E a vida saltita sem pó de pirlipimpim ou mágicas afins. Ela destrói, corrompe, enaltece e desvia, é simples assim. Sem rumo, sem dor, sem nada; tudo é uma questão de referencial segundo a física e fictício se falarmos em literatura, a exatidão matemática nem comentarei, das falsidades é a dona-mor. E fria vai passando por todas as pessoas, tentando encontrar um posto de fuga, sem nem mesmo ter um de entrada. Nada mais assusta, pois se há uma razão para o medo, esse seria viver a vida intensa. O dilema de todos e de um homem chamado Zolí.
Zolí. Nome estranho de gente esquisita, para um mero normal, mortal e moralista contingente. Mãos de peixe aquoso, queria contar isso a todos mas preferia esconder, era culpa da lama que lhe inebriava os olhos. Não bebia, não saía, era só. Uma borboleta num eterno casulo camuflado dentre as folhas, era noite. Nesta hora a insônia é sua companheira, a mesma que o aflige e o alimenta. Sem casos ou descasos, era parte do fluxo contínuo de vento que passava pelas janelas e saía pela porta quando esta encontra-se aberta. Quando fechada, entra-lhe pelas narinas reverberando por todo seu corpo, causando-lhe a sensação de não-existência, claro que a porta estava sempre aberta. Telefone toca, uma ligação da "amiga" (na sua concepção, apenas mais uma mulher indigna de um flerte) pedindo abrigo . Ele disse ao telefone que agora não, era muito tarde. Ela respondeu-lhe: mas já é muito tarde para ser tarde.
Aceitou a visita. Enquanto isso se deitou no sofá e levado pelo som inebriante das árvores companheiras, cochila. A "amiga" entra sorrateiramente, fechando a porta com uma sutileza misteriosa. O vento que nunca cessa, agora encontra a porta fechada e dirige-se ao seu rumo nasal. Ele suga-o sem nem mesmo saber. Acorda repentino de um sonho ladino e olha para seu corpo chocado: estava bonito, nú, estava diferente, estava.
Olha para todos os lados num giro de 360º, agora sentia mais vontade ainda de contar tudo e não ser ouvido, estava louco mesmo... No canto da cozinha ouve um tilintar de talheres, é ela. Batendo com garfos no chão, fazendo ruídos na escuridão, onde a única fonte de luz era o cabelo de Zolí, que reluzia roxo de brotoejas picantes. Mirava-a sem querer acreditar no que via, era muito sangue para apenas uma pessoa que tilintava talheres! Jogou todos os móveis para um canto e ligou uma vitrola, nem sabia que música era, nem importava. Pegou sua colega pelos braços escorregadios e conduziu-a pelo chão, deixando-o marcado com aquela cor clichê de amor, dor, sangue... Não fazia um desenho, muito menos um traço e sim um festival de cores abduzidas num único resíduo rojo. Ela muda, calada, não achou nada estranho, nunca notara que podia existir algo estranho em alguém naquela casa. Sonhos doces, rodopios celtas, agressões sadomazoquistas e todos os sonhos realizados num tempo que nunca ocorrera. Um botão na camisa dela começou a mover-se e sucessivamente todos os otros saltaram, compondo uma balé abotoado sem sequer haver um zíper para atrapalhar, até o vento havia parado. Todos procuram por algo e o algo está ali. Agora. Filas de seres estranhos concentram-se na porta esperando a chamada. Ele subitamnete revela: meu corpo está quebrado e tenho pernas e mãos de sapo. E medo, medo, medo. Não de me recusarem, mas sim de ser aceito e de ser mais um normal como voces, inúteis!
O aglomerado da porta se joga no chão, sacudindo-se e vomitando lamúrias de uma vida seca e cada um desaparece ao badalar do sino louco e intenso. Zolí repousa e diz para ela: pronto, agora eu disse. Mas e agora, o que faço?
- Agora? Agora é tarde demais para ser tarde. E a tarde já se foi tardia.E num desespero aflito ele a engole num lapso de memória e, de tão estufado pela verdade, cai duro e intenso. O vento começa a passar e, ao invés de seguir o habitual curso nasal, agora segue o curso das marcas deixadas na cozinha, num zigue-zague constante de felicidade sóbria e infinita.
P.s.: 30 de setembro eu ganho parabéns de várias formas, de tudo e todos. É isso!
J, M.
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