Donnerstag, 2. September 2010

Adeus de supermercado

Foi lá, dentre latas de pêssego e ervilha em conserva, no mais puro estado de inércia, o repouso lhes era fundamental, o fundamento era a estaticidade. Lá, eu vi tudo arruinar-se. Eu na esquina já próximo do sabão em pó, extremamente perfumado e contraditório neste momento, a espreita das bebidas alcoólicas, prestando atenção nos mínimos detalhes. Biscoito recheado 00.84$.
Foi tudo por um motivo tão banal a meu ver, culpa da inflação! Ah, o maldito contracheque! Eu ainda lembro bem, foi logo depois de eu ter visto o preço da barra de cereal. É como se o acontecido tivesse acabado de acontecer.
Ela encarando-o com seu tamanho desprezível em relação a lata de azeitonas ao seu lado. Porém diante dele ela era mulher, agigantava seus olhos que eram do tamanho da lua, entretanto negros e atemorizantes; o romantismo dos poetas perante àquela lua derreter-se-ia até chegar no estado do alcool em gel, virando à esquerda o próximo corredor.
Na hora ele se calou, apavorado temia o pior. Deixou-se entregue ao sentimento nostálgico que vinha da banca de revistas logo depois do caixa; os postêres de filmes que haviam assistido juntos, os últimos lançamentos que já lhe eram tão conhecidos, as embalagens perdiam as cores vibrantes da propaganda e faziam-se meros conjuntos de cores abstratas que deixavam o pensamento vagar. O que a vida havia feito da vida deles?
Tanto faz, ele já havia esquecido o que era ser. O desejo, a cor, a nostalgia o faziam delirar; ele só queria ela perto, dentro dele, a inocência pairava no ar, ele tinha apenas tocado, ele não queria traí-la.
Os eletrodomésticos no corredor à direita, com tantas funções! O que ele havia visto era tão simples, inútil talvez, mas desejável; ela com ciúmes não queria explicação de um marido ou homem, havia visto as suas intenções sem nem precisar senti-las, viu a maneira como ele olhou aquilo bem rotulado e devidamente embalado. A maldita lata de ervilhas!
Com aquele verde-oliva ele havia se deixado encantar; aquela sensação deliciosa em sua boca, meio salgada, meio sem gosto, talvez doce em boa ocasião, talvez amarga naquela situação. Fato é que deixou-se corromper, 3.99$. Um absurdo!
Ela não podia tolerar aquela situação, não aguentaria a acirrada disputa. Pegou as ervilhas, jogou-as no chão, o verde dissipou-se no meio do corredor, o pranto saiu em forma de dor, o coração pulsava com tamanha perda, o desespero era nítido como o som que me era óbvio; o som do vidro quebrando-se em contato com o chão duro e aspero.
Chegando ao caixa ela teve que pagar o vidro, mas saiu satisfeita. Seu marido já não causaria mais problemas, ela para reanimá-lo comprou-lhe uma barrinha de chocolate, 00.38$. Imperdível!



J, M.

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