Montag, 8. März 2010

O Márcio, o patético e o drama

Ele é a única realidade. O resto é apenas farsa. Farsas necessárias, farsas verdadeiras, farsas poderosas e covardes.

A coragem, tal qual o líder, é uma farsa. O realismo, acima de qualquer outra, é a farsa mais covarde que há. O patético é a única verdade que resiste e se mantém imutável. Tão verdadeiro que envergonha, a ponto de mudar de definição. O patético de hoje é o ridículo, puro e simplesmente ridículo. Sem maiores explicações é claro. Mas é ridículo, não dizem, porque enternece o coração, porque humaniza, faz sofrer. Ser visto sofrendo a dor alheia é vergonhoso, a mesma vergonha do ladrão que não tem onde carregar o roubo. Tem que morrer, porque comove. E morreu.

O mundo moderno matou o drama. Devíamos agradecê-lo, portanto. Tudo se torna muito mais simples agora. Não há mais motivos para que algo se torne trágico, pois descobrimos não ter tempo para a tragédia. De forma alguma. Temos pressa. Essa é provavelmente a única verdade universal na sociedade de indivíduos. O dinamismo é imprescindível para ser útil. E a vida é agora o reino do dinâmico, mesmo o sofrimento se encaixa na rotina. Sim, pois o dinamismo é versátil, condescendente. Reconhece a necessidade da dor. O novo cinema nos ensina. O dor vem da frustração, do erro, é sofrida, nos amadurece e vai embora. Há tempo para tudo, se tudo se encaixar na agenda. Se tudo tiver utilidade e sentido.

É inconcebível a dor sem sentido, a tragédia cotidiana. A vida que não segue. O exagero. O exagero me é natural. Mas não esqueço de Nelson Rodrigues nunca. Ele dizia “Sofra. Sofra e apenas sofra. Sofra sua dor e sofra sozinha”. Nelson Rodrigues me entenderia, ele concordaria que ver a dor de outrem é mortificante, assustador. E que o maior gesto de bravura é chorar e berrar e doer para todos.

Eu quase disse “Meu Nelson Rodrigues” agora, mas não disse. Eu o amo, mas não disse. Não disse porque acredito na falsa monogamia. E Nelson era da minha querida Isabelle antes de ser meu. Dizem, os tolos, que a monogamia anda desacreditada. Mentira. Tudo que se diz e faz contra a monogamia só serve de holofote e marketing para ela. Não tenho nada a dizer sobre a monogamia. Mas admiro incomensuravelmente a falsa monogamia. Não há mais nem sentido nem utilidade para a falsa monogamia. Como tudo que anda morrendo, mas persiste bravamente, tem meu respeito.

Jamais fui de fato um falso monogâmico. Aqui me perguntarão se com isso quero dizer se já traí. Calma. Estou fugindo do tema com um objetivo. As pessoas superestimam seu desejo pela verdade (você mesmo não quer a verdade e eu certamente me mantenho longe dela até onde é possível). Penso, não há homem enquanto não houver traição. Sim. Penso isso mesmo. O homem só se torna homem quando trai. Agora eu serei eternamente machista, já posso até ver o horror e a decepção. Mas é fato. Explico.

Só quem foi traído conhece a dor lancinante de ser trocado. Embora, acredite-me, não seja tão humilhante quanto o abandono sem troca. Dores igualmente patéticas. Completamente diferentes da dor do traidor. Sim. O verdadeiro traidor sofre. Só não sofre quando não tem consciência real da traição e acredita na própria mentira.Nesse caso, trata-se de um safado obtuso. Esse é o puro. Mas o traidor consciente e sofredor não é um safado, é um canalha. Sofre por humilhação, sofre por ser culpado, se considerar tão culpado quanto é considerado por aquele a quem traiu. O canalha não é patético. Não é sem sentido e não enternece o coração. Ele é necessário. Se não o for, uma vez que seja, o homem não será homem. Não se trata de trair, mas de se sentir humilhado por ter traído. O patético é essa humilhação, o patético conscientiza da dor. Quando a consciência surgir, haverá ali um homem.

Volto um pouco: jamais fui um falso monogâmico, posto que os falsos acreditam na monogamia de fato, e a mantêm a todo custo (entenda-se por custo mentira). Não acredito em mentiras (ora, claro que não! Dirão). Me complico. Quero dizer que não acredito na existência da mentira. São apenas verdades disfarçadas com palavras e gestos. Mas nunca fui muito bom com mentiras, sou um canalha com complexo de culpa.

Volto ainda mais. A coragem e o realismo são, como quase todas as farsas, extremamente necessárias. Não por orgulho. Mas por respeito. Estou falando da coragem do cotidiano e do realismo que mata o drama. Ninguém é obrigado a se ver assustado pela dor dos outros o tempo todo. Nem deve ser. Contudo, o mundo foi ao extremo pelo direito. O drama se tornou ridículo, o patético é humilhante. Mas, pasme, não há nada além do drama. O que está livre do patético é desprovido do sublime. É desumano, banal e falso.

Não se sofre mais, bem como não se usa grandes chapéus e cartolas. Matou-se o patético, o dramático e o romântico pelo dinâmico. Usurparam a sensibilidade, é o que penso. Não há mais o inútil. Só o moderno.


J, M. 

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