca traíriam, por um anel de diamante batalharam eternamente e o conquistaramT terminaram cegos pelo cansaço da busca, comeram sua última torta de maçã e o pássaro agora muito bem emplumado pousou no nariz de um deles, e do nariz do outro brotou uma ave inerte a qualquer movimento. Acasalaram-se. E ali proliferava-se o novo sistema em forma de Deus.


J, M.

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