Montag, 9. August 2010

The telling (2)

De novo eu vou falar de como é difícil.



Todo mundo tem o direito de não gostar de alguém, de se sentir desconfortável e de evitar. Isso pode ser feito de várias maneiras e, algumas, podem beirar ou simplesmente ser a hipocrisia. Quando se tenta fazer isso da maneira mais direta possível alguém te chama de "escrotinha de merda".

É difícil fazer quem você não aprecia compreender isso. Ninguém gosta de ser rejeitado e as reações dificilmente são pacíficas. Todo mundo deixa um rastro de dor, de incômodo, de malícia por onde passa... só porque tem alguém que não lhe afaga. Essa facada no ego se transforma em coisas como comentários maldosos, desprezo ou em "escrotinha de merda".

O difícil não é demonstrar que não gosta, mas lidar com o que vem depois. A indiferença aparece como uma solução pra ambos os lados, porém não é praticada. É difícil praticá-la com a mente sossegada.

Pode ser pesado não gostar, demonstrar e ter que ouvir um "escrotinha de merda". Por quê é tão difícil entender e aceitar que alguém não te quer por perto? POR QUÊ?!

Por que quem está de fora não consegue discernir o que é cada coisa? Uma das coisas mais difíceis de não gostar e querer deixar bem claro, é ter que ser tomado como o algoz, o errado e merecer esse mesmo julgamento automático de quem se diz seu amigo.

Eu entendo que seja fácil xingar e ficar offline. Mas procure praticar a compreensão e o bom senso. Exercite o seu ego pra que ele entenda quão possível é que alguém simplesmente não te queira por perto, porque ele não aprecia suas atitudes e não concorda com sua postura.

Pois assim, eu repito:

"E daí que ninguém é obrigado a aturar babaquice alheia. Isso serve pra nós".

Repito a necessidade de me fazer respeitar. Está mais do que na hora.


J, M.

The telling

É difícil não ter alguém pra contar.



As pessoas não gostam do que eu sou de verdade. Elas preferem quando eu finjo. E fingir o tempo todo só pra ter amigos é difícil.


É cruel não ter com quem compartilhar verdadeiramente as coisas de que se gosta, porque não é bom falar pra alguém que não se importa. Não é bom fingir que se importa.


Parece que à medida que menos me reconhecem e valorizam, mais eu procuro novidades pra me embriagar. E mais me isolo porque quanto mais novo é aquilo que faz parte da minha vida, mais difícil é compartilhar e fazer o outro entender. Só entender, não é aceitar.


Dá pra contar quantas pessoas me fizeram suspirar de alívio: "Ele me entende, ele me enxerga". São pessoas muito parecidas comigo, muito mesmo e, consequentemente, com quem eu menos convivo. Justo pela igualdade. São as que têm os abraços mais confortantes e onde eu afundo na paz de ser eu mesma. E onde encontro o inferno do meu reflexo.


Eu estou falando de amizade sim.



Não sei quem inventou que a graça das coisas está na diferença, porque é claro que muitas vezes isso não funciona naturalmente. Alguém precisa fazer funcionar. Isto pode ter diversos sentidos: ceder, tolerar, submeter, desaparecer. Tem gente que desaparece sim... na risada dos outros, no abraço alheio que não alcança nada, em horas e horas de conversas que na verdade são barganhas.


Tem gente que bate o pé me chamando de arrogante. Eu desconsidero e isso só faz inflamar a situação, pois quem diz isso tem arrogância o suficiente pra dizer diretamente a mim. É perda de tempo levar isso à sério. Quem me chama assim quer medir sua diferença e... não existe. Eu sou arrogante, mas é mais plausível ouvir quem me diz isso de forma esclarecida, do que de um cego teimoso, pois eleva o debate a um nível justo.


Não deveria dizer essas coisas aqui, mas é difícil não ter pra quem contar e eu preciso.


Preciso dizer que não gosto de ser humana, não gosto de precisar ser reconhecida e valorizada. Não gosto de tentar ser verdadeira e ser às vezes ser execrada por isso. Assumir que não sei me vestir, que não sei me portar, que não sei ser pontual, que não sei tolerar, que não sei me adequar, que não sou muito do que gostaria.


Uma vez disseram a meu respeito:



"São poucas as pessoas que aceitam os seus erros, e sabem que são erros, e se sentem mal com isso. Todos tem defeitos, mas raramente os demonstram sem medo. Pode parecer um insulto, mas na verdade é uma demonstração de caráter, retidão, e fidelidade acima de tudo a pessoa mais importante que teremos na nossa vida. Ela mesma".


O que disseram é verdade. Já faz um tempo que de alguma forma aprendi a lidar com os erros e defeitos, pois em dado momento obscuro da vida percebi que não dava pra fugir pra sempre.


O fato de não tentar iludir não significa que está tudo bem. Não quer dizer que eu não chore mais e nem me importe.


Preciso não deixar mais ninguém me subestimar, me julgar a pessoa errada pra outro alguém, me considerar dispensável, me considerar burra por não me interessar pelo mesmo que os outros.



Talvez eu precise me adequar. Talvez precisem aprender a me respeitar.


É importante ter alguém pra dividir isso. É preciso dividir isso comigo.


 
 
J, M.

Montag, 26. Juli 2010

Matérias também brilham


Só acredita no ontem, antepassado do dia que passa e repassa por milhares de pessoas. Pessoas? Não, não são pessoas. São apenas matérias vivas, partes da construção civil que implica no desenvolvimento de uma sociedade burra e eclética, julgando os que enxergam os diamantes dentre as pedras duras como loucos. Filmadora na mão, parte.
Partiu o pão – filmando - jogando as migalhas para as palomas esvoaçantes que eriçavam seus cabelos com o refloar de seus punhais. Sim, punhais; pois asas nada mais são do que meios para um sacrifício rumo ao céu. É o inverso de pé. Pedrada ofegante que cai incessante das estrelas que se derretem vermelhas e sedentas por reprodução; mesmo sendo estéreis, pois elas são a impossibilidade cretina do brilho que não perdurará eternamente. Elas o sabem, mas os que as vêem irão para sempre contemplá-las, sempre estarão lá com seu poder que cega os que nunca antes ousaram ver;  de dentro delas sai um limo verde que contamina os pés apunhalados. É liso, viscoso e não deixando assim os pés caminharem.
Atrito volátil que se transforma em dor, todas as coisas que se transformam. Eterno é somente o brilho das estrelas que como elefantes esmagam a terra, pois são partes dela. São grandes, fortes, inúteis e belos. Como até a beleza nauseia; vomita diamantes que brilham mais do que estrelas, eles viviam dentro de você desde que eu senti que não havia mais espaço para mim. Você era o espaço. Lançadas as luzes catarrentas ao chão, elas começam sua peregrinação contaminando cada ser vivo, incubando moléstias em cada resquício de sentimento. São punhais de vento, cuja dor eu sinto ao sentir sua falta.


 P.s.: Feliz aniversário, Mark. Sinto falta do seu papel de irmão mais velho.





J, M.

Montag, 3. Mai 2010

Baila

Se a dança não lhe era convidativa, ele encomendava uma ativa, bailava esperando uma notícia surpreendente. Talvez o cair de um dente ou quem sabe um nascer de gente, mas nunca se sabe. Diziam ali ter existido dentes-de-sabre o que podia ser verdade, mas onde estariam os matutes neste exato momento? Bailando com uma serpente rumo ao Éden? É de se assustar como sua imaginação fluía, tinha refluxo, hemorragia, taquicardia, vazamento da vesícula biliar. Adorava jogar bilhar às quartas; as quintas ia para feira, logo depois vinha o sábado e a semana estava a recomeçar. Cassar lhe era um esporte benquisto, brincar de Deus, matar um Cristo! Errava o passo uma ou outra vez, mas logo se recompunha dançarino exímio.
Examinava pacientes de todos os lugares do mundo. Mundano era seu centro familiar. Familiarizara-se com o ato de chegar em casa e fazer um escalda-pés, escandalizado sentava no sofá, ao lado o livro de física quântica e de quanta coisa tinha a ensinar. Assassinou-se no banheiro da casa vizinha, após provar do jantar e saborear a menininha. A vida era chata, os calos nos pés doíam muito, embriagara-se de novo e estava sendo levado da mesa do bar; apenas intrigava-se, pois ao que lembrava a vida havia ficado no banheiro, morta. E onde o estariam levando? Nem importava mais, o whisky importado era demais, demais demasiado desmaiou, inconsciente, levado ao hospital de maneira urgente. Havia falecido dormindo.




J, M.

Montag, 19. April 2010

A espera

O vento traz o sabor do seu fel, o feeling é inacreditável, acredito apenas no que é notável. Ela está próxima.
A proximidade é inaceitável, sinto-a do meu lado sendo que perto de mim não há nada que não seja meu, logo ela está por vir... penso que isso possa estar sendo causado pelo meu desjejum, pois hoje durante a manhã quando acordei, sem vontade de acordar, tomei um café preto e inescrupuloso, temperado com açucar; o que diminuia minha ansiedade e aumentava a percepção da realidade.
Já podia ouvir o som inaudível do seu caminhar lento e penoso, mas com a alegria de quem dá seus primeiros passos, passos passados que remontam o meu futuro próximo. O medo e o inesperado já me consumiam, eu era consumação. O cigarro já aceso, começo logo a pigarrear. A sorte me era contraditória já que afinal eu a esperava por anos sem cessar e agora quando quero apenas viver em paz ela vem ao meu encontro dar-me a sua paz.
Olho procurando dentre a fumaça que me neblina um referencial para me apoiar. Aquela espera já me conduzia a dores nunca antes sentidas, mas o que me consolava é que o para sempre sempre acaba.
Finalmente, sinto seu toque, frio, sedento por meu prazer. Eu sabia que o meu destino era morrer no seu destino; ela me atiçava prometendo-me vida eterna ao seu lado, fazendo-me desejá-la ainda mais, criando em mim a expectativa de enxergá-la. Começo a procurar dentre a turbulência sentimental e suas ações atrevidas, cansado dessa espera eu me fiz ação.
Levantei-me. Logo depois caí, e finalmente pude vê-la! Negra como o meu café, porém amarga, gozamos diversas vezes naquele clima de realidade inexistente. Eu não era mais meu, ela nunca havia sido minha, mas agora eramos apenas um. Eu e ela. Nós. Morte pura e simples.



J, M.

Donnerstag, 15. April 2010

Dia 14

Ontem, foi quente. Muito quente. Aí, tive que sair. Sair do ambiente mais tranquilo em que eu podia me encontrar naquele exato momemto. Isso dói. Pelo calor, pelo esforço, pela chatice, pelos gritos de "demônios" não educados. Mas ainda assim saí, era uma ordem.
Levando a máquina na mão, não senti raiva nem nada - até fiquei felizinho de poder sair àquela hora. Cheguei, esperei dois ou três minutos, não lembro. Aí andei um pouco com a pessoa que me pediram para procurar e pronto, já estava na correri... mas nem foi tanta. Foi de sala em sala, mais gritaria, calor, abafado. Tirava quatro fotos, ouvia uns comentários infames e via poses de gente já ridícula ou com um potencial imenso para se tornar a mesma. Mais piadas infames, e da minha companhia. Aliás, não irei mais usar companhia, melhor usar GUIA. Era isso que aquela bendita era (ou maldita).
Aí, eu voltei. Sentindo o suor, que até pensei que eram partes do meu corpo derretendo. Apesar do ar gelado do carro, ainda assim sentia o inferno em que me encontrava sem poder fugir. Suor, suor, suor. Uns sorrisos amarelos e simpáticos, porém sinceros. Era um senhor simpático, sem noção mas simpático. Chegando ao ponto de inicio conversei com gente que jamais havia falado, e mesmo nem sentia vontade. Eu não faço questão de muita coisa, como muita gente já sabe. Mas foi isso, eu sobrevivi, meu corpo e espírito ainda continuam intactos.
O que é triste? O calor, o inferno.


J, M.

Reciclagem

Ouvia-o com paciência milenar, herdada de seus antepassados que naquele momento faziam-se presentes em seu corpo voluptuosamente incisivo, mirava-o com olhar invejável - ele ainda tinha uma vida pela frente. Analisava-o com indiferença adquirida pelos anos a mais de dor, ela já era mulher feita, sem feição. Uma doce ilusão que agora fazia iludir.
Ele com hemorragia verbal, contava-lhe tudo que para os outros era inaudível, tudo ali a beira-mar. Nos momentos de pausa dramática havia água para apaziguar/engrandecer o momento, a visão era infinita, transparente, translúcida, reverberante e ausente.
Lucidez já não havia. Era simplismente companhia. Tudo resumia-se ao som das ondas, instigava-os as ondas, elas não deixavam a típica marca de espuma branca que deixa os olhos repousarem, sem rastros, afinal rastros são pistas, rastros revelam um momento passado e aquilo era apenas presente.
Ela, vestindo sua camiseta branca, silenciava toda aflição; ele, com uma listrada, criava a turbulência juvenil que alimentava o momento. Ação e reação baseavam-se apenas em olhares que não viam nada e observavam tudo.
Sem crenças, sem remorsos, sem esperanças. Para o mundo eram nada o que pra eles era tudo. A calmaria já incomodava, ele mexeu-se. Sutilmente ela o observava, ele pegou uma pedra, atirou-a no mar. A pedra quicou. O som absurdo, totalmente imprevisto deixou-a chocada, pasma. Ela e sua camiseta, antes branca, agora gritavam. O vermelho consumia seu ser com olhos de fogo e cinzas no coração. Então procurou o mar, banhou-se, com os pés congelados, caminhava. O azul surgia aos poucos com sua serenidade profética. E ia cada vez mais fundo, uma bela e gigantesca onda esverdeada formava-se a medida que ela caminhava ao seu encontro. A onda quebrou.
Ele, atônito, observou a onda chegar aos seus pés e dessa vez havia espuma. Serena e branca.


J, M.

Dienstag, 13. April 2010

O personagem fora de hora

Existem coisas nada a ver, eu sei. Uma delas é iniciar um texto com essa típica frase.
Acontece que o personagem está enfermo, com uma pressão estranha no nariz, no trabalho, com jornais e uma revista de fotografia, tentando superar. Superar o frio, as conversas, o tempo e a falta desagradável de tentar sentir o cheiro do que for. Isso, aliás, é até um ponto bastante "engraçado", ainda que esteja distante. Mas acontece que o cheiro é algo primordial na vida do personagem. É, sim. Ele valoriza o seu cheiro, o cheiro das plantas, dos alimentos (principalmente se preparado por ele) e o cheiro do sexo; parece selvagem, mas se tratando do contexto em si e de maior e menor escala, tem gente que diz que só é mais do mesmo.
O personagem, alheio a sua arrogância e prepotência, se difere de questões existenciais básicas. Ocorre agora uma indiferença - calma, ainda é o primeiro ato, sei lá, às vezes pula -, mas ele não disse qual é ou mesmo  o que pretende ser. Voltando ao decorrente SEXO, o personagem se sente coagido... é... preso, impotente (não nesse sentido aí da sua cabeça), frágil. Ele quer sexo, quer selvageria, quer transar. Mas ele não sente cheiro. O cheiro ele precisa sentir. É o conjunto. Sexocheiro + momento. Ele não pode somar, e ficou assim a mercê da espera pouco conveniente. Ele sente mais tesão ao sentir o cheiro do companheiro, o suor, os batimentos cardíacos, o desespero de querer mais, de não saciar. De mais a mais, o ponto crítico dessa vida lôbrega por obstrução da narina, talvez se deva ao profundo nojo que o personagem sente de gente doente, e também de estar doente e que pessoas o toquem.
No mais, em meio a jornais e notícias, o personagem também soube de assuntos quentes que desencadearam discussões constrangedores. Mas isso é uma abstração. Essa discussão não existe. Onde inteligência, arrogância e acidez forçadas fazem sentido e conseguem ao menos coexistir? Não sei, é abstração. É abstração e não existe, porque dizem as más línguas que isso aconteceu no quintal de uma tal capital federal, por meio de alguém que planta batatas e tem 1 kilo de terra na cabeça, provavelmente deve lamber sabão e estampa um possível mestrado em abobrinhas. É abstração porque se deu fora do campo imaginário de rodas de cachaça e música caipira. É abstração porque de centro-oeste, Got Sei Dank, Norte não tem nada.


J, M.

Montag, 12. April 2010

Devorata

O show era seu como sempre, o corpo sóllido e totalmente flexível delineado pela vida, obtido da natureza tudo com incrível sutileza. O brilho no rosto, a música no corpo, os lábios descontraídos, a vida em si era uma descontração. Sem hesitação o magrelo menino foi ao encontro da popstar; ele era apenas um garoto, um garoto tolo, um garoto sonhador, era um garoto.
Ela se encantou com sua simpatia, ele encantou-se com o corpo, afinal, era só um menino! A dança durou horas e horas, era um ciclo viciante de abraços e carinhos, preparação para o ósculo, o impactante toque labial que descreve caminhos infindáveis dentro do ser. Ser ósculo. Glândulas parótidas começam a lacrimejar o seu choro de alegria. Seria amor ou desejo? Essa questão atordoava a garotinha com seus 22 anos, que olhava para o menininho com prazer e dó. Era seu garotinho, era seu dever protegê-lo .
Ela pegou-o no colo no meio da pista, saiu em disparada. Ele pequeno, volátil, quase escapava. Ela com sua natureza maternal recuperava o controle sobre o pequeno ser, chegando na esquina da rua onde situava-se a casa dela, ele caiu. Bateu a cabeça, morreu. Simples assim como ósculo sem fim.
O desespero de perder a vida atingiu em cheio a moça. Que perdeu seu desejo, que matou seu amor. Só restava levá-lo para casa, mostrar-lhe sua cozinha, sua cama, sua vida miserável, tomando cuidado para não acender a luz.
Jogou-o na cama, tirou-lhe a roupa, ligou o som, acendeu o abajour. Tocou-lhe os lábios, subiu na cama, pariu sua gestação infecunda, seu filho o asco devorei o menino de uma só vez. Ela começou a dançar e observar seu filho, um lindo menininho.

P.s.: Inventei agora. Não consegui conectar os fatos que eu queria contar, mas obtive um resultado mesmo que apenas eu o entenda


J, M.

Samstag, 10. April 2010

O homem que observava

Era rubro seu pudor, pele clara quase como o branco, palidez inescrupulosa, interesses artísticos variados, um homem sem prioridades nem direção.
Todo dia, o dia todo ele olhava os transeuntes pela janela de seu apartamento, situado no 6° andar do edifício Lunar, porta devidamente lacrada, vidros fechados e o maior cuidado para não entrar nem um espelho ou qualquer objeto que ele pudesse ser refletido, era o medo da rejeição.
Ele via as pessoas conversarem sem escuta-las, era prisioneiro das paredes, via as pessoas se tocarem e seu pudor aumentava, tinha um remorso invencível, ele já havia se tocado...
Manhã cinza e ele vê aquela moça passar, a moça por quem ele suspirava, aquela que andava sem tocar o chão, a menina dos gestos límpidos, andava sem rumo, andava por andar. Depois de um tempo sentava como sempre, sempre no mesmo lugar apenas para observar. Ele se identificava com ela, apesar dela ter a coragem que ele nunca pode nem imaginar, ele tinha inveja, pois ela sentia o mundo via tudo mais de perto com a janela do mundo na sua cara, ele sempre lá protegido em seu casulo, intocável, perplexidade humana que ele fazia questão de evitar - mas ele era.
Ela lá, com seus cabelos ao vento; ele vendo o vento soprar. O sentido de observar para um era aprender para o outro. Ele tentou lembrar das outras vezes que ela estava sentada no mesmo lugar, mas não conseguia. Sua memória estava presa como tudo nele.
No dia 6, manhã de outono, folhas e flores ao vento, lá estava ela a passear. Ela passando diante do seu prédio, ele queria tanto sair de si, mergulhar no mundo, compartilhar o que aprendeu nos livros e discos, mas era tudo muito profundo. E ele já estava sem fôlego.
Ela lá, logo ali, 6 andares separando-os, distraída observando como quem se autoanalisa com comparações fixas e inexatas. Sentiu seu corpo gelar, nunca esteve tão perto! Era só descer as escadas, mas ele tinha receio, já pensou se quando descer ela já tiver saído? Notou que o caminho era bem mais longo do que aqueles 6 andares. Precisava estar lá o mais rápido possível, já era hora de viver...
Ele abriu a janela, sentiu a brisa de outono, cabelos ao vento, escutou o mundo e com a maior coragem que qualquer ser pode ter, a coragem dos suicídas, pulou. Caiu. Sentiu tudo que não havia sequer ousado pensar.



J, M.

Donnerstag, 8. April 2010

Bonita Maria

Maria pra mim parecia princesa. Maria era nome de rainha. Ilusão a minha, é claro. Maria sempre gostou mesmo é de se fazer de plebéia. Ou era o que eu via. Não a via muito bem, eu confesso. Mas não era porque não queria. Maria, na minha vida, foi uma confusão de partidas.
Tinha os cabelos assim; volumosos e ondulados. E negros. Davam certa volúpia, quando soltos. Tinha aquela voz doce... aquele andar de mulher e aquele olhar de menina. E mais idade que eu ela não tinha. Mas sempre foi mais velha que eu, a Maria. Teve vez, e eu conto mesmo, que fui até ela e beijei. Cheguei assim e pedi um beijo. Ela riu. Eu ri também. Idéia besta essa minha. Mas queria saber como seria. Negar-me ela não ia... ou negaria? Pois não negou.
Nunca a vi chorar, mas sabia que sofria. Não o sofrer dos infelizes. Era aquele sofrimento bonito de se ver, esse sofrer de Maria vivida. Naquele sorriso de olhos meio fechados. Uma beleza de tango. Era vermelha, a Maria. Mas era só rosa que eu via. Claro que sofria. D’outra forma não se teria assentado do meu lado e, cantarolando, não me conquistaria.
Tinha uma liberdade tão vadia. A meninice da boemia. Com seus casos e coisas, carregava aquela risada alta e fina, fossem quais fossem os fardos que trazia. Ah! E era de uma petulância, aquela menina. Preferia ser chata a não ser ouvida. Contudo, vez por outra, punha-me bem no meu lugar. Vez, deixou-me consolar-lhe. Por outra, disse-me, de forma muito bem dita: “A dor dos outros não se tenta entender, que é falta de educação”.
De raiva que fiquei, roubei-lhe um poema! Nunca o devolvi...
Bem verdade que, desd’aí, nunca mais proferi que tudo havia de ficar bem. Agora, à guisa de consolo, choro junto. Porque dor que é dor não se conjectura.
Maria, cujo poema roubado eu ainda guardo e não leio. Maria que eu não conheci. Fico a pensar em quantos homens, no transladar do mundo, não tiveram como inspiração uma Maria. E foi Rubem Braga quem disse algo por assim: “Ah! Aos dezessete anos eu não sabia; a mulher que marca a nossa vida é sempre uma Maria”? Ou isso é meu delírio lírico?



J, M.

Sonntag, 4. April 2010

Carta de despedida

Sempre soubemos que acabaria assim. Somos muito diferentes. Eu e você. Mas, de alguma forma, demos certo. Eu sei que você me fez tão feliz quanto podia. A culpa é minha. Assumo. Sempre fui um ingênuo ambicioso. E isso fez de mim um cínico. Qualquer coisa menor que minha idealização simplesmente não servia. O que não quer dizer que eu não tenha sido feliz.
Sempre fomos companheiros. Já tivemos nossas crises e as resolvemos. E eu, ao contrário de muitos, sempre te aceitei com todos os seus defeitos. Sua mente pequena, seu jeito meio disfuncional. Mas não é uma crise dessa vez. É o fim. De repente, me vi escrevendo esta carta mentalmente. Pensando em todas as frustrações, no tédio, no desânimo e na falta de tesão que sinto, percebi que estamos juntos há tempo demais e que as vezes só o amor não é suficiente. Numa noite solitária, vi, fiquei velho demais, frígido demais para você. Não quero nenhum amor tranqüilo. Nasci pro mundo. E quero a paixão do cinema. Em preto e branco, quem sabe.
Não desconfie de mim por essa tristeza que sinto. É saudade de mim. De saber que nunca mais te verei com os olhos que tenho hoje. Sim. Eu sei que esse rosto há de ser quebrado. Que esse olhar vai perder parte do brilho. E é por isso que preciso partir. Há em mim essa ânsia por crescer. E você quer ser você para sempre. Não vou me delongar. Não vou te ofender. Não mais. Apesar de tudo, nós nos divertimos muito. No entanto, “diversão é diversão e o que está feito está feito”.
Preciso que você saiba que eu te amei. Amei, como disse, “Um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida”. E vou-me embora sem arrependimentos. Agora é a hora da sorte. Mas não vou perder as lembranças. Você é como a primeira namorada, é mais que uma memória, é quase uma entidade. E ainda vai me influenciar por muito tempo. Mas devo ir. Em busca de grandes amores, que você não pode me dar. Adeus agora, minha pequena...

P.s.: É, eu podia ter rimado. Mas que se foda...



J, M.

Donnerstag, 1. April 2010

Srednem za denʹ

Abre parênteses (Somos todos meio desajeitados, meio duros demais ao lidar com a dor do choque com a realidade. Não temos prática para o que achamos que deve ser visto como comum. Mas todos queremos mostrar ter prática. Denota força. Não cai bem ficar indignado, assustado, dolorido. Parece fraco. Ninguém nunca quis ser fraco. Mas ninguém nunca teve muita certeza do que é ser fraco ou forte, tampouco.
E nossos sorrisos são meio forçados, a voz soa mais aguda, como se fingíssemos falar do comercial da TV. Os olhos ficam mais secos do que deveriam, ardem até. As mãos tentam ficar paradas, rente ao corpo, porque não há quem queira parecer nervoso) fecha parênteses.
Essa foi uma manhã normal de um dia normal. Nunca consigo dormir no horário que devo, por isso raramente acordo quando deveria acordar. Ouvi todas as censuras que deveria ouvir por não estar pronto no horário que deveria estar. Voltei para casa sem ter ido à escola, porque os portões fecharam-se no horário em que deveriam se fechar. Dormi.
Levantei-me atrasado novamente, mas havia tempo dessa vez. Fui à escola. Saí antes do que deveria por um problema técnico que não poderia ser previsto. Soube o que soube, portanto, sem que fizessem parecer um imprevisto.


J, M.

Dienstag, 30. März 2010

Breve ócio paranóico de Petr (Parte 2)

Me chamam Petr. Só uso ênclise quando tenho vontade. Sou um adolescente. É um fato. Talvez seja até uma doença, porque já ouvi falar de médicos especializados em “tratar” dessa fase da vida, e não eram meros psicólogos. É provável que não será a fase mais difícil, afinal, complicação não é, sempre, sinônimo de dificuldade. E talvez esteja mais para realidade do que para fato. Eu sou um adolescente. É inegável. Mas não me define.
Penso, invariavelmente, em definições. Sem muita filosofia, por hoje, e com algum clichê (que está sempre disposto a nos salvar das questões profundas demais), defino-me pelas escolhas. Não. Defino esse blog por uma escolha. Eu, que sempre me sinto culpado por não terminar o que comecei, mesmo quando não tenho a menor idéia do que foi começado, fiz a escolha de voltar para minha cidade natal. Em busca de que? - me perguntaram – De diversão? De estudo? De natureza e calma? De amor? – De nada. – É a reposta mais viável. Vim em busca de nada e não posso pensar em lugar mais propício para o nada ser encontrado.
Caí de bunda nessa Cidade depois de ter saído correndo dela há mais de dois anos atrás. Cai por escolha própria. Talvez por que não tivera escolha ao ir embora. E, depois de quase um ano, ainda não consigo achar um motivo para ter caído. Não que me arrependa. Nem de longe. Essa Cidade pode ser nociva para as ambições dos mais sonhadores, pode ser pequena a ponto de nos fazer acreditar que é possível cruza-la andando e quente o suficiente para nos fazer desistir da idéia. Eu falo mal dela todos os dias. Eu a adoro.
Adoro as pessoas que vivem aqui. De um jeito bem “Invasão de privacidade”. O lugar é um reino cheio dos personagens mais pitorescos que se pode imaginar. Desde a garota imaculada que é, na verdade, uma devassa, o neurótico que não sabe lidar com situações perfeitas e distribui conselhos amorosos, as “posers girls” que todos parecem conhecer ou já ter ouvido falar, o romântico incurável que trai por compulsão até a pretensa sexual libertária que, na verdade, tem muitos princípios sobre com quem dormir.
Essa Cidade é uma fonte de histórias. E, para mim, tudo é perdoável quando dá uma boa história. Mas não vou fingir que a cidade em si é realmente interessante. Os estonteantes personagens que se criam aqui não costumam ficar por muito tempo. E, quando ficam, viram notícia velha. Mesmo uma cidade pequena pode ser cruel. Provincianamente cruel. E da mesma forma que pode ser nociva para os ambiciosos, também pode avariar o senso de realidade das pessoas, inundando-as em um mundinho de personalidades caricaturais.
Fato é, portanto, que viver nessa Cidade pode ser de uma frustração absurda, intercalada por momentos de inigualável divertimento. E foi pela frustração que criei os meus espaços. Para me exaurir dela. Inspirado pelas musicas sertanejas, decidi que, se eu sofro de decepção, não vou a um bar curar minhas mágoas sozinho. Não. Farei com que todos cuja atenção eu possa atrair deveram sofrer comigo. Verdade o que disse o poeta. A dor é solitária e isolante. Mas o saber de que a dor existe deve ser compartilhado com todos.
Apresentação feita. Objetivo lançado. Que venha agora a angústia de um jovem, e cínico. Angústia essa que só a Cidade, a escola e a nova geração podem trazer. Sintam-se perdidos.





J, M.

Sonntag, 28. März 2010

Breve ócio paranóico de Petr

É um conceito estranho esse pelo qual se põe ordem numa escola. É a idéia de que, se você puser alunos em uma sala e impedi-los de fazer qualquer coisa que os agrade, eles prestaram atenção à aula e aprenderão, só para matar o tempo. Raymond Chandler diz que esse princípio funciona para escrever. Acho que concordo com ele. Para escrever, geralmente basta não me concentrar em coisa alguma, esperar o pensamento fluir e estar armado de bloquinho e lápis. Sim. Funciona para a escrita. E morre aí.
Escrever é prazeroso. A escola não é prazerosa. Devia ser. Mas não é. Já escrevi sobre isso. Torno a escrever, porque, como diria Nelson Rodrigues: “sou uma flor de obsessão”.
Existem dezenas, não, centenas de formas de não estudar. A idéia de estudar, na verdade, torna tudo mais atrativo, desde o formato do tênis até a quantidade de lajotas da sala. 395, aliás. Acho que é por isso que escrevo mais em sala de aula que em qualquer outro lugar. São poucos os lugares em que fico tão desconcentrado.
Certa vez, pensei em mandar uma carta ao ministério da educação. Contando até onde somos capazes de ir para fingir que o professor de física não existe. Mas então a paranóia me ocupou a cabeça. E se for melhor assim? E se, talvez, a única forma de proteger nossas mentes seja anular qualquer interesse que se possa ter em estudar? Afinal, francamente, mais absurdos que os princípios de aprendizagem aplicados pelo sistema, só os programas que o constituem. Alienação em massa. Pura lavagem cerebral. E como Rubem Alves já disse que a única forma de aprender alguma coisa depois de sair da escola é esquecendo tudo o que a mesma ensinou, melhor é nem deixar a coisa toda se entranhar em nossos cérebros (principalmente porque minha memória nunca pareceu estar a meu favor).
Estando a salvo das forças malévolas da educação, quase tenho pena da menina sentada, tão esforçada e compenetrada, lá na frente. Tão suscetível à falta de encanto e realidade das aulas. A mesma que acaba de me lançar um olhar de desprezo, possivelmente visualizando minha nota no infame vestibular. É como eu disse. Quase.


J, M.

Donnerstag, 25. März 2010

A idéia?

Artista para mim é uma antena do ambiente onde vive. Ele faz parte do sistema nervoso de uma sociedade; é essencial para ocuparmos outras posições, ver a nós mesmos, ver o outro. Arte tem a ver com empatia. E só existe onde existir cultura. Aqui, cultura não é simplesmente o teatro e o cinema, os livros lidos e as obras discutidas; cultura é, como sempre deveria ser, identidade. E o que a defina: seja hábito, seja expressão. Faz parte da cultura toda solução que achamos para nossos problemas universais, dos relacionamentos íntimos aos públicos. Sobre o crescimento e sobre a morte. São essas respostas, dadas diariamente, que dizem quem somos. A idéia é comunicar algumas delas.


J, M.

Sonntag, 21. März 2010

Periferia

Pelas bordas é onde tudo inicia. O conteúdo tranforma-se ao decorrer do período. No momento, não é nada. O "é" vem sempre depois, quando não sabemos o que "é". No suburbio adentrando cada vez mais na peculiaridade da coisa. Nas formas desgrenhadas o diverso constitui um universo. De presenças inatingiveis neste plano, prescrutadoras do olhar. Perdidas num fazer. Adentrando um pouco mais o meio inacabado, o algo que é sempre, mas nunca mais será. O entender do meio é parte do meio. Alcançar o pleno dentro do meio é chegar no eterno. Ultrapassando os limites da expectativa, as cores fazem bem o seu trabalho. Não existe um grande enigma, nós somos o grande enigma. Encontrar o que sempre foge. Numa visão isso acaba e depois vem outro recomeço. Ao menos há uma finalização parcial para que assim possamos suportar o plano do infinito. Esquecer da arte, é não lembrar de si. E afogar-se nela é nunca ter encontrado o si. Si-nestesia arrebatadora do confronto coisa x eu.


J, M. 

Samstag, 20. März 2010

Vida alheia

Eu habitava no Rio dentro de mim, o Janeiro. Estudava lá, como em todos os outros cantos da minha passagem. Estudar, é perceber. Sempre icerta da escolha, eu vivia.

Não tenho uma religião, mas a cruz me persegue. Não é um martírio carrega-la, apenas uma decepção baseada na igualdade. Todos a carregam. A diferença está na quantidade de espinhos na cabeça.
No caminho de sempre para a faculdade, um mendigo. Aquele mesmo despercebido do nunca. Sem ser notado, residia no mesmo que eu. E crescia na sua música dos trocados .

Nesse dia que "se quebrava como as ondas na rocha do arpoador", eu necessitava. O mendigo tocava sua gasta flauta sem habilidade alguma, acreditando ser música aquele estranho resultado. Nunca fui mestra em definir se aquilo era ou não, mas o que é música além do ouvido?

Coloquei-me defronte dele ainda com a cabeça no alto, sabendo ter de me ajustar para conquistar. Comecei a dançar no ritmo dele, sem notar que eu não possuía meu próprio ritmo.

Saí dalí sem palavras, movida pelo desespero do porquê. Tranquei a universidade. Talvez para evitar o mendigo, ou apenas pelo talvez da insatisfação. Um destino incentivado pela música de um desconhecido que ainda rufla nos meus pensamentos e pode ser escutada lá no esconderijo da percepção. Hoje, prossigo com uma interrogação sem nome ou moradia e frequentemente lembro do flutuar da flauta na estagnação do rompimento em vida.
 
Falando da vida alheia que eu nem conheço, mas deve existir. Falta do que dizer se resume em contar.
 
 
J, M. 

Freitag, 19. März 2010

Janela

Oh! Janela.
Janela da vida; janela do mundo
porta do saber.

Oh, janela; tú sozinha
aí perdida no espaço da parede
me faz pensar,
pensar em fugir.

Tu que suga e refrata a luz
me deixa sem brilho.
É culpa da vidraça que destorce o real
que me faz passar mal,
com mais vontade de fugir.

Oh, janela que me faz pensar, tu que é a porta do escrever,
me abençoe com seu esplendor luminoso
com sua vida de não viver.
Adeus,
vou fugir enquanto tú janela ficarás presa,
como janela do saber.


J, M.

Mittwoch, 17. März 2010

O verde

E Eu e Eu
Eu tenho o verde, eu tenho os pássaros, enfim tenho o mundo em minhas mãos.
Toco e sinto sendo contraditório e alheio, vendo as pedras que choram sozinhas paradas ao luar.
Eu entendo a mentira como forma de sonhar, eu não juro, pois seria traição.
A cada desejo eu sinto uma nova forma de amor oncrustado nas pétalas da flores abismadas pelo ofuscante sol que derrete meus temores.
Não quero nada além do que tenho, a cada dia me encontro mais e das palavras sou vassalo eterno
O fim das flores é morrer, bem sei, mas enquanto existem são alimento de borboletas despedaçadas pelo terremoto de poluição do homem



A qualquer dia eu posso me desfazer como criança que pede doces e se derrama sobre o açucar diabético
as moscas carregadas pelos dejetos dos dias abastecem meu amanhecer
qualquer coisa pode tudo estragar
e Eu,
Eu posso tudo mudar



J, M.

Montag, 15. März 2010

Origem da simetria

Desfocado, quase cego. Negro perdido no branco. Olhos lacrimejantes e insensíveis, clarividência. Foco. Ponto. Explosão sentimental. Abrandamento doloroso, nascimento paralelo. Abcissas e ordenadas, origens simétricas ligadas a um referencial inexistente. Problemas psicológicos. Confusões numéricas. Vida sem eixos. Sinais trocados. Retas paralelas que se cruzam. Senos, cossenos dentre tangentes. Área sentimental imensurável. Coloração ofuscante. Danças eliquoidais rumo ao infinito. Ponto de partida pré-existente diferente de zero. (tendendo a zero). Pontos que retornam ao eixo X sem razão - instinto - inequação cega. ELE é o ser maior. O paralelo é igual a ELE. Simétrico e inexato, imagem difusa. Negro perdido no branco. olhos lacrimejantes e insensíveis. Clarividência. Morte prevista.



J, M.

Samstag, 13. März 2010

Belle & Sebastian

Hoje, ao entrar na mesma sala, Sebastian não se sentou no lugar de sempre, sentou na cadeira de Belle. A última cadeira da última fileira. Sebastian era Belle para que deixasse Belle ser ela mesma. Riu de si mesmo e se perguntou onde estava o canalha que jamais sofria agora. Não pôde evitar lembrar o único momento romântico que ele permitiu que tivessem. Na escada que rolava: os dois abraçados. O cabelo dela, o vestido sedoso dela, a pele tão branca. O cheiro só dela que ele poderia reconhecer em qualquer lugar.

Eles se distanciaram e ela riu dizendo que, no filme certo, estaria tocando “Colorblind”, e ele morreria no final. Como sempre morrem os canalhas. Ele a soltou devagar para dizer que os canalhas só morriam em filmes para adolescentes não se desiludirem tão cedo com a vida. Sebastian era assim. Era cruel para não ser o sofredor. E Belle sorriu. Porque amava Sebastian, mesmo com sua crueldade fingida.

O mundo estava em preto-e-branco, claro que estava. Porque Belle partiria tão já. E levaria consigo boa parte da vontade que Sebastian tinha em ficar. Ele queria o mundo e a partida dela servia para lhe lembrar disso. Ele amava Belle e nunca tinha lhe dito isso porque era verdade. E porque não precisava dizer. Mas agora queria ter dito.

Não diria nada. Queria que Belle fosse livre como ele gostaria de ser livre também. “Gostar é a melhor forma de ter. E ter é, provavelmente, a pior forma de gostar”. O romantismo o consolava. Belle já havia lhe dito que ele era a contradição viva. Sendo doce ao ser cruel. Correto ao ser canalha. E romântico, sem nunca chorar.

Ele sabia que não havia motivos para ser triste. Mas era triste. Se sentia só. Feliz e infeliz. Era bom ela ter partido primeiro. Era tão ruim que ela tivesse partido. Mais contraditório ainda era pensar que, de todas que ele já beijara, Belle era a única por quem, pela despedida, ele choraria. Se refugiou no romantismo. Viu o nascer do sol com o doce namorado dela, tão mais abandonado que ele, e a linda melhor amiga dela, tão mais solitária que ele. Pensou se Belle realmente sabia o quanto era amada. Tola menina. Tão tola quanto ele. Ouviu “colorblind” e escreveu esse texto em sua cabeça para se livrar logo da pieguice. Tão tolo. Ela seria Belle e ele seria Sebastian. Em preto e branco.






J, M.

Montag, 8. März 2010

O Márcio, o patético e o drama

Ele é a única realidade. O resto é apenas farsa. Farsas necessárias, farsas verdadeiras, farsas poderosas e covardes.

A coragem, tal qual o líder, é uma farsa. O realismo, acima de qualquer outra, é a farsa mais covarde que há. O patético é a única verdade que resiste e se mantém imutável. Tão verdadeiro que envergonha, a ponto de mudar de definição. O patético de hoje é o ridículo, puro e simplesmente ridículo. Sem maiores explicações é claro. Mas é ridículo, não dizem, porque enternece o coração, porque humaniza, faz sofrer. Ser visto sofrendo a dor alheia é vergonhoso, a mesma vergonha do ladrão que não tem onde carregar o roubo. Tem que morrer, porque comove. E morreu.

O mundo moderno matou o drama. Devíamos agradecê-lo, portanto. Tudo se torna muito mais simples agora. Não há mais motivos para que algo se torne trágico, pois descobrimos não ter tempo para a tragédia. De forma alguma. Temos pressa. Essa é provavelmente a única verdade universal na sociedade de indivíduos. O dinamismo é imprescindível para ser útil. E a vida é agora o reino do dinâmico, mesmo o sofrimento se encaixa na rotina. Sim, pois o dinamismo é versátil, condescendente. Reconhece a necessidade da dor. O novo cinema nos ensina. O dor vem da frustração, do erro, é sofrida, nos amadurece e vai embora. Há tempo para tudo, se tudo se encaixar na agenda. Se tudo tiver utilidade e sentido.

É inconcebível a dor sem sentido, a tragédia cotidiana. A vida que não segue. O exagero. O exagero me é natural. Mas não esqueço de Nelson Rodrigues nunca. Ele dizia “Sofra. Sofra e apenas sofra. Sofra sua dor e sofra sozinha”. Nelson Rodrigues me entenderia, ele concordaria que ver a dor de outrem é mortificante, assustador. E que o maior gesto de bravura é chorar e berrar e doer para todos.

Eu quase disse “Meu Nelson Rodrigues” agora, mas não disse. Eu o amo, mas não disse. Não disse porque acredito na falsa monogamia. E Nelson era da minha querida Isabelle antes de ser meu. Dizem, os tolos, que a monogamia anda desacreditada. Mentira. Tudo que se diz e faz contra a monogamia só serve de holofote e marketing para ela. Não tenho nada a dizer sobre a monogamia. Mas admiro incomensuravelmente a falsa monogamia. Não há mais nem sentido nem utilidade para a falsa monogamia. Como tudo que anda morrendo, mas persiste bravamente, tem meu respeito.

Jamais fui de fato um falso monogâmico. Aqui me perguntarão se com isso quero dizer se já traí. Calma. Estou fugindo do tema com um objetivo. As pessoas superestimam seu desejo pela verdade (você mesmo não quer a verdade e eu certamente me mantenho longe dela até onde é possível). Penso, não há homem enquanto não houver traição. Sim. Penso isso mesmo. O homem só se torna homem quando trai. Agora eu serei eternamente machista, já posso até ver o horror e a decepção. Mas é fato. Explico.

Só quem foi traído conhece a dor lancinante de ser trocado. Embora, acredite-me, não seja tão humilhante quanto o abandono sem troca. Dores igualmente patéticas. Completamente diferentes da dor do traidor. Sim. O verdadeiro traidor sofre. Só não sofre quando não tem consciência real da traição e acredita na própria mentira.Nesse caso, trata-se de um safado obtuso. Esse é o puro. Mas o traidor consciente e sofredor não é um safado, é um canalha. Sofre por humilhação, sofre por ser culpado, se considerar tão culpado quanto é considerado por aquele a quem traiu. O canalha não é patético. Não é sem sentido e não enternece o coração. Ele é necessário. Se não o for, uma vez que seja, o homem não será homem. Não se trata de trair, mas de se sentir humilhado por ter traído. O patético é essa humilhação, o patético conscientiza da dor. Quando a consciência surgir, haverá ali um homem.

Volto um pouco: jamais fui um falso monogâmico, posto que os falsos acreditam na monogamia de fato, e a mantêm a todo custo (entenda-se por custo mentira). Não acredito em mentiras (ora, claro que não! Dirão). Me complico. Quero dizer que não acredito na existência da mentira. São apenas verdades disfarçadas com palavras e gestos. Mas nunca fui muito bom com mentiras, sou um canalha com complexo de culpa.

Volto ainda mais. A coragem e o realismo são, como quase todas as farsas, extremamente necessárias. Não por orgulho. Mas por respeito. Estou falando da coragem do cotidiano e do realismo que mata o drama. Ninguém é obrigado a se ver assustado pela dor dos outros o tempo todo. Nem deve ser. Contudo, o mundo foi ao extremo pelo direito. O drama se tornou ridículo, o patético é humilhante. Mas, pasme, não há nada além do drama. O que está livre do patético é desprovido do sublime. É desumano, banal e falso.

Não se sofre mais, bem como não se usa grandes chapéus e cartolas. Matou-se o patético, o dramático e o romântico pelo dinâmico. Usurparam a sensibilidade, é o que penso. Não há mais o inútil. Só o moderno.


J, M. 

Samstag, 6. März 2010

Ich, literatur, ich

Comprei o livro meses atrás. Levei meses para lê-lo. Não que fosse de leitura cansativa. Ao contrário, sua leitura é quase saborosa, poética até. Me delonguei o quanto pude para me decidir entre a paixão e o descaso.

Tenho esse problema. Posso ver algo ridículo e adorá-lo, tanto quanto posso achar um livro maravilhoso e detestá-lo. Toda uma trama pode ser perdida por um mero detalhe. Às vezes tenho pesadelos com esses meros malditos detalhes. Quase nunca os supero. E, no meio da noite, suando frio, acordo murmurando entre lágrimas: “Por que você existe? Por que você existe? Eu poderia amá-lo se você não existisse, bastardo!”. Mas me perdi no exagero. Volto ao tema.

Um detalhe em potencial para descaso é a intenção do escritor. Há quem diga que o que importa é a impressão que a obra deixou, aquilo que ela passou ao leitor. Ladainha politicamente correta. Se o autor tinha uma intenção e não me passou o que queria, é um frustrado. Se for frustrado, ensina o dinamismo, não merece consideração.



Adoro aquele trecho, especialmente seu inicio, que diz assim: “(...) Sou tudo o que você perdeu. Você não vai me perdoar. A lembrança de mim atrapalhando sempre sua história. Não há nada a perdoar. Você não pode me perdoar (...)”. Esse pequeno trecho, com todo o patético que nele reside, conseguiu me passar a sensação que eu manteria durante todo o livro. Por trás de todo o cenário (região 1, região 2, região 3), por trás de toda a política, e de todo o inútil glamour (nada tenho contra a inutilidade do glamour. Mil vezes pelo contrário. Respeito e admiro o glamour muito mais que a falsa monogamia, em toda a sua inutilidade, por toda a sua inutilidade), há apenas o velho e patético triângulo: o homem traído, a mulher traidora e seu amante. Eu me sinto nesse mesmo contexto. Não falo de realidade, mas sim de reconhecimento.



Por mim, o romance precisa ser apenas isso. Um cenário real, de importância atual e até pedagógica. Mas um cenário. E o que vale mesmo é a dor do corneado e sua necessidade de vingança. Sim. Porque o homem traído, nesse livro, é reduzido a corno, como é na vida. E sua busca pelo acerto de contas com a traidora e o corneador. Há aí toda a dor inútil de que preciso. A estória, a literatura, se basta nisso. Mas talvez não.

Posso estar enganado. Talvez (surge uma esperança) haja uma forma de extrapolar sem perder a beleza do inútil. Talvez a pretensão não fosse passar a política através da literatura, mas (a esperança se ilumina) a de mostrar a literatura por trás de toda a história. Dolorida e irônica. Talvez ela (a mulher que trai), seja a própria região 1. Dividida entre o homem que ama (região 2) e aquele que abre portas para sua ambição (região3). Nesse caso, o patético transcende o dramático. Ele é histórico. Digno de paixão.


J, M.

Donnerstag, 25. Februar 2010

Leny

Leny se sentou no banco de madeira, pôs o livro no colo e pensou que poderia estar usando um chapéu. A praça estava linda no outono. As folhas mortas contribuíam perfeitamente para a imagem que queria expor de si mesma. Sua juventude transbordante secaria. Ela usaria um grande chapéu, daqueles que se compravam em lojas especificas e que vinham em grandes caixas pretas. Mas para isso precisaria de um vestido. Sim. Teria um belo vestido. E as cores iriam embora. As cores a ofendiam. Não mais seria jovem. Nem velha seria. Sua vida seria em preto e branco agora.

“Isn´t Romantic?” Ella Fitzgerald cantava em sua mente. Sim. Era tudo perfeitamente romântico. Sua idade e seu coração partido. Virou o rosto para que o vento levasse suas lágrimas e esvoaçasse seus cabelos. Se não tinha chapéu, teria cabelos esvoaçados. Os passantes a olhavam por um segundo e logo desviavam a atenção. Leny adorava a forma como sua dor a tornava intocável. Ela, que já fora tão tocada.

Enxugou as lágrimas finalmente e prendeu os cabelos. Lembrou-se do último momento. Aquele em que previu o fim. Dissera a si mesma que estava delirando, sem nem mesmo perceber que estava dizendo. Lembrou-se de seu corpo solitário na cama, enquanto o som da água caindo no banheiro lhe punha em torpor. Estava tão cansada que sua mente simplesmente esquecera de acreditar no romance. Naquele momento ela se viu como estava agora. Em preto e branco, com seu grande chapéu imaginário.

Sua previsão acabou quando ele veio. Olhou para ela e se deitou ao seu lado, ainda enrolado na toalha molhada, disse-lhe para não dormir. E ela, tão ansiosa por amar, pensava agora, virou-se e não disse coisa alguma. Não havia nada a ser dito. Havia tanto a ser dito. Mas ela não poderia dizer nada. Amara o romance acima de tudo. Sabia da dor. Sabia do fim. Mas amava o romance.

E agora estava ali. Aceitando as conseqüências de seu amor. Sofrendo o sofrimento que o romance exige. Quando ele a deixara, sem dizer nenhuma palavra, ela culpara a covardia dele, mas agora se perguntava se ela não havia sido tão covarde quanto. Ou eram ambos apaixonados pelo romance? Leny sorriu o sorriso de mulher que a dor lhe ensinara a sorrir. E se levantou. Era suficiente. Aquele era o fim. O romantismo a levara até ali e ela cumprira seu papel até o final. Não que seu sofrer fosse encenação, mas o motivo dele existir o era. Era um sofrer pela mentira que contara a si mesma, por ter acreditado nela. E levou isso às ultimas conseqüências. Como devia ser.

Não se arrependia, contudo. Nem por um momento. Queimara sua dor pelo drama. O verdadeiro drama. Que só os corajosos podem alcançar. E agora só havia cinzas. Era o bastante. Estava queimada. Estava marcada. Estivera andando enquanto pensava sobre os românticos. Parou para olhar ao redor e os viu. Eram os que tinham os sorrisos mais adoráveis, eram os mais corajosos, ela pensou. Porque eram os que amavam mais e sofriam mais. Eram os que entendiam a dor. Eram os livres de fato.

Ela a enfrentara. Enfrentara sua dor ao sofrê-la e havia vencido. Vencera sua humilhação. E todo o patético do drama agora assinalava sua liberdade. Seu sofrimento fora visível para todos e isso a libertara. Agora ela era viva. Viva para morrer e morrer nessa vida. Como devia ser.


P.s.: “Leny” foi escrito para uma amiga de mesmo nome que me inspirou e inspira. Todavia é de minha inteira invenção. Ou é inteiramente roubada, como são todas as coisas inventadas nos dias de hoje... Em “Leny”, tentei, sabe-se lá porque, mostrar como o preto e branco e os grandes chapéus são como a dor maravilhosa dos românticos. Acho que foi uma tentativa falha. Enfim, acho que há mais de mim nesse texto do que eu esperava, o escrevi tendo quatro músicas fantásticas como trilha “Isn´t Romantic”, “Love for sale” e “Blue Skies” na voz da Sra. Fitzgerald, e “Geórgia on my mind” de Lady Billie Holiday. Os títulos são para demonstrar minha reverencia. No mais, é isso.



J, M.

Sonntag, 14. Februar 2010

O ateu e outras coisas que não sou

Na escola, estou aprovado em Inglês desde o terceiro bimestre. Não precisaria fazer mais nada. Nem mesmo as provas. Faço por culpa. Tenho esse complexo. Pelo menos o admito. Acontece o seguinte: Não estou aprovado por mérito próprio. Também não é por mérito alheio. Não nesse caso. Então por mérito de quem? Da providência. Sim, exatamente (é, eu também faço essa cara), da Providência Divina. Acontece que eu não acredito em deus.

Nunca falei sobre deus aqui. Mas acho que já devo ter escrito a palavra “deus” em algumas expressões até agora. Acontece que adoro expressões. Da mesma forma que gosto de palavrões. Uma palavra que vale por mil gestos, é o que eu costumo dizer. Me perdi. Retorno. Acontece que tenho complexo de culpa, como já disse. Tenho essa coisa por ter muita sorte. E sorte demais, dizia minha avó, dá azar. Nunca deixei de pensar que todos tem um estoque e fico me perguntando quando o meu vai acabar. Mas me perdi de novo (estou com sono e essa mente já é sem foco normalmente...).

No terceiro bimestre desse ano, decidi que estava com pressa demais para ler todos os textos das duas provas de língua estrangeira. Respondi, portanto, o que me veio à cabeça (leia-se: “chutei”). E, quando recebi as provas, já resignado pelo pior, só pude acreditar que era engano. Não era. Tirei a nota máxima em ambas. Foi o suficiente. O ano estava ganho para aquela matéria. Fiquei péssimo. Depois dessa e da pane no computador da secretaria que apagou todas as minhas faltas, não vai mais haver sorte para o resto da vida.


Um professor de redação ficaria possesso se me lesse agora. Isso porque vou dizer que só neste parágrafo vim encontrar meu tema. Lá vai: Quando recebi o teste, exclamei: “Obrigado senhor! Seja lá quem seja”. Nesse momento, uma amiga prontamente se espantou:

- Você não era ateu? – veio ela



- Não – respondi – Sou agnóstico, eu acho.


- Isso é ateu enrustido – satirizou


- Não, não é – levei a sério.

A diferença, penso, é que o ateu simplesmente não acredita em nada e nem quer acreditar. O agnóstico também não acredita, mas é um desconfiado. “Sei não, vá lá que exista!”. Acho que todo neurótico é um agnóstico, e a recíproca talvez seja verdadeira. O agnóstico quer provas. Não há fé nele, porque a fé exige a crença por si só e ele não quer acreditar, quer saber se existe. Ao ateu, essa existência não interessa. Sou um neurótico. Não entendo os ateus.

O ateísmo erudito costuma defender que a religião é a forma que a ignorância encontra para explicar o desconhecido. Isso está errado. Acho que não é muito respeitoso por dessa forma... Talvez eu devesse dizer que minha visão, embora considere com atenção os pontos contrários, interpreta a relação entre homem e crença de forma razoavelmente dessemelhante. Como eu estava dizendo, acho isso uma babaquice.

Os sentimentos que regem a fé são muito mais primais que a busca por respostas. Trata-se da esperança. E do medo. Medo do que pode acontecer. Esperança de que seja algo bom. Ou, ainda mais importante, esperança de que haja alguém para perdoar, quando os erros forem imperdoáveis. David Hume dizia que a religião é uma manifestação da natureza humana, não do pensamento racional. Eu concordo com ele. Isso explicaria porque ela tende a crescer em épocas que o futuro é incerto e a declinar quando se pensa que o amanhã será tão decadente quanto o hoje.

Sou bem diferente dos ateus, portanto. Na verdade, poderia ser como qualquer cristão. Às vezes me pego rezando inconscientemente para que as coisas dêem certo. E não foi menos de uma vez que já joguei tudo nas mãos da sorte. Meu problema é a maldita consciência. É saber que esse é só um instinto humano que surge quando se ignora o futuro. Mas isso também não significa que eu vá ignorar esse instinto sempre. Não quando é muito mais cômodo fazer o contrário. Afinal, especialistas dizem que são mais felizes os que se convencem das próprias mentiras. De qualquer forma, para mim, a religião não se trata de entender o mundo. Mas de viver nele.


P.s.: Não posso deixar de pensar que esse texto está inacabado. Mas tenho uma incapacidade de concluir, estou cansado demais para ir contra ela hoje. Meu estoque de músicas a conhecer chegou ao fim. Isso geralmente significa tédio homicida. Devo dizer, à guisa de conclusão, que detesto ser o ultimo a deixar uma festa ainda mais que ser o primeiro a chegar nela. Os entendidos entendem o que digo. Vou me isolar em livros. Alguém pode me emprestar “O Falcão maltês” ou “O sonho eterno”?



J, M.

Freitag, 5. Februar 2010

Breve relato sobre sorte, azar e outras coisas que temos

Nada é mais perigoso que o tédio. Já nos demonstram os jovens incendiários de índios. Mas ele também oferece riscos menores. Como a completa falta de precaução com viagens para fora de cidade. Isso explica porque, hoje, dia 29 de janeiro de 2005 às duas da tarde, na hora mais arrogante do sol, eu fui parar no meio do nada, bem no meio do mundo.


Tínhamos embarcado numa viagem para o sitio de um colega da sala. Jaiana Carmezim e eu. E mais uma boa parte da turma. Dentro do ônibus, discutimos sobre livros, filosofia, a falta de valores da juventude, Macapá e a possibilidade daquelas pessoas estarem esperando que levássemos alguma comida.
 
Abre parênteses (em minha defesa: se for convidado para uma festa, espero que me digam o que devo levar. Do contrário, a única coisa que conseguirão de mim será um Halls preto e muito cigarro. Se eu estiver de bom humor. E odeio essa liberdade fingida de “Ahh... leve o que quiser”, se alguém me vier com essa, apareço na festa com um quilo de sal grosso) Fecha parênteses.
 
No momento que percebemos que aquela era uma daquelas festas em que não sabemos porque viemos e como vamos sair, surgiu o desespero. E, como Murphy era um cara muito sacana e sabichão, foi só nesse momento que descobrimos que o ônibus só voltaria às sete da noite. Problema: Jaiana tinha prova às duas da tarde. O único rapaz que possuía um carro, um famoso encrenqueiro que disputa corridas por aqui, era, justamente, o único que nos detestava. Aos dois. Todavia, minha criação foi baseada na política, com uma dose de manipulação e um poço de inconveniência. Fui, portanto, me despedir dos amigos. Quando eles souberam que pretendíamos andar até a estrada, convenceram o ilustre a nos dar carona pelo menos até o ponto de ônibus.
 
Uma amiga, Maria, decidiu nos acompanhar, bem como um colega que era o melhor amigo do dono do carro, e foi quem o convenceu a dar a carona, presumo. Não pude evitar pensar que ambos estavam indo para garantir que chegássemos vivos. Acabou sendo uma ótima oportunidade para o jovem nos mostrar seu potencial como corredor. E como babaca.
 
Bateu o carro em uma árvore ao tentar nos impressionar com uma manobra na piçarra (que é um tipo de terra vermelha e cheia de pedras). Nada grave. Bom, talvez exceto para o pára-choque do carro. Depois disso, ele acabou nos deixando numa paróquia na beira da estrada. Como o sensato garoto pareceu pensar que o acidente era nossa culpa, não tivemos coragem de lhe dizer que o ponto de ônibus estava distante dali. E seguimos os dois andando.
 
Quando o sol começou a rachar minha cabeça, eu já tinha desistido tanto de convencer minha companheira de que pegar carona na estrada no mínimo era burrice, quanto da a esperança de que um ônibus passaria. Estávamos cínicos, desiludidos com nossa sorte e cansados, quando um carro subitamente parou ao nosso lado. Primeiro achei que algum maníaco se realizaria agora (tudo passa pela mente do neurótico, assassinato, terrorismo, mutilação). Então o rosto de uma senhora austera apareceu pela janela e perguntou, dura: “Que caras de preocupação são essas? Há alguém passando mal?” Taí.E eu achando que tinha o dom de fazer as perguntas mais inesperadas.
 
O nome da senhora era Giovanna. É italiana. Não sei quantos anos tem. Mas seus cabelos eram todos brancos e seus olhos claros tinham a expressão rígida de alguém que já viu a dureza do mundo. Trabalha aqui prestando serviços à comunidade em um hospital. Ela não teria parado, confessou, porque já haviam lhe avisado sobre os perigos de dar carona à estranhos. Mas viu nossos rostos preocupados. E decidira que o remorso seria maior senão ajudasse. Disse isso sem a expressão de ingenuidade que se espera da bondade humana. O que me assustou e maravilhou ao mesmo tempo.
 
Não perguntei se era freira, mas creio que era. Estudei com freiras por muito tempo e acho que ainda consigo distinguir uma ao falar com ela. Perguntei-lhe tudo o que pude sobre o projeto de caridade, ela pareceu feliz em responder. Fiquei e ainda estou impressionado com o quanto desconheço sobre minha cidade e meu estado. E lhe disse isso. Dona Giovanna me respondeu: “Uma árvore que cai faz muito mais barulho que uma floresta que cresce. Mas assim é a vida, isso não nos impede de continuar”. Falamos também sobre a Itália e sobre sua influência na cultura brasileira, acabei me lembrando de algo que costumava dizer para mim mesmo há muito tempo e esqueci: “Toda família veio da Itália”.
 
Nos despedimos de Giovanna e ela nos desejou boa sorte. Fiquei pensando sobre os opostos completos com quem tinha acabado de cruzar. O jovem perdido que não faz idéia de quem é e precisa de atenção e a velha mulher que encontrou seu caminho ajudando os outros. Engraçado como começou o dia de hoje e terminou o de ontem. Repletos de discussões sobre valores perdidos. Precedidos de um mês inteiro de cinismo. Para então surgir uma italiana que me mostrasse que esses valores ainda sobrevivem, se alguém buscar por eles. Sorri ao pensar que essa é a grande piada de ser um agnóstico romântico. Acreditar em deus não tem tanta importância assim. Mas daríamos tudo para acreditar em um sinal.
 
 
P.s.: acho que é necessário, sim, ficar na memória. E ontem foi o aniversário daquela e dessa Macapá do texto. Sim, é meu presente!
 
 
 
J, M.

Mittwoch, 3. Februar 2010

A ovelha negra

Semana passada, disse eu ser uma “flor de obsessão”. Fiz isso para parodiar Nelson Rodrigues. Me redimo. Sou um cactos obsessivo. Tenho esse problema. Fico fascinado por um escritor e não paro mais de falar dele. Ou então me apaixono por um cd e o escuto ininterruptamente. Até que ele risque ou alguém ameace jogá-lo fora. O mesmo se passa com filmes e livros. Releio, re-assisto, re-escuto, geralmente três vezes. Sou um homem de repetições triplas. Por isso não conheço muito de cinema. Ou música. Ou literatura. E por isso, claro, sou um alvo mais que constante dos preconceitos de meu circulo social.

Alguém, provavelmente na França e muito provavelmente em 68, disse certa vez que nunca se deve confiar em qualquer pessoa com mais de trinta. Se eu ouvisse, diria que ninguém com menos de trinta me parece confiável tampouco. Sim. Certo que todos já tiveram que superar os traumas deixados pela infame e insaciável “turma” (sinto muito, mas andei assistindo àqueles programas para jovens de novo. Vou parar. Juro). Contudo, não se fala muito da malicia dos jovens. Estou falando de malícia simples e até saudável. Não daquela loucura de garotas transviadas como retratado em “Aos treze”. Disso todos falam.

Não nos diferenciamos muito de um bando de ovelhas. E sempre existem os desgarrados. Aqueles que são inteligentes entre idiotas, os covardes entre corajosos, os admiradores do Almodóvar entre fãs de “Velozes e furiosos”. Nenhum desses foi o meu caso. Tive o azar de fazer amigos maravilhosamente inteligentes. Todos talentosos e/ ou geniais. Enquanto eu, para minha frustração, crescia sendo, bom, normal. Palavra que, no meu meio, remete sempre a medíocre.

Não é que eu seja invejoso. Certo, sou sim. Mas aprendi a lidar com o fato de ter um cérebro padrão entre grandes mentes. De tirar notas ridículas em matemática, de ser um aluno no máximo “muito bom” em redação, português e história. De assistir “Buffy, a caça-vampiros” enquanto todos viam CSI e de achar que o melhor cinema é aquele com poltronas reclináveis. Não tenho grandes dificuldades em aceitar a inteligência superior da maioria de meus amigos. É claro que devo isso aos adoráveis obtusos que preservo com carinho. Doce descanso para o meu ego.

No entanto, para tudo há limites. Acho ótimo descobrir as maravilhas do cinema europeu guiado por um amigo cinéfilo, por exemplo. Mas não vejo maravilha nenhuma em ter esse mesmo amigo reclamando do quão prosaico é meu gosto cinematográfico. E ainda por cima exemplificando. O mesmo serve para a literatura e a música. Não se trata de não querer provar do novo e diferente, mas tenho minhas barreiras e o meu ritmo. E gosto deles. Gosto de aprender algo de novo com aquilo que já conheço.

É uma realização quando acontece. Perceber num livro uma frase que tinha perdido na primeira vez e que deu um sentido totalmente novo ao diálogo. Escutar “A história de uma gata” do Chico Buarque tendo, finalmente, descoberto que se trata de um retrato da burguesia artística durante a ditadura ou ouvir “Eu sou neguinha?” na voz da Vanessa da Mata e pensar que o Caetano talvez estivesse cantando sobre a hipocrisia racista em versos que não tem muito sentido aparentemente, mesmo depois de mil repetições, me dão prazer. E talvez essa seja uma forma de se fechar para o vasto conhecimento que existe no mundo. Se for, sou um abençoado por minha ignorância.

Quanto ao cinema, posso até nunca vir a entender a filosofia destrutiva por trás de “clube da luta”. Ou a mensagem do Fellini em “Dolce vita”. Mas nunca me esqueci dos bodes violinistas de “Um lugar chamado Notting Hill”. Bem como repasso com perfeição a imagem da velha pedindo desculpas ao protagonista, em “Grandes esperanças”, por ela ter deixado Estela quebrar seu coração, desde que tenho onze anos. E ainda sinto o mesmo aperto no peito que senti na primeira vez que vi as cenas. O aperto da certeza (e de não querer tê-la), de que desse mal eu talvez gostasse de morrer. E se um filme pode me fazer sentir assim, então me interessa muito pouco o que terão a dizer sobre ele.



P.s.: Ele, o autor, quis falar sobre ele na terceira pessoa.



J, M.

Dienstag, 2. Februar 2010

Gil

“E o que queremos todos saber? Quando acaba a euforia da ciência ilimitada que nos dá a ilusão de poder ser Deus. Quando voltamos dos grandes mergulhos filosóficos de uma “existência que precede a essência”, genialmente defendida por Jean-Paul Sartre. E não foi o próprio que respondeu que uma literatura é nada perto da uma criança que passa fome? Num momento que Nelson Rodrigues batizou de “nostalgia da burrice”. Queremos saber no que tudo isso influirá em nossas vidas. Mais que isso. Queremos saber por que influirá.

Sem tentar posar de realista engajado, creio que Gilberto Gil tentou mostrar, com arte e leve ironia, o abandono do homem. O sentimento de ter seus problemas trocados por um estudo mais interessante, menos feio, nem um pouco angustiante. Mas esse homem, carente, quer a atenção de volta. E quer respostas. Por que, enquanto tantos sofrem, é tão mais interessante se deslumbrar e tentar achar respostas para perguntas tão além do que se vive no mundo? E, se esse conhecimento é tão importante, por que não pode ser compartilhado com todos?

Gil não fala nada sobre filosofia na música, não diretamente, pelo menos, mas acho que teria o mesmo sentido se falasse. Não houve muitos filósofos engajados politicamente com seu tempo na história. O que torna válido o argumento de que a filosofia pode se tornar alienante quando as grandes questões sobre a vida e o universo nos impedem de ver o que está a nossa volta. Argumento esse que me atormentou (por vezes ainda atormenta) durante minha estadia por aqui... você sabe

O intuito da música, penso, é invocar uma pergunta: estamos fugindo do tema? Encantando-nos com o que a ciência pode fazer para esquecer do que precisa ser feito? Ou chegaremos há algum lugar melhor com tantas invenções? Nesse caso, para o compositor, deveríamos ser avisados, porque estamos todos andando no escuro”.

Foi isso o que eu respondi a um estudante de jornalismo que esteve  aqui em casa e que me interpelou sobre essa música para um trabalho. E não pude deixar de pensar na resposta. E, como bom egocêntrico, em mim mesmo. Sem querer desvirtuar a música de Gilberto Gil, não pude deixar de me perguntar, será que escolher apenas um lado da moeda não é simplesmente mais fácil?
Toda geração até agora, pelo que sei, parece querer se dividir em duas categorias (aparentemente, pelo menos) os que se interessam pelo mundo e os que se interessam por si mesmos. Ora, eu sou muito interessado por mim mesmo, mas nunca consegui me desinteressar pelo mundo por muito tempo.
Ao conviver com estudantes possuidores da mais pura veia revolucionaria de um lado e jovens dotados do mais genuíno “estilo” de outro, é difícil não questionar algumas das próprias paixões e começar a criar outras novas. No que diz respeito ao individualismo. Ainda sou apaixonado por filosofia, mas já não posso me impedir de adotar o 42 como resposta, vez por outra. Seja para manifestar minha indignação pelo aumento das tarifas na rodo – ferroviária, seja para aproveitar a queima de estoque dos democratas na sapataria mais próxima. E gosto muito de poder fazer os dois.
Mas me perdi no tema. O que quero dizer. Não. O que quero perguntar é: Será que tudo o que fazemos precisa estar politicamente engajado? E não falo só das pequenas ações do dia-a-dia como comer carne e fazer compras, mas dos grandes feitos. Como na arte ou na ciência. “Faça literatura! Faça literatura!” – Gritava Guimarães Rosa. E literatura não precisa envolver ideologia – para fins de discussão.
Não quero, de forma alguma, viver numa sociedade onde só o que conta são os valores individuais, contudo não me interesso por um sonho onde esses valores não contam em nada. A idéia utópica não era de que cada um visse o mundo como sua visão permitisse e o representasse de acordo?
Julgamentos à parte, é deveras cansativo tentar achar uma posição num novo mundo de oitos e oitentas. Quero pensar que estou além disso. “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. É o que diria o Mario de Andrade. É o que eu digo também.


J, M.

Freitag, 29. Januar 2010

A seca

Existe um momento em que domina o instinto. Tal qual droga, nos afeta os sentidos. A escolha é simples. Ou sou o desejo ou lhe esfaqueio. Extravaso a mim para ser eu mesmo.


A mente fica vazia. Os pensamentos ficam, mas as idéias vão (estou fazendo algum sentido?). Nada é mais detestável que sentir falta do sexo. Tão animal que soa. As imagens são o pior. A memória decide funcionar com precisão impecável para os detalhes. Quando não se conhece não se tem as imagens. Jamais deveria ter provado.


Flash: o corpo deitado sobre o peito desnudo, ainda suado. A boca, que o ultimo beijo não deixou esfriar, solta ar no meu ouvido. Minha mão procura devagar, instintivamente, pela intimidade...


Explicitar, penso, é a melhor forma de se destituir. O explicito sempre queimou meu tesão mais rápido que qualquer outra coisa. Não que eu queira ser o possuidor eterno (até a expressão não me cai bem), mas não me excito com algo que esteja para todos os olhos. Sou mimado, de fato. Na cama, há de ser quem quiser, mas que seja para mim.


E foi-se o bendito tempo da casualidade. Depois da decisão de parar de rolar e, quem sabe, criar algum limo, a loucura casual que essa jovem cidade pode oferecer perdeu sua graça. Amigos voltaram a ser apenas amigos. Contudo a realidade está aqui. O romantismo que vai acabar me transformando em um cínico, parou de se esconder atrás da ilusão de diversão. O melhor mentiroso, dizem profissionais, é o que acredita na própria mentira. Quem será enganado agora?


Eis o problema, portanto. Há o coito. Há apenas coito. Só que as complicações é que são o meu forte. Por isso eu estava mentindo no parágrafo inicial, existe algo pior que sentir falta do sexo. É sentir falta do drama.


J, M.

Mittwoch, 13. Januar 2010

Uma estranha cadência

É alucinante. O bombardeio, o fluxo, as mensagens, são meteóricas. Passam por mim como vento, com aqueles grãozinhos de areia insistindo em perfurar a pele. Tentam me levar pra trás, mas eu resisto. Até que resolvo saltar, e viajar com eles. Uma luz perturbadora invade o meu estômago, de baixo pra cima, até fazer tudo virar de cabeça pra baixo. E girar e girar. Sou um pedaço de luz, cadente, viajante, livre. Informação. Sou levado pelo vento; uma viagem louca, translúcida, transversal e horizontaldina, com muito fervor de adrenalina. Até que consigo alcançar uma pequena foto três por quatro e...



-



... tudo escuro, o tempo pára. Nesse momento, somos só eu e ela. Na foto, seus olhos me dizem uma única mensagem. Uma profundidade inalcansável de um olhar. Tudo gira, é apenas um globo da morte. Então mergulho na foto.



Eternidade.



É uma estranha tensão entre o ser atemporal e o estar instantâneo. Um leve arrepio que percorre desde a infância até a efemeridade de uma ruga. De repente, tudo parece tão obsoleto. Volto à cena de uma leve troca de carinho, um olhar, no canto de uma sorveteria. Sou fragmento de eternidade, digitalizado, impresso, reticulado, imortal. Um pedaço de papel voando a percorrer o mundo inteiro junto com as folhas secas. Um amontoado de dados a se reconfigurar numa rede infinita de significados. Um breve sorriso, espontâneo, artificial, arrepiante. Um quase gemido de felicidade. E não vivi. Feliz. Para sempre.



J, M.

Sonntag, 10. Januar 2010

Azulniverso

o ziper se fecha
invólucro.
casulo.
eu.
,
um lugar
um não-lugar
um talvez-lugar
um certamente-absolutamente-lugar
território imaterial
quadrado
retangular
poligonal
cilíndrico
esférico
escorrendo
líquido.
,
o ziper se fecha
posso ser o que quiser
em qualquer época
em qualquer pessoa
em qualquer enredo
em qualquer absurdo.
sou sombra
fluida
traiçoeira
artística
eclética
indefinida
qgcpajeç's
oo
esquizofrênicas esquizofrenias
o ziper ainda não fechou
estou tecendo
estou moendo
estou roendo
sim, roendo
estou cantando
dançando, espremendo, dobrando
linhas, retas, tortas, bordados
pautando o céu
com beijos
...
sem ziper, sem saída
um invólucro.
uma gota.
um oceano particular
um infinito azul, meu coração, alma, sangue
um sonho vivo,
e as pessoas lá fora
e os humanos lá fora
e os bichinhos lá fora
e as plantinhas lá fora
e os ventinhos lá fora
o mundo;
em outra dimensão
tão distante que posso tocar.
eu
vivo no buraco negro
nas plumas
nas nuvens
nas molduras
moles
e duras
posso vê-los, mas eles não me vêem
hahaha!
aah
me torno invisível
morto para o mundo
nascimento em potencial
surgimento em potencial
aparição em potencial
assombração indesejada
transparente
invisível
vago
entre eles,
sem me mexer
broto em meio a seus cabelos
em meio a seus seios
sou fruto de seus sonhos
flutuo no suco
bebendo estrelas
e girando dentro de um globo que simula movimentos translatórios em
3d
sou eu, o detalhe
sou eu, o imperceptível
os ouvidos das paredes que têm ouvidos
sou eu, que passa despercebido ao olho nu
curtindo
alimentando
dançando
nadando
entre vocês
surfando
numa bolha de infinito prazer
de infinita doença
de infinita loucura
de mim
de nós
de ti
de
.



J, M.

Donnerstag, 7. Januar 2010

Frieza e marxismo

A Pós-Modernidade lança uma maldição: uma chuva de gelo nos corações das pessoas. E é incrível quando notamos que também estamos assim. É algo triste, melancólico, uma finalidade sem fim. Uma obra de arte ao avesso, o indivíduo pós-moderno. Abandona seus laços, suas raízes, suas vestes. Deleita-se em jornais entre cadeiras reviradas em uma calçada. Não enxerga mais ninguém. Não dá valor à nada, nem à si mesmo. Perambula por um objetivo que nunca chega, por vontades momentâneas nunca saciadas, e a vida passa. Passam os anos, passam as pessoas, morrem as pessoas. Morrem as pessoas. Morrem as pessoas. Morrem. Morrem. E não resta nada a não ser cinzas de inverno. É o aquecimento global. É o frio. É o descaso. Sou eu, descalço, brincando de patinar no gelo, à beira de um precipício. É você, um precipício humano, a me esperar, pra que juntos possamos nos encontrar na eternidade, sem nunca completarmos nem contemplarmos um ao outro. É a mãe natureza, clamando para ser vista, mas seus filhos pisam, pisam, pisam e pisoteiam, eiam, eam eiameiameiameiameiameiameinteiramente. É um mundo com paredes de lajotas que não deixam brechas. Não há escapatória, quer dizer há, mas cala a boca, eu não quero saber! Quero que tudo dê errado no fim! Quero acumular munição durante toda uma vida, pra que no final tudo se volte contra mim em forma de arrependimento...!
Aprendemos a viver errado. Nos obrigamos a viver errado. A vida é errada, tá tudo, tudo errado! Não devaria ser assim! Deveria aparecer uma doença, uma greve de ônibus, um estado de calamidade, uma emergência qualquer que converta tudo o que é normal em anormal, porque só assim, só assim, pode-se reverter alguma coisa, nem que seja por alguns instantes, e, então, poder perceber o quanto o habitual, o banal, o normal, enfim, a vida, o quanto tudo isso é tão, tão, mas tão errado.


J, M.

Montag, 4. Januar 2010

Tempotempotempo

Mais um mês, e já foram cinco.
Mais uns dia e se acaba um mês.
Mais um mês e se acabam os seis.
Mais um mês e se acaba o tempo.


Se acaba o tempo, e se acaba o limite.
Não se acabando o limite, pois pra isso não há o limite.
O limite chama-se paciência, ou talvez o destino, quem vai saber.
O destino pode se chamar tristeza, às vezes.
Lágrimas podem dizer muito mais que simples águas regadas a sal.


Distância pode aumentar como o tempo.
O tempo pode apagar lembranças.
O tempo pode colocar amores em chamas.
O tempo pode transformar pedras de gelo.
O tempo pode amanteigar.
O tempo pode queimar, desfalecer.
O tempo é poderoso.


Às vezes o odeio, esse tempo.
Muitas vezes queria que simplesmente não pudesse se mover normalmente.
Porque ele teima em ser apressado?
Porque nos faz esperar tão impacientemente, quando quer porque quer passar devagar?


Não falarei de relógios.
O tempo é invisível.
O tempo é surdo.
O tempo é mudo.
O tempo é cego, infelizmente, pois assim não pode ser piedoso.
Poderíamos chamá-lo de justiça.


Às vezes odeio essa justiça.
É injusta.


J, M.

Freitag, 1. Januar 2010

Um Não-Lugar

Queria poder me jogar de um lugar bem alto, bem alto. Mergulhar nas trevas da noite, sentindo minha alma se transbordar em estrelas, e me deixar levar pelo vento das nuvens. Pra cair numa piscina, atravessar o reflexo da lua cheia, e encontrar alguém. Alguém que está lá, a me esperar, de braços abertos, meu amor, meu mais complexo e maravilhoso sonho em matéria e espírito.
Existe um lugar por aí que eu ainda não conheço. Mas sonho com ele... é uma praia sem mar, uma lajota infinita, uma nuvem, um som. E nesse lugar eu respiro e sinto sabor de música de fundo. Um lugar onde a carne é prazer, e o prazer, imaterial. Um lugar onde eu possa sentir uma febre gostosa e uma fraqueza que me faça sentir bem perto do chão, como somos doentes. E é lá que eu vou dormir, e sonhar com uma realidade lúdica e quase fantasiosa.
É a água da chuva no meu rosto. Um frio gostoso atravessando o meu corpo, e meus dedos sendo engolidos pela terra molhada. É uma tela com uma mulher de chapéu preto cuidando de seu cavalo branco. É um simpático velhinho trazendo minha mais sonhada televisão vermelha em sua caminhonete, que me transportaria pra sempre para um universo de sonhos.
É um sonho cheio de camaleões pretos e estrelas cadentes, com um assassino em série me dando seu cartão e seu saco cheio dos próprios restos mortais. É um banho de velocidade com um capacete preto e respirando por um aparelho que nunca foi inventado.


Eu guardo em mim uma mensagem subliminar. Virem minha vida ao contrário, e verão um olho vermelho num corpo que cai de uma bicicleta e quebra um pulso. Mas não verão o pulso. Nem verão o verão.
Porque um dia, de tanto pressionar a testa contra um vidro de carro, vou acabar criando um calo. Ou me jogando de um ônibus em movimento.



J, M.