Hoje, ao entrar na mesma sala, Sebastian não se sentou no lugar de sempre, sentou na cadeira de Belle. A última cadeira da última fileira. Sebastian era Belle para que deixasse Belle ser ela mesma. Riu de si mesmo e se perguntou onde estava o canalha que jamais sofria agora. Não pôde evitar lembrar o único momento romântico que ele permitiu que tivessem. Na escada que rolava: os dois abraçados. O cabelo dela, o vestido sedoso dela, a pele tão branca. O cheiro só dela que ele poderia reconhecer em qualquer lugar.
Eles se distanciaram e ela riu dizendo que, no filme certo, estaria tocando “Colorblind”, e ele morreria no final. Como sempre morrem os canalhas. Ele a soltou devagar para dizer que os canalhas só morriam em filmes para adolescentes não se desiludirem tão cedo com a vida. Sebastian era assim. Era cruel para não ser o sofredor. E Belle sorriu. Porque amava Sebastian, mesmo com sua crueldade fingida.
O mundo estava em preto-e-branco, claro que estava. Porque Belle partiria tão já. E levaria consigo boa parte da vontade que Sebastian tinha em ficar. Ele queria o mundo e a partida dela servia para lhe lembrar disso. Ele amava Belle e nunca tinha lhe dito isso porque era verdade. E porque não precisava dizer. Mas agora queria ter dito.
Não diria nada. Queria que Belle fosse livre como ele gostaria de ser livre também. “Gostar é a melhor forma de ter. E ter é, provavelmente, a pior forma de gostar”. O romantismo o consolava. Belle já havia lhe dito que ele era a contradição viva. Sendo doce ao ser cruel. Correto ao ser canalha. E romântico, sem nunca chorar.
Ele sabia que não havia motivos para ser triste. Mas era triste. Se sentia só. Feliz e infeliz. Era bom ela ter partido primeiro. Era tão ruim que ela tivesse partido. Mais contraditório ainda era pensar que, de todas que ele já beijara, Belle era a única por quem, pela despedida, ele choraria. Se refugiou no romantismo. Viu o nascer do sol com o doce namorado dela, tão mais abandonado que ele, e a linda melhor amiga dela, tão mais solitária que ele. Pensou se Belle realmente sabia o quanto era amada. Tola menina. Tão tola quanto ele. Ouviu “colorblind” e escreveu esse texto em sua cabeça para se livrar logo da pieguice. Tão tolo. Ela seria Belle e ele seria Sebastian. Em preto e branco.
J, M.
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