Mittwoch, 3. Februar 2010

A ovelha negra

Semana passada, disse eu ser uma “flor de obsessão”. Fiz isso para parodiar Nelson Rodrigues. Me redimo. Sou um cactos obsessivo. Tenho esse problema. Fico fascinado por um escritor e não paro mais de falar dele. Ou então me apaixono por um cd e o escuto ininterruptamente. Até que ele risque ou alguém ameace jogá-lo fora. O mesmo se passa com filmes e livros. Releio, re-assisto, re-escuto, geralmente três vezes. Sou um homem de repetições triplas. Por isso não conheço muito de cinema. Ou música. Ou literatura. E por isso, claro, sou um alvo mais que constante dos preconceitos de meu circulo social.

Alguém, provavelmente na França e muito provavelmente em 68, disse certa vez que nunca se deve confiar em qualquer pessoa com mais de trinta. Se eu ouvisse, diria que ninguém com menos de trinta me parece confiável tampouco. Sim. Certo que todos já tiveram que superar os traumas deixados pela infame e insaciável “turma” (sinto muito, mas andei assistindo àqueles programas para jovens de novo. Vou parar. Juro). Contudo, não se fala muito da malicia dos jovens. Estou falando de malícia simples e até saudável. Não daquela loucura de garotas transviadas como retratado em “Aos treze”. Disso todos falam.

Não nos diferenciamos muito de um bando de ovelhas. E sempre existem os desgarrados. Aqueles que são inteligentes entre idiotas, os covardes entre corajosos, os admiradores do Almodóvar entre fãs de “Velozes e furiosos”. Nenhum desses foi o meu caso. Tive o azar de fazer amigos maravilhosamente inteligentes. Todos talentosos e/ ou geniais. Enquanto eu, para minha frustração, crescia sendo, bom, normal. Palavra que, no meu meio, remete sempre a medíocre.

Não é que eu seja invejoso. Certo, sou sim. Mas aprendi a lidar com o fato de ter um cérebro padrão entre grandes mentes. De tirar notas ridículas em matemática, de ser um aluno no máximo “muito bom” em redação, português e história. De assistir “Buffy, a caça-vampiros” enquanto todos viam CSI e de achar que o melhor cinema é aquele com poltronas reclináveis. Não tenho grandes dificuldades em aceitar a inteligência superior da maioria de meus amigos. É claro que devo isso aos adoráveis obtusos que preservo com carinho. Doce descanso para o meu ego.

No entanto, para tudo há limites. Acho ótimo descobrir as maravilhas do cinema europeu guiado por um amigo cinéfilo, por exemplo. Mas não vejo maravilha nenhuma em ter esse mesmo amigo reclamando do quão prosaico é meu gosto cinematográfico. E ainda por cima exemplificando. O mesmo serve para a literatura e a música. Não se trata de não querer provar do novo e diferente, mas tenho minhas barreiras e o meu ritmo. E gosto deles. Gosto de aprender algo de novo com aquilo que já conheço.

É uma realização quando acontece. Perceber num livro uma frase que tinha perdido na primeira vez e que deu um sentido totalmente novo ao diálogo. Escutar “A história de uma gata” do Chico Buarque tendo, finalmente, descoberto que se trata de um retrato da burguesia artística durante a ditadura ou ouvir “Eu sou neguinha?” na voz da Vanessa da Mata e pensar que o Caetano talvez estivesse cantando sobre a hipocrisia racista em versos que não tem muito sentido aparentemente, mesmo depois de mil repetições, me dão prazer. E talvez essa seja uma forma de se fechar para o vasto conhecimento que existe no mundo. Se for, sou um abençoado por minha ignorância.

Quanto ao cinema, posso até nunca vir a entender a filosofia destrutiva por trás de “clube da luta”. Ou a mensagem do Fellini em “Dolce vita”. Mas nunca me esqueci dos bodes violinistas de “Um lugar chamado Notting Hill”. Bem como repasso com perfeição a imagem da velha pedindo desculpas ao protagonista, em “Grandes esperanças”, por ela ter deixado Estela quebrar seu coração, desde que tenho onze anos. E ainda sinto o mesmo aperto no peito que senti na primeira vez que vi as cenas. O aperto da certeza (e de não querer tê-la), de que desse mal eu talvez gostasse de morrer. E se um filme pode me fazer sentir assim, então me interessa muito pouco o que terão a dizer sobre ele.



P.s.: Ele, o autor, quis falar sobre ele na terceira pessoa.



J, M.

Keine Kommentare: