“E o que queremos todos saber? Quando acaba a euforia da ciência ilimitada que nos dá a ilusão de poder ser Deus. Quando voltamos dos grandes mergulhos filosóficos de uma “existência que precede a essência”, genialmente defendida por Jean-Paul Sartre. E não foi o próprio que respondeu que uma literatura é nada perto da uma criança que passa fome? Num momento que Nelson Rodrigues batizou de “nostalgia da burrice”. Queremos saber no que tudo isso influirá em nossas vidas. Mais que isso. Queremos saber por que influirá.
Sem tentar posar de realista engajado, creio que Gilberto Gil tentou mostrar, com arte e leve ironia, o abandono do homem. O sentimento de ter seus problemas trocados por um estudo mais interessante, menos feio, nem um pouco angustiante. Mas esse homem, carente, quer a atenção de volta. E quer respostas. Por que, enquanto tantos sofrem, é tão mais interessante se deslumbrar e tentar achar respostas para perguntas tão além do que se vive no mundo? E, se esse conhecimento é tão importante, por que não pode ser compartilhado com todos?
Gil não fala nada sobre filosofia na música, não diretamente, pelo menos, mas acho que teria o mesmo sentido se falasse. Não houve muitos filósofos engajados politicamente com seu tempo na história. O que torna válido o argumento de que a filosofia pode se tornar alienante quando as grandes questões sobre a vida e o universo nos impedem de ver o que está a nossa volta. Argumento esse que me atormentou (por vezes ainda atormenta) durante minha estadia por aqui... você sabe
O intuito da música, penso, é invocar uma pergunta: estamos fugindo do tema? Encantando-nos com o que a ciência pode fazer para esquecer do que precisa ser feito? Ou chegaremos há algum lugar melhor com tantas invenções? Nesse caso, para o compositor, deveríamos ser avisados, porque estamos todos andando no escuro”.
Foi isso o que eu respondi a um estudante de jornalismo que esteve aqui em casa e que me interpelou sobre essa música para um trabalho. E não pude deixar de pensar na resposta. E, como bom egocêntrico, em mim mesmo. Sem querer desvirtuar a música de Gilberto Gil, não pude deixar de me perguntar, será que escolher apenas um lado da moeda não é simplesmente mais fácil?
Toda geração até agora, pelo que sei, parece querer se dividir em duas categorias (aparentemente, pelo menos) os que se interessam pelo mundo e os que se interessam por si mesmos. Ora, eu sou muito interessado por mim mesmo, mas nunca consegui me desinteressar pelo mundo por muito tempo.
Ao conviver com estudantes possuidores da mais pura veia revolucionaria de um lado e jovens dotados do mais genuíno “estilo” de outro, é difícil não questionar algumas das próprias paixões e começar a criar outras novas. No que diz respeito ao individualismo. Ainda sou apaixonado por filosofia, mas já não posso me impedir de adotar o 42 como resposta, vez por outra. Seja para manifestar minha indignação pelo aumento das tarifas na rodo – ferroviária, seja para aproveitar a queima de estoque dos democratas na sapataria mais próxima. E gosto muito de poder fazer os dois.
Mas me perdi no tema. O que quero dizer. Não. O que quero perguntar é: Será que tudo o que fazemos precisa estar politicamente engajado? E não falo só das pequenas ações do dia-a-dia como comer carne e fazer compras, mas dos grandes feitos. Como na arte ou na ciência. “Faça literatura! Faça literatura!” – Gritava Guimarães Rosa. E literatura não precisa envolver ideologia – para fins de discussão.
Não quero, de forma alguma, viver numa sociedade onde só o que conta são os valores individuais, contudo não me interesso por um sonho onde esses valores não contam em nada. A idéia utópica não era de que cada um visse o mundo como sua visão permitisse e o representasse de acordo?
Julgamentos à parte, é deveras cansativo tentar achar uma posição num novo mundo de oitos e oitentas. Quero pensar que estou além disso. “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. É o que diria o Mario de Andrade. É o que eu digo também.
J, M.
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