Nada é mais perigoso que o tédio. Já nos demonstram os jovens incendiários de índios. Mas ele também oferece riscos menores. Como a completa falta de precaução com viagens para fora de cidade. Isso explica porque, hoje, dia 29 de janeiro de 2005 às duas da tarde, na hora mais arrogante do sol, eu fui parar no meio do nada, bem no meio do mundo.
Tínhamos embarcado numa viagem para o sitio de um colega da sala. Jaiana Carmezim e eu. E mais uma boa parte da turma. Dentro do ônibus, discutimos sobre livros, filosofia, a falta de valores da juventude, Macapá e a possibilidade daquelas pessoas estarem esperando que levássemos alguma comida.
Abre parênteses (em minha defesa: se for convidado para uma festa, espero que me digam o que devo levar. Do contrário, a única coisa que conseguirão de mim será um Halls preto e muito cigarro. Se eu estiver de bom humor. E odeio essa liberdade fingida de “Ahh... leve o que quiser”, se alguém me vier com essa, apareço na festa com um quilo de sal grosso) Fecha parênteses.
No momento que percebemos que aquela era uma daquelas festas em que não sabemos porque viemos e como vamos sair, surgiu o desespero. E, como Murphy era um cara muito sacana e sabichão, foi só nesse momento que descobrimos que o ônibus só voltaria às sete da noite. Problema: Jaiana tinha prova às duas da tarde. O único rapaz que possuía um carro, um famoso encrenqueiro que disputa corridas por aqui, era, justamente, o único que nos detestava. Aos dois. Todavia, minha criação foi baseada na política, com uma dose de manipulação e um poço de inconveniência. Fui, portanto, me despedir dos amigos. Quando eles souberam que pretendíamos andar até a estrada, convenceram o ilustre a nos dar carona pelo menos até o ponto de ônibus.
Uma amiga, Maria, decidiu nos acompanhar, bem como um colega que era o melhor amigo do dono do carro, e foi quem o convenceu a dar a carona, presumo. Não pude evitar pensar que ambos estavam indo para garantir que chegássemos vivos. Acabou sendo uma ótima oportunidade para o jovem nos mostrar seu potencial como corredor. E como babaca.
Bateu o carro em uma árvore ao tentar nos impressionar com uma manobra na piçarra (que é um tipo de terra vermelha e cheia de pedras). Nada grave. Bom, talvez exceto para o pára-choque do carro. Depois disso, ele acabou nos deixando numa paróquia na beira da estrada. Como o sensato garoto pareceu pensar que o acidente era nossa culpa, não tivemos coragem de lhe dizer que o ponto de ônibus estava distante dali. E seguimos os dois andando.
Quando o sol começou a rachar minha cabeça, eu já tinha desistido tanto de convencer minha companheira de que pegar carona na estrada no mínimo era burrice, quanto da a esperança de que um ônibus passaria. Estávamos cínicos, desiludidos com nossa sorte e cansados, quando um carro subitamente parou ao nosso lado. Primeiro achei que algum maníaco se realizaria agora (tudo passa pela mente do neurótico, assassinato, terrorismo, mutilação). Então o rosto de uma senhora austera apareceu pela janela e perguntou, dura: “Que caras de preocupação são essas? Há alguém passando mal?” Taí.E eu achando que tinha o dom de fazer as perguntas mais inesperadas.
O nome da senhora era Giovanna. É italiana. Não sei quantos anos tem. Mas seus cabelos eram todos brancos e seus olhos claros tinham a expressão rígida de alguém que já viu a dureza do mundo. Trabalha aqui prestando serviços à comunidade em um hospital. Ela não teria parado, confessou, porque já haviam lhe avisado sobre os perigos de dar carona à estranhos. Mas viu nossos rostos preocupados. E decidira que o remorso seria maior senão ajudasse. Disse isso sem a expressão de ingenuidade que se espera da bondade humana. O que me assustou e maravilhou ao mesmo tempo.
Não perguntei se era freira, mas creio que era. Estudei com freiras por muito tempo e acho que ainda consigo distinguir uma ao falar com ela. Perguntei-lhe tudo o que pude sobre o projeto de caridade, ela pareceu feliz em responder. Fiquei e ainda estou impressionado com o quanto desconheço sobre minha cidade e meu estado. E lhe disse isso. Dona Giovanna me respondeu: “Uma árvore que cai faz muito mais barulho que uma floresta que cresce. Mas assim é a vida, isso não nos impede de continuar”. Falamos também sobre a Itália e sobre sua influência na cultura brasileira, acabei me lembrando de algo que costumava dizer para mim mesmo há muito tempo e esqueci: “Toda família veio da Itália”.
Nos despedimos de Giovanna e ela nos desejou boa sorte. Fiquei pensando sobre os opostos completos com quem tinha acabado de cruzar. O jovem perdido que não faz idéia de quem é e precisa de atenção e a velha mulher que encontrou seu caminho ajudando os outros. Engraçado como começou o dia de hoje e terminou o de ontem. Repletos de discussões sobre valores perdidos. Precedidos de um mês inteiro de cinismo. Para então surgir uma italiana que me mostrasse que esses valores ainda sobrevivem, se alguém buscar por eles. Sorri ao pensar que essa é a grande piada de ser um agnóstico romântico. Acreditar em deus não tem tanta importância assim. Mas daríamos tudo para acreditar em um sinal.
P.s.: acho que é necessário, sim, ficar na memória. E ontem foi o aniversário daquela e dessa Macapá do texto. Sim, é meu presente!
J, M.
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