Maria pra mim parecia princesa. Maria era nome de rainha. Ilusão a minha, é claro. Maria sempre gostou mesmo é de se fazer de plebéia. Ou era o que eu via. Não a via muito bem, eu confesso. Mas não era porque não queria. Maria, na minha vida, foi uma confusão de partidas.
Tinha os cabelos assim; volumosos e ondulados. E negros. Davam certa volúpia, quando soltos. Tinha aquela voz doce... aquele andar de mulher e aquele olhar de menina. E mais idade que eu ela não tinha. Mas sempre foi mais velha que eu, a Maria. Teve vez, e eu conto mesmo, que fui até ela e beijei. Cheguei assim e pedi um beijo. Ela riu. Eu ri também. Idéia besta essa minha. Mas queria saber como seria. Negar-me ela não ia... ou negaria? Pois não negou.
Nunca a vi chorar, mas sabia que sofria. Não o sofrer dos infelizes. Era aquele sofrimento bonito de se ver, esse sofrer de Maria vivida. Naquele sorriso de olhos meio fechados. Uma beleza de tango. Era vermelha, a Maria. Mas era só rosa que eu via. Claro que sofria. D’outra forma não se teria assentado do meu lado e, cantarolando, não me conquistaria.
Tinha uma liberdade tão vadia. A meninice da boemia. Com seus casos e coisas, carregava aquela risada alta e fina, fossem quais fossem os fardos que trazia. Ah! E era de uma petulância, aquela menina. Preferia ser chata a não ser ouvida. Contudo, vez por outra, punha-me bem no meu lugar. Vez, deixou-me consolar-lhe. Por outra, disse-me, de forma muito bem dita: “A dor dos outros não se tenta entender, que é falta de educação”.
De raiva que fiquei, roubei-lhe um poema! Nunca o devolvi...
Bem verdade que, desd’aí, nunca mais proferi que tudo havia de ficar bem. Agora, à guisa de consolo, choro junto. Porque dor que é dor não se conjectura.
Maria, cujo poema roubado eu ainda guardo e não leio. Maria que eu não conheci. Fico a pensar em quantos homens, no transladar do mundo, não tiveram como inspiração uma Maria. E foi Rubem Braga quem disse algo por assim: “Ah! Aos dezessete anos eu não sabia; a mulher que marca a nossa vida é sempre uma Maria”? Ou isso é meu delírio lírico?
J, M.
Keine Kommentare:
Kommentar veröffentlichen