Era rubro seu pudor, pele clara quase como o branco, palidez inescrupulosa, interesses artísticos variados, um homem sem prioridades nem direção.
Todo dia, o dia todo ele olhava os transeuntes pela janela de seu apartamento, situado no 6° andar do edifício Lunar, porta devidamente lacrada, vidros fechados e o maior cuidado para não entrar nem um espelho ou qualquer objeto que ele pudesse ser refletido, era o medo da rejeição.
Ele via as pessoas conversarem sem escuta-las, era prisioneiro das paredes, via as pessoas se tocarem e seu pudor aumentava, tinha um remorso invencível, ele já havia se tocado...
Manhã cinza e ele vê aquela moça passar, a moça por quem ele suspirava, aquela que andava sem tocar o chão, a menina dos gestos límpidos, andava sem rumo, andava por andar. Depois de um tempo sentava como sempre, sempre no mesmo lugar apenas para observar. Ele se identificava com ela, apesar dela ter a coragem que ele nunca pode nem imaginar, ele tinha inveja, pois ela sentia o mundo via tudo mais de perto com a janela do mundo na sua cara, ele sempre lá protegido em seu casulo, intocável, perplexidade humana que ele fazia questão de evitar - mas ele era.
Ela lá, com seus cabelos ao vento; ele vendo o vento soprar. O sentido de observar para um era aprender para o outro. Ele tentou lembrar das outras vezes que ela estava sentada no mesmo lugar, mas não conseguia. Sua memória estava presa como tudo nele.
No dia 6, manhã de outono, folhas e flores ao vento, lá estava ela a passear. Ela passando diante do seu prédio, ele queria tanto sair de si, mergulhar no mundo, compartilhar o que aprendeu nos livros e discos, mas era tudo muito profundo. E ele já estava sem fôlego.
Ela lá, logo ali, 6 andares separando-os, distraída observando como quem se autoanalisa com comparações fixas e inexatas. Sentiu seu corpo gelar, nunca esteve tão perto! Era só descer as escadas, mas ele tinha receio, já pensou se quando descer ela já tiver saído? Notou que o caminho era bem mais longo do que aqueles 6 andares. Precisava estar lá o mais rápido possível, já era hora de viver...
Ele abriu a janela, sentiu a brisa de outono, cabelos ao vento, escutou o mundo e com a maior coragem que qualquer ser pode ter, a coragem dos suicídas, pulou. Caiu. Sentiu tudo que não havia sequer ousado pensar.
J, M.
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