Donnerstag, 25. Februar 2010

Leny

Leny se sentou no banco de madeira, pôs o livro no colo e pensou que poderia estar usando um chapéu. A praça estava linda no outono. As folhas mortas contribuíam perfeitamente para a imagem que queria expor de si mesma. Sua juventude transbordante secaria. Ela usaria um grande chapéu, daqueles que se compravam em lojas especificas e que vinham em grandes caixas pretas. Mas para isso precisaria de um vestido. Sim. Teria um belo vestido. E as cores iriam embora. As cores a ofendiam. Não mais seria jovem. Nem velha seria. Sua vida seria em preto e branco agora.

“Isn´t Romantic?” Ella Fitzgerald cantava em sua mente. Sim. Era tudo perfeitamente romântico. Sua idade e seu coração partido. Virou o rosto para que o vento levasse suas lágrimas e esvoaçasse seus cabelos. Se não tinha chapéu, teria cabelos esvoaçados. Os passantes a olhavam por um segundo e logo desviavam a atenção. Leny adorava a forma como sua dor a tornava intocável. Ela, que já fora tão tocada.

Enxugou as lágrimas finalmente e prendeu os cabelos. Lembrou-se do último momento. Aquele em que previu o fim. Dissera a si mesma que estava delirando, sem nem mesmo perceber que estava dizendo. Lembrou-se de seu corpo solitário na cama, enquanto o som da água caindo no banheiro lhe punha em torpor. Estava tão cansada que sua mente simplesmente esquecera de acreditar no romance. Naquele momento ela se viu como estava agora. Em preto e branco, com seu grande chapéu imaginário.

Sua previsão acabou quando ele veio. Olhou para ela e se deitou ao seu lado, ainda enrolado na toalha molhada, disse-lhe para não dormir. E ela, tão ansiosa por amar, pensava agora, virou-se e não disse coisa alguma. Não havia nada a ser dito. Havia tanto a ser dito. Mas ela não poderia dizer nada. Amara o romance acima de tudo. Sabia da dor. Sabia do fim. Mas amava o romance.

E agora estava ali. Aceitando as conseqüências de seu amor. Sofrendo o sofrimento que o romance exige. Quando ele a deixara, sem dizer nenhuma palavra, ela culpara a covardia dele, mas agora se perguntava se ela não havia sido tão covarde quanto. Ou eram ambos apaixonados pelo romance? Leny sorriu o sorriso de mulher que a dor lhe ensinara a sorrir. E se levantou. Era suficiente. Aquele era o fim. O romantismo a levara até ali e ela cumprira seu papel até o final. Não que seu sofrer fosse encenação, mas o motivo dele existir o era. Era um sofrer pela mentira que contara a si mesma, por ter acreditado nela. E levou isso às ultimas conseqüências. Como devia ser.

Não se arrependia, contudo. Nem por um momento. Queimara sua dor pelo drama. O verdadeiro drama. Que só os corajosos podem alcançar. E agora só havia cinzas. Era o bastante. Estava queimada. Estava marcada. Estivera andando enquanto pensava sobre os românticos. Parou para olhar ao redor e os viu. Eram os que tinham os sorrisos mais adoráveis, eram os mais corajosos, ela pensou. Porque eram os que amavam mais e sofriam mais. Eram os que entendiam a dor. Eram os livres de fato.

Ela a enfrentara. Enfrentara sua dor ao sofrê-la e havia vencido. Vencera sua humilhação. E todo o patético do drama agora assinalava sua liberdade. Seu sofrimento fora visível para todos e isso a libertara. Agora ela era viva. Viva para morrer e morrer nessa vida. Como devia ser.


P.s.: “Leny” foi escrito para uma amiga de mesmo nome que me inspirou e inspira. Todavia é de minha inteira invenção. Ou é inteiramente roubada, como são todas as coisas inventadas nos dias de hoje... Em “Leny”, tentei, sabe-se lá porque, mostrar como o preto e branco e os grandes chapéus são como a dor maravilhosa dos românticos. Acho que foi uma tentativa falha. Enfim, acho que há mais de mim nesse texto do que eu esperava, o escrevi tendo quatro músicas fantásticas como trilha “Isn´t Romantic”, “Love for sale” e “Blue Skies” na voz da Sra. Fitzgerald, e “Geórgia on my mind” de Lady Billie Holiday. Os títulos são para demonstrar minha reverencia. No mais, é isso.



J, M.

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