Donnerstag, 15. April 2010

Reciclagem

Ouvia-o com paciência milenar, herdada de seus antepassados que naquele momento faziam-se presentes em seu corpo voluptuosamente incisivo, mirava-o com olhar invejável - ele ainda tinha uma vida pela frente. Analisava-o com indiferença adquirida pelos anos a mais de dor, ela já era mulher feita, sem feição. Uma doce ilusão que agora fazia iludir.
Ele com hemorragia verbal, contava-lhe tudo que para os outros era inaudível, tudo ali a beira-mar. Nos momentos de pausa dramática havia água para apaziguar/engrandecer o momento, a visão era infinita, transparente, translúcida, reverberante e ausente.
Lucidez já não havia. Era simplismente companhia. Tudo resumia-se ao som das ondas, instigava-os as ondas, elas não deixavam a típica marca de espuma branca que deixa os olhos repousarem, sem rastros, afinal rastros são pistas, rastros revelam um momento passado e aquilo era apenas presente.
Ela, vestindo sua camiseta branca, silenciava toda aflição; ele, com uma listrada, criava a turbulência juvenil que alimentava o momento. Ação e reação baseavam-se apenas em olhares que não viam nada e observavam tudo.
Sem crenças, sem remorsos, sem esperanças. Para o mundo eram nada o que pra eles era tudo. A calmaria já incomodava, ele mexeu-se. Sutilmente ela o observava, ele pegou uma pedra, atirou-a no mar. A pedra quicou. O som absurdo, totalmente imprevisto deixou-a chocada, pasma. Ela e sua camiseta, antes branca, agora gritavam. O vermelho consumia seu ser com olhos de fogo e cinzas no coração. Então procurou o mar, banhou-se, com os pés congelados, caminhava. O azul surgia aos poucos com sua serenidade profética. E ia cada vez mais fundo, uma bela e gigantesca onda esverdeada formava-se a medida que ela caminhava ao seu encontro. A onda quebrou.
Ele, atônito, observou a onda chegar aos seus pés e dessa vez havia espuma. Serena e branca.


J, M.

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