Comprei o livro meses atrás. Levei meses para lê-lo. Não que fosse de leitura cansativa. Ao contrário, sua leitura é quase saborosa, poética até. Me delonguei o quanto pude para me decidir entre a paixão e o descaso.
Tenho esse problema. Posso ver algo ridículo e adorá-lo, tanto quanto posso achar um livro maravilhoso e detestá-lo. Toda uma trama pode ser perdida por um mero detalhe. Às vezes tenho pesadelos com esses meros malditos detalhes. Quase nunca os supero. E, no meio da noite, suando frio, acordo murmurando entre lágrimas: “Por que você existe? Por que você existe? Eu poderia amá-lo se você não existisse, bastardo!”. Mas me perdi no exagero. Volto ao tema.
Um detalhe em potencial para descaso é a intenção do escritor. Há quem diga que o que importa é a impressão que a obra deixou, aquilo que ela passou ao leitor. Ladainha politicamente correta. Se o autor tinha uma intenção e não me passou o que queria, é um frustrado. Se for frustrado, ensina o dinamismo, não merece consideração.
Adoro aquele trecho, especialmente seu inicio, que diz assim: “(...) Sou tudo o que você perdeu. Você não vai me perdoar. A lembrança de mim atrapalhando sempre sua história. Não há nada a perdoar. Você não pode me perdoar (...)”. Esse pequeno trecho, com todo o patético que nele reside, conseguiu me passar a sensação que eu manteria durante todo o livro. Por trás de todo o cenário (região 1, região 2, região 3), por trás de toda a política, e de todo o inútil glamour (nada tenho contra a inutilidade do glamour. Mil vezes pelo contrário. Respeito e admiro o glamour muito mais que a falsa monogamia, em toda a sua inutilidade, por toda a sua inutilidade), há apenas o velho e patético triângulo: o homem traído, a mulher traidora e seu amante. Eu me sinto nesse mesmo contexto. Não falo de realidade, mas sim de reconhecimento.
Por mim, o romance precisa ser apenas isso. Um cenário real, de importância atual e até pedagógica. Mas um cenário. E o que vale mesmo é a dor do corneado e sua necessidade de vingança. Sim. Porque o homem traído, nesse livro, é reduzido a corno, como é na vida. E sua busca pelo acerto de contas com a traidora e o corneador. Há aí toda a dor inútil de que preciso. A estória, a literatura, se basta nisso. Mas talvez não.
Posso estar enganado. Talvez (surge uma esperança) haja uma forma de extrapolar sem perder a beleza do inútil. Talvez a pretensão não fosse passar a política através da literatura, mas (a esperança se ilumina) a de mostrar a literatura por trás de toda a história. Dolorida e irônica. Talvez ela (a mulher que trai), seja a própria região 1. Dividida entre o homem que ama (região 2) e aquele que abre portas para sua ambição (região3). Nesse caso, o patético transcende o dramático. Ele é histórico. Digno de paixão.
J, M.
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