Donnerstag, 6. Januar 2011

Do salto em salto

E sobre o seu salto corria no corredor das ilusões. Via extraterrestre na sua terra, variando de acordo com a intensidade do passo, não imaginava a loucura que estava fazendo na sua sociedade decadente. Fissurado por enigmas imcompreensíveis, acreditava que a crise ia passar sem saber que não havia crise nenhuma fora do seu exterior. Abaixo, cada vez mais para baixo ia de encontro com o chão, sem descer do salto. Tudo estava ficando estrangeiro, cheio de patrulheiros omissos que intervinham no controle da população.
Sobre pressão estava, cantando melodias inanimadas num ritmo fotográfico frenético, pirado e oscilante. Sendo puxado pela gravidade com as pessoas passando pela rua. É a terrível realidade que assume a forma de concorrente do destino. Fecha os olhos e cospe. Do resíduo saído de seu organismo, organismos procriam-se assumindo formas grotescas, dominando as paredes oleiras. Nem imaginava qual era a composição do planeta, mas haviam também pessoas cegas na rua que corriam rumo ao invisível.
Quando de repente a pressão estourou na forma de uma nova chance indivizível que foi agarrada sem dúvidas. Os namorados e as namoridas abraçavam-se como se aquele fosse o último instante de suas vidas - e era. Doenças predestindas para a humanidade recaiam todos. Sobre seu ser ainda mais, com a certeza incontestável de que aquele lugar iria sumir do mapa.
E na situação de um bêbado equilibrista seguia no caminho dos sonhos, sempre irrealizáveis mas existentes! Passou a hora de acordar, já caia a tarde feita de violão. Um luto envolvido nas sensações lunares pedia para cada estrela que brilhasse mais para o momento ser inesquecível. As manchas de tortura jaziam por todas as partes, de olhos tortos e reverências de cavalo treinado.
Uma volta, duas voltas e volta tudo ao "normal" (as aspas, nesse caso, não passam de um clichê poético). Uma dor dessas não é inútil, pois é sentida por todos inclusive pelos que não existem. Na linha bamba da predestinação as asas de borboleta bêbada ruflavam sem objetivo, a não ser o de manter-se no céu.
Babaquice. Tudo é uma tremenda inversão invetada para fugir da sua própria rosa espinhenta. Ele havia dado todo seu amor e em troca recebeu o tempo. Tempo de dizer adeus, pois a reviravolta é constante e vai do início até o fim sem pensar no seu bebê. Você pode até trazer a esperança, mas as palavras já estão perdidas num espaço tridimensional.
E todas as coisas existentes conversavam entre si coisas surpreendentes, lembrando o que havia sido dito ao invés de ser feito. As crianças continuavam a brincar escondidas da tecnologia. Os lobos caçavam em pares obtusos de seis em seis, e as pressas não paravam de diminuir no número de seis. Tudo se movia na forma de cabeça pensante e nessa noite que nunca aconteceria novamente - uma coisa inacreditável ocorre somente uma vez, o resto é repetição tranformada em modo diferente.
Os batimentos cardíacos desaceleraram, a hora está próxima do minuto. Do lado existe um ser alado que nunca irá falar de liberdade. Outro ser estranho vem dizer que todos os poços são profundos demais para uma volta. O bom volta em forma de samaritano excluso da sociedade, a medicina avança também para o bem mesmo tendo de fazer o mal. Você irá voltar e eu continuarei fluindo em forma de espirro esvoaçante rumo as estrelas inaudíves do seu sol apagado. Sempre.


J, M.

Freitag, 31. Dezember 2010

S-T

Lá nos meios das jabuticabeiras - tão escuras que a noite não se atreve a entrar naquele recinto -, rodeadas pelo imenso deserto da mais pura areia que se dá ao vento na procura de unir-se numa grande duna pontiaguda, para que dessa maneira possa perfurar o céu. Sim, o céu; pois ele ostenta o simulacro quente e vermelho que faz da areia nada mais do que ela é: grão. Ninguém gosta de ser um grão e ter de unir-se para somar forças.

E do alto da jabuticabeira há um pássaro possuídor de um arquiinimigo ainda desconhecido para ele, mas o ser alado já o procura com seus olhos de dragão adormecido e asas escamosas de quem reza por penas para poder acalentar a alma. Garras, muitas delas ele possui. Cada uma mais afiada do que a outra, pois após tanto tempo de isolamento você precisa estar muito bem preparado para o novo e o estranho que pode aparecer.

Seu inimigo já criava consciência por debaixo das areias movediças de um canto à leste (onde o sol maior nasce). Lá ele estaria seguro, porque sabia que o grande falcão reptiliano não ousava sair do oeste com frequência; ele preferia a lua que nunca se punha naquele lugar, toda tingida de vermelho e branco, uma fantástica bola de duas cores que se fundem nos dias de alegria em forma de espiral, derretendo-se pela ânsia de viver. Ao norte existe algo que ninguém sabe o que é. Sempre existe algo cujo desconhecido é o principal fator de a coisa ainda existir e lá ela estará também para sempre segura, pois não existe ninguém capaz de vê-la, tocá-la ou mesmo senti-la. Entretanto fazem diversas orações para que lá ela mantenha-se.


Ao sul, o caminho que escorre em forma de faca rumo ao infinito tentando encontrar um paralelo que se oponha ao seu desejo de matar. E acho que no final disso tudo existe água, muita água com muita onda e muitos peixes voadores que formam um balé de meretrizes fantasmas, e nesse canto ao sul é que todos os locais se fundem numa eterna paz efervescente.


Este lugar existe. Existe pelo simples fato de haver um equilíbrio. Todas as forças são fortes. Porém, ninguém duvida da capacidade da outra, nenhuma delas interage e todas sabem do poder da intimidade. O nosso pássaro possui um inimigo e os dois tem de se confrontar. E todo esse confronto ocorre no simples fato de que um reside no céu, o outro na terra. A impossibilidade do encontro faz do sonho de um dia encontrarem-se manifestos de desejo e ódio. E a fonte de energias residentes no centro pulsa para tudo continuar como é. Apenas não posso revelar que força é essa, mas se você procurar dentro de seus orgãos podres quem sabe você não ache um resíduo da fonte do equilíbrio. Uma dica: ela é amarga. Esse local não-nomeável para sempre continuará dessa forma, escrito em duras palavras alucinógenas por mais que você contexte, por mais que eu esteja errado e é isso que me motiva a procurá-lo na ânsia de poder viver nessa sincronia interminável.


 
J, M.

Mittwoch, 22. Dezember 2010

A espera de um natal

O peso do natal já recai sobre minha espinha, na forma barriguda de seu símbolo. Ele chegará quando eu estiver sonhando com todas as coisas curiosas e me desperatará para sua sombria face barbuda. Tudo isso é para ele pior do que para mim, por isso me consolo, afinal eu nada tenho a fazer senão obedecer às leis. Seria isso de sentir tudo tarde demais e não poder mudar o passado, uma cruel brincadeira de Deus ou do Diabo ?



Como peco... Eu queria poder pedir a alguém que me deixe pecar mais, que me livre da tentação. E não posso! Toda mulher é para mim uma mãe, assim como homens são pais. Meu pai morreu antes de eu poder lembrar-lhe a face, não vejo meu filho desde que o tive e por isso me comprometo em abastecer esse homem Noel de tudo que está guardado dentro de minha concha.


Agora, tenho um símbolo pelo qual lutar, posso finalmente abandonar as serpentes aladas que eu seguia. Todos ainda hão de me olhar como se eu tivesse fome e é verdade; eu sou meu próprio alimento fora de alcance. O que pode resultar disso é amor. Eles com sua compaixão, eu com minha ironia, tudo forma de sofrimento camuflado na boca por não saber o resultado. Seria ainda pecado implorar para ter o dom da visão?


Mulheres bem vestidas passam com as sacolas carregadas e vão sem se dar conta que suas marcas não ficarão no mundo. Nem as minhas. Nem as suas. Mas ao menos elas disso não sabem e seguem cantantes.


Perdi até o direito de rezar depois dessa noite, onde todos deliciam sua ceia de natal com garras afiadas e bocas suculentas. Pobres homens, não sabem que a cada pedaço que engolem algo deles se tranforma e morre para criar algo novo.


A lua nova cresce dentro das minhas pupilas dilatadas. Não lembro mais quando perdi minha mente , apenas recordo o flash de energias. O causo ocorreu, pois eu sabia demais. Ficava louca dentro de um mundo paranormal implorando para pensar duas vezes e o único aviso que recebia era o de parar antes que a estrada terminasse. Eu na minha loucura, fazia-os loucos. Meus heróis e eu fugiamos para um país encantado - e sem natal. Eu fui seduzida pela cidade volupstuosa e clandestina. Talvez eu seja louco, talvez tu seja louco, mas provavelmnete somos loucos. Um barrigudo que entra por uma chaminé estreita com um saco vermelho? É, se for para crer nisso, prefiro pensar que sou louco. Melhor do que morrer esperando, esperando, esperando...

 
J, M.

Mittwoch, 15. Dezember 2010

Fluxo imaginético de um capitalismo premeditado

E de dois em dois, ela compunha sua fortuna maldita. Conta por conta quitada, vida por vida não praticada; ao menos o dinheiro agora estava lá, fruto de trabalho semi-escravo, poupava-se dos prazeres para um prazer maior e nem ao menos sabia qual era ele.


Oferecia sua cabeça para ser usada de forma de objeto carrancudo que ao abrir a boca exterminava reações, egoísta e mesquinha como tinha de ser, sozinha no espaço e no tempo. Tinha uma casa. Uma casa azul, encantada pelo monotonia, lá ela se escondia e tinha um certo sossego. Podia olhar embaixo da cama e sentir a certeza de que nunca seria incomodada, e lá era também o refugio de seus níqueis.

Temia os invasores do espaço, pois privacidade para quem não tem alegria é fundamental. O resto do dia era trabalho árduo e fatídico, a mesmice salarial provinda da filosofia da luta de classes.

Começou a olhar as lojas, deliciar-se com o cheiro das comidas sabendo que agora tinha como possuir tudo isso, mas não o fazia. Ficava no desejo, pois a utopia é sempre mais real do que a intensa troca de massa corpórea realizada pelo homem com o meio.

Nas viagens de ônibus à caminho do lar nem sequer olhava nos olhos dos passageiros. Era tão baixinha e inocente que lhe brotava uma flor vermelha da nuca que se alastrava por todo o local em forma de perfume.

Às vezes, essa flor contaminava suas idéias, fazendo-a até sentir-se bela, uma bela de uma mocinha rica.

Estava viva afinal. Com seus ouvidos cata-vento, de olhar amanhecido e enxadas nos pés. Não era forte, mas era humana.

Jogou o dinheiro na sua caixa de vil-metal e saiu correndo pela rua na procura do que procurar. Via livros com suas páginas ao vento que soltavam letras aleatórias em forma de música de um lado, do outro os trauseuntes que passavam numa velocidade espontânea e a cigana de calças curtas. Ah, a cigana! Essa pediu-lhe a mão. Aliás, forçou-lhe a mostrar a mão e no fundo da palma, circunscrito em paisagens vermelhas, a leitora pode ver tudo e disse: “livra da mão do soberbo ao que padece injúria e não leves isto com amargura em tua alma". E como veio a cigana foi.

Não adiantava mais, o dinheiro já estava ali, nada que falassem poderia isso mudar. Era só comprar, comprar! O amargo previsto já tranformava-se em azia mental e alma que ela desconhecia possuir; materializava-se em forma de pena em sua frente, de formas coloridas e pontas agudas que infligiam em todo seu corpo uma sensação. A pena se foi como veio e a mulher pobre de rica ficou lá estirada no meio da praça, abraçada com seu dinheiro maldito e benzido pelas horas de esforço para conquistá-lo. O tempo parou. A moça parou. E o dinheiro continuou fluindo à procura da mão soberba.

 
J, M.

Samstag, 11. Dezember 2010

Tentativa poética

Se por tuas mãos eu não cresço, em ti me desfaço ao menos. Num boxe de oponentes sempre distraídos vamos caindo num poço brilhante de glória dedicado aos campeões, com rostinhos de cinema e inteligencia de escritores. Vamos e vamos. Não precisamos de nada além do que já temos, e não temos nada! O resto de tudo é a nossa verdade absoluta, materializada em topetes arroxeados de um cantor dos anos 60, que declama palavras drogadas de uma noite em reviria; com adolescentes fulgazes e audácias vorazes. Teu rosto não esconde nosso amor e nem queremos e nem sabemos o que é amar. O cheiro de sexo em cada membro de nosso corpo relembra a noite passada em forma de espiral coadjuvante de um circo de bestas lascivas.


E vamos e vamos. Correndo seguimos com a pressa de quem espera a morte; em nosso bonde verdejante de saltos pipocados vamos para o destino que nos aguarda agora e em todo sempre. E de tudo que é nosso escorre um líquido gotejante que entristece os que se encontram ao nosso redor, mas nos dá uma alegria e coisa boa e qual sentimento santo é esse. Embaixo de todos esses véus há desejo escondido em rubra face pré-adolescente. E é por saber disto que somos assim, pois em cada camada de nosso ódio há um apego enorme pela tentativa de viver.


J, M.

Dienstag, 30. November 2010

Submissão

E mesmo sem jasmins ou margaridas, fazia da vida um baile jardinário. Andava pelas ruas vendo nos olhos das pessoas o amanhecer, que no seu viam a curiosidade. Aguçado semblante de maldições frustradas, possuia um cão: Pedro. Sim, o cão tinha nome de gente; ou a gente que tem nome de cão? Pouco importa, a vida é a mesma...

Acordava muito cedo todas as manhãs. Um cigarro e uma xícara de chá gelado abasteciam seu ser na quebra do jejum. Ouvia os latidos por todo seu ser, num espetáculo nostálgico, pois quando ele era criança possuíra um cão: Tobi. Com esse brincava, afagava, seduzia. Com o de agora, é tudo diferente, pois mudamos, mesmo que para pior. Dependendo do dia e da angustia, escrevia. Fazendo de seu laços estreitos comoção.

Olhava o coração apaziguado pela escadaria imensa que tinha de subir para chegar ao seu apartamento, tudo que queria era mentir e mentia. Ao encontrar desconhecidos e relembrar os falecidos (pois mentira nada mais é do que exalar as aventuras mortas que tivemos em forma disfarçada), sempre tinha uma história falsa na ponta da língua e o mais fantástico: tudo partia de uma verdade.

O cão era pura felicidade, mesmo sem ser amado, amava. É o dom do cão! Nesse mundo problemático onde todos estão quebrados, ele continua granindo para os carros e cavando à procura de pertences inexistentes.

Certo dia, um belo dia, colocou a coleira no animal para demonstrar seu poder e arrastou-o para fora de casa. Ele não queria ir, mas não há diferença entre querer e não querer. Não para um cão que segue o destino sem reclamar.

Andou, andou, andou. Ele não se cansava, havia tempos que não tinha tal disposição, não parava de ir em frente e o cão latejando de solidão ambulante seguia.

Encontraram um poste, local onde todos caninos se redimem e lá ele ficou. O homem contra aquilo não tinha como lutar, era a natureza. O animal esperto enrolou, demorando muito e fazendo seu dono suar. Os dois continuaram lá, por anos, décadas, milenios. Nada ia, nada vinha, tudo era desejo de contrariar. E o cão ao final de tudo subiu no colo do seu amor e urinou numa demonstração de afeto inusitada. O homem nada fez a não ser reconhecer que a única esperança que o alimentava se chamava Pedro. Seu profeta, seu homem, seu dono, seu cão.



J, M.

Sonntag, 10. Oktober 2010

Contrastação

A despedida foi consolidada. A minha consolação reside no fato que está no beijo não realizado, do desamor fraterno que tenho pela vida, agora preso em ti. A singularidade múltipla do teu olhar esvoaçante e preguiçoso repousa sobre minhas mãos agitadas - ao menos era assim que eu achava. Do teu pé, sulco envenenado, trago palavras aleatórias num constante fluxo de memória restrita, dúvido da veracidade dos teus pormenores que me seduzem.

Palravras eram tudo que eu transpirava, num desejo de quero mais encolhido em meus ombros caídos. Eu me fazia história, num momento histórico da minha vida; onde tu és rei e eu, como teu vassalo, suporto-te. Não que suportar-te seja um fardo, mas é difícil amar sem saber o que é isso.

Regorgitando pecados antigos, insinuando casos para esquecer do nosso casco de encalço inebriante que nos prende. É na tentação que escrevo, mas de maneira sutil sendo assim contraditório.

Percursos já percorridos em mutantes situações transcorridas. Não posso dizer te amo, pois a colocação pronominal errada estaria. O amo-te remete ao presente; entretanto, nesse instante, só nesse eterno instante eu queria dizer amar-te-ei. Escondendo assim o futuro presente com pronomes para não me envergonhar.
Enfim, envergonho-me do meu amor demasiado, pois é do meu instinto amar tanto e não ter a certeza da correspondencia, não arriscar para não perder, ficar na fábula descontente para ter o que escrever. Ao invés realizar porque a realização é uma morte. Tu és demais. O pronome deveria estar em outra pessoa, e do plural. Mesmo assim me desespero solitário, solicóquio pendente imaginando o dia em que o beijo será selado num postal retroativo do dia em que nos conhecemos. No céu, na praia, no teu coração.

Lembra da frase que eu disse? "Não foi tu, foi teu passeio"?
Ela tem múltiplos sentidos. Talvez agora consigas entender melhor sem o ofuscamento da brisa marinha.

E amo e me desfaço... E beijos para a rosa dentro da Rosa... E desculpas...


J, M.

Donnerstag, 30. September 2010

Contentação

E a vida saltita sem pó de pirlipimpim ou mágicas afins. Ela destrói, corrompe, enaltece e desvia, é simples assim. Sem rumo, sem dor, sem nada; tudo é uma questão de referencial segundo a física e fictício se falarmos em literatura, a exatidão matemática nem comentarei, das falsidades é a dona-mor. E fria vai passando por todas as pessoas, tentando encontrar um posto de fuga, sem nem mesmo ter um de entrada. Nada mais assusta, pois se há uma razão para o medo, esse seria viver a vida intensa. O dilema de todos e de um homem chamado Zolí.



Zolí. Nome estranho de gente esquisita, para um mero normal, mortal e moralista contingente. Mãos de peixe aquoso, queria contar isso a todos mas preferia esconder, era culpa da lama que lhe inebriava os olhos. Não bebia, não saía, era só. Uma borboleta num eterno casulo camuflado dentre as folhas, era noite. Nesta hora a insônia é sua companheira, a mesma que o aflige e o alimenta. Sem casos ou descasos, era parte do fluxo contínuo de vento que passava pelas janelas e saía pela porta quando esta encontra-se aberta. Quando fechada, entra-lhe pelas narinas reverberando por todo seu corpo, causando-lhe a sensação de não-existência, claro que a porta estava sempre aberta. Telefone toca, uma ligação da "amiga" (na sua concepção, apenas mais uma mulher indigna de um flerte) pedindo abrigo . Ele disse ao telefone que agora não, era muito tarde. Ela respondeu-lhe: mas já é muito tarde para ser tarde.

Aceitou a visita. Enquanto isso se deitou no sofá e levado pelo som inebriante das árvores companheiras, cochila. A "amiga" entra sorrateiramente, fechando a porta com uma sutileza misteriosa. O vento que nunca cessa, agora encontra a porta fechada e dirige-se ao seu rumo nasal. Ele suga-o sem nem mesmo saber. Acorda repentino de um sonho ladino e olha para seu corpo chocado: estava bonito, nú, estava diferente, estava.

Olha para todos os lados num giro de 360º, agora sentia mais vontade ainda de contar tudo e não ser ouvido, estava louco mesmo... No canto da cozinha ouve um tilintar de talheres, é ela. Batendo com garfos no chão, fazendo ruídos na escuridão, onde a única fonte de luz era o cabelo de Zolí, que reluzia roxo de brotoejas picantes. Mirava-a sem querer acreditar no que via, era muito sangue para apenas uma pessoa que tilintava talheres! Jogou todos os móveis para um canto e ligou uma vitrola, nem sabia que música era, nem importava. Pegou sua colega pelos braços escorregadios e conduziu-a pelo chão, deixando-o marcado com aquela cor clichê de amor, dor, sangue... Não fazia um desenho, muito menos um traço e sim um festival de cores abduzidas num único resíduo rojo. Ela muda, calada, não achou nada estranho, nunca notara que podia existir algo estranho em alguém naquela casa. Sonhos doces, rodopios celtas, agressões sadomazoquistas e todos os sonhos realizados num tempo que nunca ocorrera. Um botão na camisa dela começou a mover-se e sucessivamente todos os otros saltaram, compondo uma balé abotoado sem sequer haver um zíper para atrapalhar, até o vento havia parado. Todos procuram por algo e o algo está ali. Agora. Filas de seres estranhos concentram-se na porta esperando a chamada. Ele subitamnete revela: meu corpo está quebrado e tenho pernas e mãos de sapo. E medo, medo, medo. Não de me recusarem, mas sim de ser aceito e de ser mais um normal como voces, inúteis! 

O aglomerado da porta se joga no chão, sacudindo-se e vomitando lamúrias de uma vida seca e cada um desaparece ao badalar do sino louco e intenso. Zolí repousa e diz para ela: pronto, agora eu disse. Mas e agora, o que faço?
- Agora? Agora é tarde demais para ser tarde. E a tarde já se foi tardia.

E num desespero aflito ele a engole num lapso de memória e, de tão estufado pela verdade, cai duro e intenso. O vento começa a passar e, ao invés de seguir o habitual curso nasal, agora segue o curso das marcas deixadas na cozinha, num zigue-zague constante de felicidade sóbria e infinita.

 P.s.: 30 de setembro eu ganho parabéns de várias formas, de tudo e todos. É isso!

J, M.

Donnerstag, 16. September 2010

Maldição

Itália. Lá, ele se encontra agora. Neste exato momento, seja lá quem for, seja qual forem os seus problemas; lá, ele para sempre estará. No mesmo quarto onde nascera, antes florido e engraçado, agora morno e desencapado. Na mesma cama adornada de jóias raras. Por você ele larga tudo, mas continua sobre sua cama. Ao lado, um banheiro com um espelho. Do outro, a janela. Num meio, perdido naquele espaço oco e negro, a cama que reserva o sono eterno para quem nela deitar-se e se deixar levar pela inconsciência ao som de uma bela sinfonia perdida. O espelho, refletor difuso, neblina os olhos e ofusca a luz. A janela, espelho concavo, concentra os ares empoeirados ao lado do chão; não chega a tocar, apenas faz cocégas inebriantes, coisa de uns minutos, mero acesso de raiva. Estirado sobre a cama, analisa o teto vazio e sem medo, dizia palavras de amor, sonhava com o sexo sem pudor, estava preso no quarto havia sete anos. O tempo lá passa arrastado, sem ninguém ao seu lado. Se fechasse a janela acabaria consigo, não possui mais amigo e nem animigo. Dizia que se parasse defronte o espelho você seria sugado. Mas o que é a vida dentro de um espelho, que possa ser pior do que um mero cotidiano de reflexos sóbrios numa cama? Não há ganhos nem perdas quando você não sabe o que isto significa. E ele nem falar sabia. Não tinha nome nem vestido, era filho de Cristo, Gandhi e Dalai Lama; importante era a fé que este possuia em excesso. Nuances da lua ao iluminarem o teto, revelavam o afresco paradisiaco ali pintado há muito tempo, ou agora neste momento o importante é pintar. Uns ruídos vinham daquele banheiro estático, o que provocava arrepios. E se ainda provoca-os em você, é sinal de que seu planos são mais rotundos do que os olhos daqueles que lhe escrevem. Um corte lento e profundo corrompe os que pairam sobre a cama , o que no momento é pertence de um único homem (mulher?). Os pés rotos saem da cama para fora, o tamanho é algo que varia de acordo com a intensidade da lua. O homem, ali, sacrifica-se com a mais pura vontade de morrer. Vive. Dentro daquele enorme saco plástico sem ar, o ser sobre a cama nunca abrira os olhos, havia conquistado o dom da visão sem ter essa necessidade. As mãos são sempre frias e moles, que de vez em quando escorregam sobre os lençóis amassados. E um vento nunca antes visto, ouvido, sentido ou tocado balança na porta que nem sequer sabiam existir; o vento domina, é vazio, é cheio. Fecha as janelas, levanta os lençois e limpa o espelho. Aniquilado assim o dom da previsão. Você ver-se forçado a abrir os olhos. E aí, nota ser um cego; do banheiro silencioso sai um lobo negro que vai ao seu lado e repousa. Para consolar-lhe, a morbidez do quarto sempre tão estreito - agora flutuante. Dos negros pensamentos, criam-se obras de arte com o cão ao seu lado sempre a observar-lhe na espera pela sua entrega. Pronto para te devorar.



J, M.

Freitag, 10. September 2010

Como vai depressa

Era o já conhecido taxista, lembrou-se graças a memória estatística. Um dos 10 mil deste ramo naquela cidade, a presença do outro não o incomodava. Gostava de táxistas, eles não usavam uniforme.
Tudo acontecia a uma grave distância, era a acomodação sulista. Presentia uma chance e fisgou-a - sempre tivera esse desejo secreto desde o nascer herdado da irmã mais moça de sua mãe -, agora podia colocá-lo em prática. Enquanto isso apitos de trem ressoavam e gemendo perguntou ao táxista:

- Você já viu um cara morrer com gás?
- Não. Nem quero conversar.
- O quê?! - indagou indignado
- Olha, meu nome é Francês. Sou francês e meu nome traduzido significa CHUVA DE VERÃO, mas ninguém dá a mínima para a chuva quando se tem o so...
- Vamos direto ao ponto. Recebi uma carta hoje, é sobre você, aliás é sobre você (dizia isto com um gosto de domingo na boca). São notícias de amigos e talvez sobre teu ser.
- Estou assustado. (mesmo se não estivesse não saberia o que dizer)
- Qual a sua opinião ?
- Suponho ser este o momento para o perdão e a reconciliação - diz isso ajoelhando-se e fazendo suas preces.

A leitura da carta começa em tom epíscopal.

- Miriam oferece-lhe um mil reais se você usar o elefante como único meio de publicidade. Exige resposta imediata. O que devo dizer a ela ?
- Convide-a para participar de minha vida, ser minha família.

Entreolharam-se com um gosto de começo de ano nas ventas, que preocupavam-se em escrever a carta-resposta.

"CHUVA DE VERÃO,
 
Foi muito bom obter notícias suas, mando-lhe lembranças. Quanto ao seu convite, é um começo".
Com carinho. Miriam.

- Que alívio, fiz um começo. Diga a ela para extrair o fim agora... com uma pinça!
- Com luz também?
- Não tem luz.
- O que há?
- Não tem luz!
- Pois não tem mesmo.


J, M.

Dienstag, 7. September 2010

E eu e eu

Eu tenho o verde, eu tenho os pássaros, enfim tenho o mundo em mihas mãos.
Toco e sinto sendo contraditório e alheio, vendo as pedras que choram sozinhas paradas ao luar.
Eu entendo a mentira como forma de sonhar. Eu não juro, pois seria traição.
A cada desejo eu sinto uma nova forma de amor incrustado nas pétalas da flores abismadas pelo ofuscante sol que derrete meus temores.
Não quero nada além do que tenho. A cada dia me encontro mais, e das palavras sou vassalo eterno.
O fim das flores é morrer, bem sei. Mas enquanto existem são alimento de borboletas despedaçadas pelo terremeto de poluição.


A qualquer dia eu posso me desfazer como criança que pede doces e se derrama sobre o açucar diabético.
As moscas carregadas pelos dejetos dos dias abastecem meu amanhecer. qualquer coisa pode tudo estragar.
E eu... Eu posso tudo mudar.


J, M.

Donnerstag, 2. September 2010

Adeus de supermercado

Foi lá, dentre latas de pêssego e ervilha em conserva, no mais puro estado de inércia, o repouso lhes era fundamental, o fundamento era a estaticidade. Lá, eu vi tudo arruinar-se. Eu na esquina já próximo do sabão em pó, extremamente perfumado e contraditório neste momento, a espreita das bebidas alcoólicas, prestando atenção nos mínimos detalhes. Biscoito recheado 00.84$.
Foi tudo por um motivo tão banal a meu ver, culpa da inflação! Ah, o maldito contracheque! Eu ainda lembro bem, foi logo depois de eu ter visto o preço da barra de cereal. É como se o acontecido tivesse acabado de acontecer.
Ela encarando-o com seu tamanho desprezível em relação a lata de azeitonas ao seu lado. Porém diante dele ela era mulher, agigantava seus olhos que eram do tamanho da lua, entretanto negros e atemorizantes; o romantismo dos poetas perante àquela lua derreter-se-ia até chegar no estado do alcool em gel, virando à esquerda o próximo corredor.
Na hora ele se calou, apavorado temia o pior. Deixou-se entregue ao sentimento nostálgico que vinha da banca de revistas logo depois do caixa; os postêres de filmes que haviam assistido juntos, os últimos lançamentos que já lhe eram tão conhecidos, as embalagens perdiam as cores vibrantes da propaganda e faziam-se meros conjuntos de cores abstratas que deixavam o pensamento vagar. O que a vida havia feito da vida deles?
Tanto faz, ele já havia esquecido o que era ser. O desejo, a cor, a nostalgia o faziam delirar; ele só queria ela perto, dentro dele, a inocência pairava no ar, ele tinha apenas tocado, ele não queria traí-la.
Os eletrodomésticos no corredor à direita, com tantas funções! O que ele havia visto era tão simples, inútil talvez, mas desejável; ela com ciúmes não queria explicação de um marido ou homem, havia visto as suas intenções sem nem precisar senti-las, viu a maneira como ele olhou aquilo bem rotulado e devidamente embalado. A maldita lata de ervilhas!
Com aquele verde-oliva ele havia se deixado encantar; aquela sensação deliciosa em sua boca, meio salgada, meio sem gosto, talvez doce em boa ocasião, talvez amarga naquela situação. Fato é que deixou-se corromper, 3.99$. Um absurdo!
Ela não podia tolerar aquela situação, não aguentaria a acirrada disputa. Pegou as ervilhas, jogou-as no chão, o verde dissipou-se no meio do corredor, o pranto saiu em forma de dor, o coração pulsava com tamanha perda, o desespero era nítido como o som que me era óbvio; o som do vidro quebrando-se em contato com o chão duro e aspero.
Chegando ao caixa ela teve que pagar o vidro, mas saiu satisfeita. Seu marido já não causaria mais problemas, ela para reanimá-lo comprou-lhe uma barrinha de chocolate, 00.38$. Imperdível!



J, M.

Samstag, 28. August 2010

O que o tempo leva

     Vontade vadia de jogar-se ao chão...
     Encosta sua cabeça anuviada na fumaça negra da almofada, sente o corpo esparramar-se pelo carpê. Não sabia de sua história. Com dez anos havia tido sua primeira glória, agora tão próximo do final sua história de amor acabava de começar, as janelas apareciam destroçadas e junto delas o dejeto do dia anterior; ele amava sua prisão, mais dez anos se passaram e o conjugê ameaçado de extinção continuava a tentar reanimá-lo. Era um lindo garoto, limpava a casa, fazia a janta, desejo constante de alimentar o vazio interior. Despido, realizava-se sexualmente junto de seu parceiro inerte de corpo igualmente prazeroso; eram dois lindos garotos, recriminados pelo ato do esconder. Duas rainhas dançantes, duas vidas fumegantes, tatos, barcos, sem o vento necessário nem ao menos havia a bendita maré de pesadelo da vida lá fora. Dentre tudo era pacato, beleza resguardada pelo feudalismo inapropriado para a época, um mundo doce de noivas vestidas de negro numa floresta de duendes chapados, uma inocência reprimida que despojava tentações sem posseções.
     Eles eram uma partida de futebol, onde os jogadores apenas empurravam a bola sem o objetivo de marcar pontos e a grama crescia indiscriminadamente tomando conta das bocas salivantes que as alimentavam, dominando o estádio rumo ao céu azul inerte que sacrifica seus pássaros em prol de uma ideologia.
     Eles não possuíam cor favorita, apenas coisas boas jaziam em seus olhos. Faziam questão de não registrar os momentos, tudo era como se nunca houvesse existido, eles não ligavam , não havia a tomada de um partido, apenas conselhos de um mestre sabiá que todas as manhãs pousava sobre a janela, defronte a fachada estonteamentemente colorida por todas as cores.
     Em cada raio de luz o sabiá anunciava sua passagem por ali, ele sabia não existir preconceitos naquele antro. Então vinha despido de suas plumas e dançava frenéticamente a procura de um par; um dos dois, um de um, um balé secreto que teimava em nunca terminar. Mais anos se passaram, ambos jaziam ali naquela caverna lapidada inundada por verdades nunca antes vistas, o corpo estendido no tapete respirava ofegantemente, previa a necessidade de uma mudança. Vrum-plaft-toc. O sabiá cantou pela primeira vez. Sabia que a mudança sempre esteve ao seu lado, dali em diante percebeu que nada era tão importante quanto o momento não registrado; ele queria sempre estar ali, ao seu lado seu companheiro alado, lado-alado, gritavam de felicidade, liam livros simultaneamente em voz alta, cozinhavam, nunca traíriam, por um anel de diamante batalharam eternamente e o conquistaramT terminaram cegos pelo cansaço da busca, comeram sua última torta de maçã e o pássaro agora muito bem emplumado pousou no nariz de um deles, e do nariz do outro brotou uma ave inerte a qualquer movimento. Acasalaram-se. E ali proliferava-se o novo sistema em forma de Deus.


J, M.

Montag, 23. August 2010

Soberania

          A cada toque da guitarra ele abstraía-se. Rulfava tambores, comia pêssegos, cuspia poesia. Ao tocar da gaita ao lado ele suspirava temores, batendo à porta o homem que desejava falar, mas ele não ousava escutar. Olhava para ele e via as luzes da guitarra que agora dormia tocando insinuates harmonias desajeitadas; ele não sabia o por quê, ninguém havia avisado que a parede não podia mover-se. Enquanto isso a guitarra ruflava.
         Estático, estática, eram simetria. Estaria ele no segundo andar? Subia cada vez mais, sentido o vento nas narinas e as palavras no sangue. Ele pertencia àquele lugar, pois no momento não pertencia a nenhum outro. As flores desabrochavam de seus pés, vermelhas e cálidas, tragando a fumaça nicotinada que saía de suas entranhas; voltara a estudar, nada é sem propósito. Vivia da constante aprendizagem, via o mundo cada vez mais belo, o telefone agora tocava. O teto havia desaparecido para assim as estrelas poderem ser admiradas, todos podiam ouvir os seus gritos. Saíra de seu lar havia muito, depojando-se da ultrajante instituição família -  o centro dos maiores crimes e assassinatos da arte. Bebia da fonte puríssima, ninguém podia encarar aquela falicidade; no sofá de estrelas ele tomava um banho de chuva, como num cinema ele engolia pipocas sem respirar, abrira todos os oríficios para captar a mulher que agonizava no fundo do poço. Mais uma que clamava por piedade.
        Foi ao vácuo, lá o som não propagava-se. Deitado sobre a terra ele brincava de Deus, modificando a voz dos personagens e humilhando os soberanos da nação, despia-os, logo após os fazendo comerem milhares de melancias para jogar fora os caroços. Rejeito maior não podia ser, cuspir grãos de vida em terras antes desérticas brotando seres e aniqulando morte.
       Era descontínuo seu pensamento, gramático errante de calças vermelhas. Jorrava vermelho por todos os lados, manchando a tinta antes branca, deixando sua marca, entrando para a história dos perdedores, conhecendo seus temores, apaziaguando seus odores; tudo era podridão incessante de um destino lastimável.
Andava de lado. Chegava atrasado.Tudo para ser mais elegante. O que seria a elegância. senão o ato de pedir desculpa pelos erros não cometidos? A guitarra já caíra ao chão, musicava sozinha um canto fúnebre; ele descia de sua ilusão esmeralda, como pedra rumo ao colchão plumático, perfurando-o e jorrando vento.
Uma coroa residia sobre sua cabeça. Andava rumo a porta, sabia que se abrisse voltaria para a banalidade cotidiana, mas pensou em fazer daquele sofrimento sua última obra. Era tudo que sobrara. 
      Abriu. Lá fora, ardia um fogo macio e intenso; um fogo negro de magia arcana. Lá estava a menina, o telefone a tocar, o desespero na esquina, a máquina a cortar. Ele era do mundo, o mundo era dele. Cheirava alegre, pois havia sonhado e nunca mais acordado. Ele era águia, caçadora voraz que destila seus objetivos pelos oceanos nunca antes vistos, comendo camundongos recheados de cor, insinuando-se com um único e breve objetivo: a salvação do mundo.



J, M.

Mittwoch, 11. August 2010

Um quarto de hora

É tão fina a beleza do efêmero. De uma fragilidade só. Quinze minutos é o tempo necessário para a perfeição. Quinze minutos é todo o tempo do mundo para a perfeição. Quinze e nada mais. Claro, assumindo-se que a perfeição só existe como ideal e, a partir daí, que, quanto maior a liberdade para idealizar, mais perfeito é o momento.
Uma mulher, por exemplo, acaba de conhecer esse jovem rapaz. Estão em uma festa e ele olhou para ela desde que chegou, mas ela não sabe. Ora, ela está muito bem acostumada a ser notada e realmente está acreditando que ele não a notou. E realmente encara isso como um problema, porque não pôde deixar de notá-lo.
Os dois têm amigos em comum e começam a conversar. Sentem-se atraídos instantaneamente. E se dão conta de que gastaram um tempo precioso no joguinho que estavam travando. Ela tem quinze minutos para partir, de modo que, no segundo seguinte, eles se beijam.
Frases são ditas de uma boca para outra, mas eles não se separam o suficiente para que consigam distinguir o que é dito. Não há tempo para mais nada. E só o que precisam é mais tempo. Está aí a perfeição.
Quando se despedem, guardam cuidadosamente o olhar brilhante um do outro, o sorriso de agradecimento, e o toque leve das mãos antes de se separarem. Detalhes importantíssimos que farão esses quinze minutos durarem uma noite para ele. E, quem sabe, duas para ela. Não se verão novamente. Mas há aí todo o material para a perfeição. Sempre que quiserem lembrar dela.
Acrescentemos aí mais cinco minutos e um número de telefone e – vou aceitar por puro romantismo – eles terão uma ou duas noites maravilhosas. Mas nada de perfeição. Ela dura quinze minutos. Nada mais.




 J, M.

Montag, 9. August 2010

The telling (2)

De novo eu vou falar de como é difícil.



Todo mundo tem o direito de não gostar de alguém, de se sentir desconfortável e de evitar. Isso pode ser feito de várias maneiras e, algumas, podem beirar ou simplesmente ser a hipocrisia. Quando se tenta fazer isso da maneira mais direta possível alguém te chama de "escrotinha de merda".

É difícil fazer quem você não aprecia compreender isso. Ninguém gosta de ser rejeitado e as reações dificilmente são pacíficas. Todo mundo deixa um rastro de dor, de incômodo, de malícia por onde passa... só porque tem alguém que não lhe afaga. Essa facada no ego se transforma em coisas como comentários maldosos, desprezo ou em "escrotinha de merda".

O difícil não é demonstrar que não gosta, mas lidar com o que vem depois. A indiferença aparece como uma solução pra ambos os lados, porém não é praticada. É difícil praticá-la com a mente sossegada.

Pode ser pesado não gostar, demonstrar e ter que ouvir um "escrotinha de merda". Por quê é tão difícil entender e aceitar que alguém não te quer por perto? POR QUÊ?!

Por que quem está de fora não consegue discernir o que é cada coisa? Uma das coisas mais difíceis de não gostar e querer deixar bem claro, é ter que ser tomado como o algoz, o errado e merecer esse mesmo julgamento automático de quem se diz seu amigo.

Eu entendo que seja fácil xingar e ficar offline. Mas procure praticar a compreensão e o bom senso. Exercite o seu ego pra que ele entenda quão possível é que alguém simplesmente não te queira por perto, porque ele não aprecia suas atitudes e não concorda com sua postura.

Pois assim, eu repito:

"E daí que ninguém é obrigado a aturar babaquice alheia. Isso serve pra nós".

Repito a necessidade de me fazer respeitar. Está mais do que na hora.


J, M.

The telling

É difícil não ter alguém pra contar.



As pessoas não gostam do que eu sou de verdade. Elas preferem quando eu finjo. E fingir o tempo todo só pra ter amigos é difícil.


É cruel não ter com quem compartilhar verdadeiramente as coisas de que se gosta, porque não é bom falar pra alguém que não se importa. Não é bom fingir que se importa.


Parece que à medida que menos me reconhecem e valorizam, mais eu procuro novidades pra me embriagar. E mais me isolo porque quanto mais novo é aquilo que faz parte da minha vida, mais difícil é compartilhar e fazer o outro entender. Só entender, não é aceitar.


Dá pra contar quantas pessoas me fizeram suspirar de alívio: "Ele me entende, ele me enxerga". São pessoas muito parecidas comigo, muito mesmo e, consequentemente, com quem eu menos convivo. Justo pela igualdade. São as que têm os abraços mais confortantes e onde eu afundo na paz de ser eu mesma. E onde encontro o inferno do meu reflexo.


Eu estou falando de amizade sim.



Não sei quem inventou que a graça das coisas está na diferença, porque é claro que muitas vezes isso não funciona naturalmente. Alguém precisa fazer funcionar. Isto pode ter diversos sentidos: ceder, tolerar, submeter, desaparecer. Tem gente que desaparece sim... na risada dos outros, no abraço alheio que não alcança nada, em horas e horas de conversas que na verdade são barganhas.


Tem gente que bate o pé me chamando de arrogante. Eu desconsidero e isso só faz inflamar a situação, pois quem diz isso tem arrogância o suficiente pra dizer diretamente a mim. É perda de tempo levar isso à sério. Quem me chama assim quer medir sua diferença e... não existe. Eu sou arrogante, mas é mais plausível ouvir quem me diz isso de forma esclarecida, do que de um cego teimoso, pois eleva o debate a um nível justo.


Não deveria dizer essas coisas aqui, mas é difícil não ter pra quem contar e eu preciso.


Preciso dizer que não gosto de ser humana, não gosto de precisar ser reconhecida e valorizada. Não gosto de tentar ser verdadeira e ser às vezes ser execrada por isso. Assumir que não sei me vestir, que não sei me portar, que não sei ser pontual, que não sei tolerar, que não sei me adequar, que não sou muito do que gostaria.


Uma vez disseram a meu respeito:



"São poucas as pessoas que aceitam os seus erros, e sabem que são erros, e se sentem mal com isso. Todos tem defeitos, mas raramente os demonstram sem medo. Pode parecer um insulto, mas na verdade é uma demonstração de caráter, retidão, e fidelidade acima de tudo a pessoa mais importante que teremos na nossa vida. Ela mesma".


O que disseram é verdade. Já faz um tempo que de alguma forma aprendi a lidar com os erros e defeitos, pois em dado momento obscuro da vida percebi que não dava pra fugir pra sempre.


O fato de não tentar iludir não significa que está tudo bem. Não quer dizer que eu não chore mais e nem me importe.


Preciso não deixar mais ninguém me subestimar, me julgar a pessoa errada pra outro alguém, me considerar dispensável, me considerar burra por não me interessar pelo mesmo que os outros.



Talvez eu precise me adequar. Talvez precisem aprender a me respeitar.


É importante ter alguém pra dividir isso. É preciso dividir isso comigo.


 
 
J, M.

Montag, 26. Juli 2010

Matérias também brilham


Só acredita no ontem, antepassado do dia que passa e repassa por milhares de pessoas. Pessoas? Não, não são pessoas. São apenas matérias vivas, partes da construção civil que implica no desenvolvimento de uma sociedade burra e eclética, julgando os que enxergam os diamantes dentre as pedras duras como loucos. Filmadora na mão, parte.
Partiu o pão – filmando - jogando as migalhas para as palomas esvoaçantes que eriçavam seus cabelos com o refloar de seus punhais. Sim, punhais; pois asas nada mais são do que meios para um sacrifício rumo ao céu. É o inverso de pé. Pedrada ofegante que cai incessante das estrelas que se derretem vermelhas e sedentas por reprodução; mesmo sendo estéreis, pois elas são a impossibilidade cretina do brilho que não perdurará eternamente. Elas o sabem, mas os que as vêem irão para sempre contemplá-las, sempre estarão lá com seu poder que cega os que nunca antes ousaram ver;  de dentro delas sai um limo verde que contamina os pés apunhalados. É liso, viscoso e não deixando assim os pés caminharem.
Atrito volátil que se transforma em dor, todas as coisas que se transformam. Eterno é somente o brilho das estrelas que como elefantes esmagam a terra, pois são partes dela. São grandes, fortes, inúteis e belos. Como até a beleza nauseia; vomita diamantes que brilham mais do que estrelas, eles viviam dentro de você desde que eu senti que não havia mais espaço para mim. Você era o espaço. Lançadas as luzes catarrentas ao chão, elas começam sua peregrinação contaminando cada ser vivo, incubando moléstias em cada resquício de sentimento. São punhais de vento, cuja dor eu sinto ao sentir sua falta.


 P.s.: Feliz aniversário, Mark. Sinto falta do seu papel de irmão mais velho.





J, M.

Montag, 3. Mai 2010

Baila

Se a dança não lhe era convidativa, ele encomendava uma ativa, bailava esperando uma notícia surpreendente. Talvez o cair de um dente ou quem sabe um nascer de gente, mas nunca se sabe. Diziam ali ter existido dentes-de-sabre o que podia ser verdade, mas onde estariam os matutes neste exato momento? Bailando com uma serpente rumo ao Éden? É de se assustar como sua imaginação fluía, tinha refluxo, hemorragia, taquicardia, vazamento da vesícula biliar. Adorava jogar bilhar às quartas; as quintas ia para feira, logo depois vinha o sábado e a semana estava a recomeçar. Cassar lhe era um esporte benquisto, brincar de Deus, matar um Cristo! Errava o passo uma ou outra vez, mas logo se recompunha dançarino exímio.
Examinava pacientes de todos os lugares do mundo. Mundano era seu centro familiar. Familiarizara-se com o ato de chegar em casa e fazer um escalda-pés, escandalizado sentava no sofá, ao lado o livro de física quântica e de quanta coisa tinha a ensinar. Assassinou-se no banheiro da casa vizinha, após provar do jantar e saborear a menininha. A vida era chata, os calos nos pés doíam muito, embriagara-se de novo e estava sendo levado da mesa do bar; apenas intrigava-se, pois ao que lembrava a vida havia ficado no banheiro, morta. E onde o estariam levando? Nem importava mais, o whisky importado era demais, demais demasiado desmaiou, inconsciente, levado ao hospital de maneira urgente. Havia falecido dormindo.




J, M.

Montag, 19. April 2010

A espera

O vento traz o sabor do seu fel, o feeling é inacreditável, acredito apenas no que é notável. Ela está próxima.
A proximidade é inaceitável, sinto-a do meu lado sendo que perto de mim não há nada que não seja meu, logo ela está por vir... penso que isso possa estar sendo causado pelo meu desjejum, pois hoje durante a manhã quando acordei, sem vontade de acordar, tomei um café preto e inescrupuloso, temperado com açucar; o que diminuia minha ansiedade e aumentava a percepção da realidade.
Já podia ouvir o som inaudível do seu caminhar lento e penoso, mas com a alegria de quem dá seus primeiros passos, passos passados que remontam o meu futuro próximo. O medo e o inesperado já me consumiam, eu era consumação. O cigarro já aceso, começo logo a pigarrear. A sorte me era contraditória já que afinal eu a esperava por anos sem cessar e agora quando quero apenas viver em paz ela vem ao meu encontro dar-me a sua paz.
Olho procurando dentre a fumaça que me neblina um referencial para me apoiar. Aquela espera já me conduzia a dores nunca antes sentidas, mas o que me consolava é que o para sempre sempre acaba.
Finalmente, sinto seu toque, frio, sedento por meu prazer. Eu sabia que o meu destino era morrer no seu destino; ela me atiçava prometendo-me vida eterna ao seu lado, fazendo-me desejá-la ainda mais, criando em mim a expectativa de enxergá-la. Começo a procurar dentre a turbulência sentimental e suas ações atrevidas, cansado dessa espera eu me fiz ação.
Levantei-me. Logo depois caí, e finalmente pude vê-la! Negra como o meu café, porém amarga, gozamos diversas vezes naquele clima de realidade inexistente. Eu não era mais meu, ela nunca havia sido minha, mas agora eramos apenas um. Eu e ela. Nós. Morte pura e simples.



J, M.

Donnerstag, 15. April 2010

Dia 14

Ontem, foi quente. Muito quente. Aí, tive que sair. Sair do ambiente mais tranquilo em que eu podia me encontrar naquele exato momemto. Isso dói. Pelo calor, pelo esforço, pela chatice, pelos gritos de "demônios" não educados. Mas ainda assim saí, era uma ordem.
Levando a máquina na mão, não senti raiva nem nada - até fiquei felizinho de poder sair àquela hora. Cheguei, esperei dois ou três minutos, não lembro. Aí andei um pouco com a pessoa que me pediram para procurar e pronto, já estava na correri... mas nem foi tanta. Foi de sala em sala, mais gritaria, calor, abafado. Tirava quatro fotos, ouvia uns comentários infames e via poses de gente já ridícula ou com um potencial imenso para se tornar a mesma. Mais piadas infames, e da minha companhia. Aliás, não irei mais usar companhia, melhor usar GUIA. Era isso que aquela bendita era (ou maldita).
Aí, eu voltei. Sentindo o suor, que até pensei que eram partes do meu corpo derretendo. Apesar do ar gelado do carro, ainda assim sentia o inferno em que me encontrava sem poder fugir. Suor, suor, suor. Uns sorrisos amarelos e simpáticos, porém sinceros. Era um senhor simpático, sem noção mas simpático. Chegando ao ponto de inicio conversei com gente que jamais havia falado, e mesmo nem sentia vontade. Eu não faço questão de muita coisa, como muita gente já sabe. Mas foi isso, eu sobrevivi, meu corpo e espírito ainda continuam intactos.
O que é triste? O calor, o inferno.


J, M.

Reciclagem

Ouvia-o com paciência milenar, herdada de seus antepassados que naquele momento faziam-se presentes em seu corpo voluptuosamente incisivo, mirava-o com olhar invejável - ele ainda tinha uma vida pela frente. Analisava-o com indiferença adquirida pelos anos a mais de dor, ela já era mulher feita, sem feição. Uma doce ilusão que agora fazia iludir.
Ele com hemorragia verbal, contava-lhe tudo que para os outros era inaudível, tudo ali a beira-mar. Nos momentos de pausa dramática havia água para apaziguar/engrandecer o momento, a visão era infinita, transparente, translúcida, reverberante e ausente.
Lucidez já não havia. Era simplismente companhia. Tudo resumia-se ao som das ondas, instigava-os as ondas, elas não deixavam a típica marca de espuma branca que deixa os olhos repousarem, sem rastros, afinal rastros são pistas, rastros revelam um momento passado e aquilo era apenas presente.
Ela, vestindo sua camiseta branca, silenciava toda aflição; ele, com uma listrada, criava a turbulência juvenil que alimentava o momento. Ação e reação baseavam-se apenas em olhares que não viam nada e observavam tudo.
Sem crenças, sem remorsos, sem esperanças. Para o mundo eram nada o que pra eles era tudo. A calmaria já incomodava, ele mexeu-se. Sutilmente ela o observava, ele pegou uma pedra, atirou-a no mar. A pedra quicou. O som absurdo, totalmente imprevisto deixou-a chocada, pasma. Ela e sua camiseta, antes branca, agora gritavam. O vermelho consumia seu ser com olhos de fogo e cinzas no coração. Então procurou o mar, banhou-se, com os pés congelados, caminhava. O azul surgia aos poucos com sua serenidade profética. E ia cada vez mais fundo, uma bela e gigantesca onda esverdeada formava-se a medida que ela caminhava ao seu encontro. A onda quebrou.
Ele, atônito, observou a onda chegar aos seus pés e dessa vez havia espuma. Serena e branca.


J, M.

Dienstag, 13. April 2010

O personagem fora de hora

Existem coisas nada a ver, eu sei. Uma delas é iniciar um texto com essa típica frase.
Acontece que o personagem está enfermo, com uma pressão estranha no nariz, no trabalho, com jornais e uma revista de fotografia, tentando superar. Superar o frio, as conversas, o tempo e a falta desagradável de tentar sentir o cheiro do que for. Isso, aliás, é até um ponto bastante "engraçado", ainda que esteja distante. Mas acontece que o cheiro é algo primordial na vida do personagem. É, sim. Ele valoriza o seu cheiro, o cheiro das plantas, dos alimentos (principalmente se preparado por ele) e o cheiro do sexo; parece selvagem, mas se tratando do contexto em si e de maior e menor escala, tem gente que diz que só é mais do mesmo.
O personagem, alheio a sua arrogância e prepotência, se difere de questões existenciais básicas. Ocorre agora uma indiferença - calma, ainda é o primeiro ato, sei lá, às vezes pula -, mas ele não disse qual é ou mesmo  o que pretende ser. Voltando ao decorrente SEXO, o personagem se sente coagido... é... preso, impotente (não nesse sentido aí da sua cabeça), frágil. Ele quer sexo, quer selvageria, quer transar. Mas ele não sente cheiro. O cheiro ele precisa sentir. É o conjunto. Sexocheiro + momento. Ele não pode somar, e ficou assim a mercê da espera pouco conveniente. Ele sente mais tesão ao sentir o cheiro do companheiro, o suor, os batimentos cardíacos, o desespero de querer mais, de não saciar. De mais a mais, o ponto crítico dessa vida lôbrega por obstrução da narina, talvez se deva ao profundo nojo que o personagem sente de gente doente, e também de estar doente e que pessoas o toquem.
No mais, em meio a jornais e notícias, o personagem também soube de assuntos quentes que desencadearam discussões constrangedores. Mas isso é uma abstração. Essa discussão não existe. Onde inteligência, arrogância e acidez forçadas fazem sentido e conseguem ao menos coexistir? Não sei, é abstração. É abstração e não existe, porque dizem as más línguas que isso aconteceu no quintal de uma tal capital federal, por meio de alguém que planta batatas e tem 1 kilo de terra na cabeça, provavelmente deve lamber sabão e estampa um possível mestrado em abobrinhas. É abstração porque se deu fora do campo imaginário de rodas de cachaça e música caipira. É abstração porque de centro-oeste, Got Sei Dank, Norte não tem nada.


J, M.

Montag, 12. April 2010

Devorata

O show era seu como sempre, o corpo sóllido e totalmente flexível delineado pela vida, obtido da natureza tudo com incrível sutileza. O brilho no rosto, a música no corpo, os lábios descontraídos, a vida em si era uma descontração. Sem hesitação o magrelo menino foi ao encontro da popstar; ele era apenas um garoto, um garoto tolo, um garoto sonhador, era um garoto.
Ela se encantou com sua simpatia, ele encantou-se com o corpo, afinal, era só um menino! A dança durou horas e horas, era um ciclo viciante de abraços e carinhos, preparação para o ósculo, o impactante toque labial que descreve caminhos infindáveis dentro do ser. Ser ósculo. Glândulas parótidas começam a lacrimejar o seu choro de alegria. Seria amor ou desejo? Essa questão atordoava a garotinha com seus 22 anos, que olhava para o menininho com prazer e dó. Era seu garotinho, era seu dever protegê-lo .
Ela pegou-o no colo no meio da pista, saiu em disparada. Ele pequeno, volátil, quase escapava. Ela com sua natureza maternal recuperava o controle sobre o pequeno ser, chegando na esquina da rua onde situava-se a casa dela, ele caiu. Bateu a cabeça, morreu. Simples assim como ósculo sem fim.
O desespero de perder a vida atingiu em cheio a moça. Que perdeu seu desejo, que matou seu amor. Só restava levá-lo para casa, mostrar-lhe sua cozinha, sua cama, sua vida miserável, tomando cuidado para não acender a luz.
Jogou-o na cama, tirou-lhe a roupa, ligou o som, acendeu o abajour. Tocou-lhe os lábios, subiu na cama, pariu sua gestação infecunda, seu filho o asco devorei o menino de uma só vez. Ela começou a dançar e observar seu filho, um lindo menininho.

P.s.: Inventei agora. Não consegui conectar os fatos que eu queria contar, mas obtive um resultado mesmo que apenas eu o entenda


J, M.

Samstag, 10. April 2010

O homem que observava

Era rubro seu pudor, pele clara quase como o branco, palidez inescrupulosa, interesses artísticos variados, um homem sem prioridades nem direção.
Todo dia, o dia todo ele olhava os transeuntes pela janela de seu apartamento, situado no 6° andar do edifício Lunar, porta devidamente lacrada, vidros fechados e o maior cuidado para não entrar nem um espelho ou qualquer objeto que ele pudesse ser refletido, era o medo da rejeição.
Ele via as pessoas conversarem sem escuta-las, era prisioneiro das paredes, via as pessoas se tocarem e seu pudor aumentava, tinha um remorso invencível, ele já havia se tocado...
Manhã cinza e ele vê aquela moça passar, a moça por quem ele suspirava, aquela que andava sem tocar o chão, a menina dos gestos límpidos, andava sem rumo, andava por andar. Depois de um tempo sentava como sempre, sempre no mesmo lugar apenas para observar. Ele se identificava com ela, apesar dela ter a coragem que ele nunca pode nem imaginar, ele tinha inveja, pois ela sentia o mundo via tudo mais de perto com a janela do mundo na sua cara, ele sempre lá protegido em seu casulo, intocável, perplexidade humana que ele fazia questão de evitar - mas ele era.
Ela lá, com seus cabelos ao vento; ele vendo o vento soprar. O sentido de observar para um era aprender para o outro. Ele tentou lembrar das outras vezes que ela estava sentada no mesmo lugar, mas não conseguia. Sua memória estava presa como tudo nele.
No dia 6, manhã de outono, folhas e flores ao vento, lá estava ela a passear. Ela passando diante do seu prédio, ele queria tanto sair de si, mergulhar no mundo, compartilhar o que aprendeu nos livros e discos, mas era tudo muito profundo. E ele já estava sem fôlego.
Ela lá, logo ali, 6 andares separando-os, distraída observando como quem se autoanalisa com comparações fixas e inexatas. Sentiu seu corpo gelar, nunca esteve tão perto! Era só descer as escadas, mas ele tinha receio, já pensou se quando descer ela já tiver saído? Notou que o caminho era bem mais longo do que aqueles 6 andares. Precisava estar lá o mais rápido possível, já era hora de viver...
Ele abriu a janela, sentiu a brisa de outono, cabelos ao vento, escutou o mundo e com a maior coragem que qualquer ser pode ter, a coragem dos suicídas, pulou. Caiu. Sentiu tudo que não havia sequer ousado pensar.



J, M.

Donnerstag, 8. April 2010

Bonita Maria

Maria pra mim parecia princesa. Maria era nome de rainha. Ilusão a minha, é claro. Maria sempre gostou mesmo é de se fazer de plebéia. Ou era o que eu via. Não a via muito bem, eu confesso. Mas não era porque não queria. Maria, na minha vida, foi uma confusão de partidas.
Tinha os cabelos assim; volumosos e ondulados. E negros. Davam certa volúpia, quando soltos. Tinha aquela voz doce... aquele andar de mulher e aquele olhar de menina. E mais idade que eu ela não tinha. Mas sempre foi mais velha que eu, a Maria. Teve vez, e eu conto mesmo, que fui até ela e beijei. Cheguei assim e pedi um beijo. Ela riu. Eu ri também. Idéia besta essa minha. Mas queria saber como seria. Negar-me ela não ia... ou negaria? Pois não negou.
Nunca a vi chorar, mas sabia que sofria. Não o sofrer dos infelizes. Era aquele sofrimento bonito de se ver, esse sofrer de Maria vivida. Naquele sorriso de olhos meio fechados. Uma beleza de tango. Era vermelha, a Maria. Mas era só rosa que eu via. Claro que sofria. D’outra forma não se teria assentado do meu lado e, cantarolando, não me conquistaria.
Tinha uma liberdade tão vadia. A meninice da boemia. Com seus casos e coisas, carregava aquela risada alta e fina, fossem quais fossem os fardos que trazia. Ah! E era de uma petulância, aquela menina. Preferia ser chata a não ser ouvida. Contudo, vez por outra, punha-me bem no meu lugar. Vez, deixou-me consolar-lhe. Por outra, disse-me, de forma muito bem dita: “A dor dos outros não se tenta entender, que é falta de educação”.
De raiva que fiquei, roubei-lhe um poema! Nunca o devolvi...
Bem verdade que, desd’aí, nunca mais proferi que tudo havia de ficar bem. Agora, à guisa de consolo, choro junto. Porque dor que é dor não se conjectura.
Maria, cujo poema roubado eu ainda guardo e não leio. Maria que eu não conheci. Fico a pensar em quantos homens, no transladar do mundo, não tiveram como inspiração uma Maria. E foi Rubem Braga quem disse algo por assim: “Ah! Aos dezessete anos eu não sabia; a mulher que marca a nossa vida é sempre uma Maria”? Ou isso é meu delírio lírico?



J, M.

Sonntag, 4. April 2010

Carta de despedida

Sempre soubemos que acabaria assim. Somos muito diferentes. Eu e você. Mas, de alguma forma, demos certo. Eu sei que você me fez tão feliz quanto podia. A culpa é minha. Assumo. Sempre fui um ingênuo ambicioso. E isso fez de mim um cínico. Qualquer coisa menor que minha idealização simplesmente não servia. O que não quer dizer que eu não tenha sido feliz.
Sempre fomos companheiros. Já tivemos nossas crises e as resolvemos. E eu, ao contrário de muitos, sempre te aceitei com todos os seus defeitos. Sua mente pequena, seu jeito meio disfuncional. Mas não é uma crise dessa vez. É o fim. De repente, me vi escrevendo esta carta mentalmente. Pensando em todas as frustrações, no tédio, no desânimo e na falta de tesão que sinto, percebi que estamos juntos há tempo demais e que as vezes só o amor não é suficiente. Numa noite solitária, vi, fiquei velho demais, frígido demais para você. Não quero nenhum amor tranqüilo. Nasci pro mundo. E quero a paixão do cinema. Em preto e branco, quem sabe.
Não desconfie de mim por essa tristeza que sinto. É saudade de mim. De saber que nunca mais te verei com os olhos que tenho hoje. Sim. Eu sei que esse rosto há de ser quebrado. Que esse olhar vai perder parte do brilho. E é por isso que preciso partir. Há em mim essa ânsia por crescer. E você quer ser você para sempre. Não vou me delongar. Não vou te ofender. Não mais. Apesar de tudo, nós nos divertimos muito. No entanto, “diversão é diversão e o que está feito está feito”.
Preciso que você saiba que eu te amei. Amei, como disse, “Um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida”. E vou-me embora sem arrependimentos. Agora é a hora da sorte. Mas não vou perder as lembranças. Você é como a primeira namorada, é mais que uma memória, é quase uma entidade. E ainda vai me influenciar por muito tempo. Mas devo ir. Em busca de grandes amores, que você não pode me dar. Adeus agora, minha pequena...

P.s.: É, eu podia ter rimado. Mas que se foda...



J, M.

Donnerstag, 1. April 2010

Srednem za denʹ

Abre parênteses (Somos todos meio desajeitados, meio duros demais ao lidar com a dor do choque com a realidade. Não temos prática para o que achamos que deve ser visto como comum. Mas todos queremos mostrar ter prática. Denota força. Não cai bem ficar indignado, assustado, dolorido. Parece fraco. Ninguém nunca quis ser fraco. Mas ninguém nunca teve muita certeza do que é ser fraco ou forte, tampouco.
E nossos sorrisos são meio forçados, a voz soa mais aguda, como se fingíssemos falar do comercial da TV. Os olhos ficam mais secos do que deveriam, ardem até. As mãos tentam ficar paradas, rente ao corpo, porque não há quem queira parecer nervoso) fecha parênteses.
Essa foi uma manhã normal de um dia normal. Nunca consigo dormir no horário que devo, por isso raramente acordo quando deveria acordar. Ouvi todas as censuras que deveria ouvir por não estar pronto no horário que deveria estar. Voltei para casa sem ter ido à escola, porque os portões fecharam-se no horário em que deveriam se fechar. Dormi.
Levantei-me atrasado novamente, mas havia tempo dessa vez. Fui à escola. Saí antes do que deveria por um problema técnico que não poderia ser previsto. Soube o que soube, portanto, sem que fizessem parecer um imprevisto.


J, M.

Dienstag, 30. März 2010

Breve ócio paranóico de Petr (Parte 2)

Me chamam Petr. Só uso ênclise quando tenho vontade. Sou um adolescente. É um fato. Talvez seja até uma doença, porque já ouvi falar de médicos especializados em “tratar” dessa fase da vida, e não eram meros psicólogos. É provável que não será a fase mais difícil, afinal, complicação não é, sempre, sinônimo de dificuldade. E talvez esteja mais para realidade do que para fato. Eu sou um adolescente. É inegável. Mas não me define.
Penso, invariavelmente, em definições. Sem muita filosofia, por hoje, e com algum clichê (que está sempre disposto a nos salvar das questões profundas demais), defino-me pelas escolhas. Não. Defino esse blog por uma escolha. Eu, que sempre me sinto culpado por não terminar o que comecei, mesmo quando não tenho a menor idéia do que foi começado, fiz a escolha de voltar para minha cidade natal. Em busca de que? - me perguntaram – De diversão? De estudo? De natureza e calma? De amor? – De nada. – É a reposta mais viável. Vim em busca de nada e não posso pensar em lugar mais propício para o nada ser encontrado.
Caí de bunda nessa Cidade depois de ter saído correndo dela há mais de dois anos atrás. Cai por escolha própria. Talvez por que não tivera escolha ao ir embora. E, depois de quase um ano, ainda não consigo achar um motivo para ter caído. Não que me arrependa. Nem de longe. Essa Cidade pode ser nociva para as ambições dos mais sonhadores, pode ser pequena a ponto de nos fazer acreditar que é possível cruza-la andando e quente o suficiente para nos fazer desistir da idéia. Eu falo mal dela todos os dias. Eu a adoro.
Adoro as pessoas que vivem aqui. De um jeito bem “Invasão de privacidade”. O lugar é um reino cheio dos personagens mais pitorescos que se pode imaginar. Desde a garota imaculada que é, na verdade, uma devassa, o neurótico que não sabe lidar com situações perfeitas e distribui conselhos amorosos, as “posers girls” que todos parecem conhecer ou já ter ouvido falar, o romântico incurável que trai por compulsão até a pretensa sexual libertária que, na verdade, tem muitos princípios sobre com quem dormir.
Essa Cidade é uma fonte de histórias. E, para mim, tudo é perdoável quando dá uma boa história. Mas não vou fingir que a cidade em si é realmente interessante. Os estonteantes personagens que se criam aqui não costumam ficar por muito tempo. E, quando ficam, viram notícia velha. Mesmo uma cidade pequena pode ser cruel. Provincianamente cruel. E da mesma forma que pode ser nociva para os ambiciosos, também pode avariar o senso de realidade das pessoas, inundando-as em um mundinho de personalidades caricaturais.
Fato é, portanto, que viver nessa Cidade pode ser de uma frustração absurda, intercalada por momentos de inigualável divertimento. E foi pela frustração que criei os meus espaços. Para me exaurir dela. Inspirado pelas musicas sertanejas, decidi que, se eu sofro de decepção, não vou a um bar curar minhas mágoas sozinho. Não. Farei com que todos cuja atenção eu possa atrair deveram sofrer comigo. Verdade o que disse o poeta. A dor é solitária e isolante. Mas o saber de que a dor existe deve ser compartilhado com todos.
Apresentação feita. Objetivo lançado. Que venha agora a angústia de um jovem, e cínico. Angústia essa que só a Cidade, a escola e a nova geração podem trazer. Sintam-se perdidos.





J, M.

Sonntag, 28. März 2010

Breve ócio paranóico de Petr

É um conceito estranho esse pelo qual se põe ordem numa escola. É a idéia de que, se você puser alunos em uma sala e impedi-los de fazer qualquer coisa que os agrade, eles prestaram atenção à aula e aprenderão, só para matar o tempo. Raymond Chandler diz que esse princípio funciona para escrever. Acho que concordo com ele. Para escrever, geralmente basta não me concentrar em coisa alguma, esperar o pensamento fluir e estar armado de bloquinho e lápis. Sim. Funciona para a escrita. E morre aí.
Escrever é prazeroso. A escola não é prazerosa. Devia ser. Mas não é. Já escrevi sobre isso. Torno a escrever, porque, como diria Nelson Rodrigues: “sou uma flor de obsessão”.
Existem dezenas, não, centenas de formas de não estudar. A idéia de estudar, na verdade, torna tudo mais atrativo, desde o formato do tênis até a quantidade de lajotas da sala. 395, aliás. Acho que é por isso que escrevo mais em sala de aula que em qualquer outro lugar. São poucos os lugares em que fico tão desconcentrado.
Certa vez, pensei em mandar uma carta ao ministério da educação. Contando até onde somos capazes de ir para fingir que o professor de física não existe. Mas então a paranóia me ocupou a cabeça. E se for melhor assim? E se, talvez, a única forma de proteger nossas mentes seja anular qualquer interesse que se possa ter em estudar? Afinal, francamente, mais absurdos que os princípios de aprendizagem aplicados pelo sistema, só os programas que o constituem. Alienação em massa. Pura lavagem cerebral. E como Rubem Alves já disse que a única forma de aprender alguma coisa depois de sair da escola é esquecendo tudo o que a mesma ensinou, melhor é nem deixar a coisa toda se entranhar em nossos cérebros (principalmente porque minha memória nunca pareceu estar a meu favor).
Estando a salvo das forças malévolas da educação, quase tenho pena da menina sentada, tão esforçada e compenetrada, lá na frente. Tão suscetível à falta de encanto e realidade das aulas. A mesma que acaba de me lançar um olhar de desprezo, possivelmente visualizando minha nota no infame vestibular. É como eu disse. Quase.


J, M.

Donnerstag, 25. März 2010

A idéia?

Artista para mim é uma antena do ambiente onde vive. Ele faz parte do sistema nervoso de uma sociedade; é essencial para ocuparmos outras posições, ver a nós mesmos, ver o outro. Arte tem a ver com empatia. E só existe onde existir cultura. Aqui, cultura não é simplesmente o teatro e o cinema, os livros lidos e as obras discutidas; cultura é, como sempre deveria ser, identidade. E o que a defina: seja hábito, seja expressão. Faz parte da cultura toda solução que achamos para nossos problemas universais, dos relacionamentos íntimos aos públicos. Sobre o crescimento e sobre a morte. São essas respostas, dadas diariamente, que dizem quem somos. A idéia é comunicar algumas delas.


J, M.

Sonntag, 21. März 2010

Periferia

Pelas bordas é onde tudo inicia. O conteúdo tranforma-se ao decorrer do período. No momento, não é nada. O "é" vem sempre depois, quando não sabemos o que "é". No suburbio adentrando cada vez mais na peculiaridade da coisa. Nas formas desgrenhadas o diverso constitui um universo. De presenças inatingiveis neste plano, prescrutadoras do olhar. Perdidas num fazer. Adentrando um pouco mais o meio inacabado, o algo que é sempre, mas nunca mais será. O entender do meio é parte do meio. Alcançar o pleno dentro do meio é chegar no eterno. Ultrapassando os limites da expectativa, as cores fazem bem o seu trabalho. Não existe um grande enigma, nós somos o grande enigma. Encontrar o que sempre foge. Numa visão isso acaba e depois vem outro recomeço. Ao menos há uma finalização parcial para que assim possamos suportar o plano do infinito. Esquecer da arte, é não lembrar de si. E afogar-se nela é nunca ter encontrado o si. Si-nestesia arrebatadora do confronto coisa x eu.


J, M. 

Samstag, 20. März 2010

Vida alheia

Eu habitava no Rio dentro de mim, o Janeiro. Estudava lá, como em todos os outros cantos da minha passagem. Estudar, é perceber. Sempre icerta da escolha, eu vivia.

Não tenho uma religião, mas a cruz me persegue. Não é um martírio carrega-la, apenas uma decepção baseada na igualdade. Todos a carregam. A diferença está na quantidade de espinhos na cabeça.
No caminho de sempre para a faculdade, um mendigo. Aquele mesmo despercebido do nunca. Sem ser notado, residia no mesmo que eu. E crescia na sua música dos trocados .

Nesse dia que "se quebrava como as ondas na rocha do arpoador", eu necessitava. O mendigo tocava sua gasta flauta sem habilidade alguma, acreditando ser música aquele estranho resultado. Nunca fui mestra em definir se aquilo era ou não, mas o que é música além do ouvido?

Coloquei-me defronte dele ainda com a cabeça no alto, sabendo ter de me ajustar para conquistar. Comecei a dançar no ritmo dele, sem notar que eu não possuía meu próprio ritmo.

Saí dalí sem palavras, movida pelo desespero do porquê. Tranquei a universidade. Talvez para evitar o mendigo, ou apenas pelo talvez da insatisfação. Um destino incentivado pela música de um desconhecido que ainda rufla nos meus pensamentos e pode ser escutada lá no esconderijo da percepção. Hoje, prossigo com uma interrogação sem nome ou moradia e frequentemente lembro do flutuar da flauta na estagnação do rompimento em vida.
 
Falando da vida alheia que eu nem conheço, mas deve existir. Falta do que dizer se resume em contar.
 
 
J, M. 

Freitag, 19. März 2010

Janela

Oh! Janela.
Janela da vida; janela do mundo
porta do saber.

Oh, janela; tú sozinha
aí perdida no espaço da parede
me faz pensar,
pensar em fugir.

Tu que suga e refrata a luz
me deixa sem brilho.
É culpa da vidraça que destorce o real
que me faz passar mal,
com mais vontade de fugir.

Oh, janela que me faz pensar, tu que é a porta do escrever,
me abençoe com seu esplendor luminoso
com sua vida de não viver.
Adeus,
vou fugir enquanto tú janela ficarás presa,
como janela do saber.


J, M.

Mittwoch, 17. März 2010

O verde

E Eu e Eu
Eu tenho o verde, eu tenho os pássaros, enfim tenho o mundo em minhas mãos.
Toco e sinto sendo contraditório e alheio, vendo as pedras que choram sozinhas paradas ao luar.
Eu entendo a mentira como forma de sonhar, eu não juro, pois seria traição.
A cada desejo eu sinto uma nova forma de amor oncrustado nas pétalas da flores abismadas pelo ofuscante sol que derrete meus temores.
Não quero nada além do que tenho, a cada dia me encontro mais e das palavras sou vassalo eterno
O fim das flores é morrer, bem sei, mas enquanto existem são alimento de borboletas despedaçadas pelo terremoto de poluição do homem



A qualquer dia eu posso me desfazer como criança que pede doces e se derrama sobre o açucar diabético
as moscas carregadas pelos dejetos dos dias abastecem meu amanhecer
qualquer coisa pode tudo estragar
e Eu,
Eu posso tudo mudar



J, M.

Montag, 15. März 2010

Origem da simetria

Desfocado, quase cego. Negro perdido no branco. Olhos lacrimejantes e insensíveis, clarividência. Foco. Ponto. Explosão sentimental. Abrandamento doloroso, nascimento paralelo. Abcissas e ordenadas, origens simétricas ligadas a um referencial inexistente. Problemas psicológicos. Confusões numéricas. Vida sem eixos. Sinais trocados. Retas paralelas que se cruzam. Senos, cossenos dentre tangentes. Área sentimental imensurável. Coloração ofuscante. Danças eliquoidais rumo ao infinito. Ponto de partida pré-existente diferente de zero. (tendendo a zero). Pontos que retornam ao eixo X sem razão - instinto - inequação cega. ELE é o ser maior. O paralelo é igual a ELE. Simétrico e inexato, imagem difusa. Negro perdido no branco. olhos lacrimejantes e insensíveis. Clarividência. Morte prevista.



J, M.

Samstag, 13. März 2010

Belle & Sebastian

Hoje, ao entrar na mesma sala, Sebastian não se sentou no lugar de sempre, sentou na cadeira de Belle. A última cadeira da última fileira. Sebastian era Belle para que deixasse Belle ser ela mesma. Riu de si mesmo e se perguntou onde estava o canalha que jamais sofria agora. Não pôde evitar lembrar o único momento romântico que ele permitiu que tivessem. Na escada que rolava: os dois abraçados. O cabelo dela, o vestido sedoso dela, a pele tão branca. O cheiro só dela que ele poderia reconhecer em qualquer lugar.

Eles se distanciaram e ela riu dizendo que, no filme certo, estaria tocando “Colorblind”, e ele morreria no final. Como sempre morrem os canalhas. Ele a soltou devagar para dizer que os canalhas só morriam em filmes para adolescentes não se desiludirem tão cedo com a vida. Sebastian era assim. Era cruel para não ser o sofredor. E Belle sorriu. Porque amava Sebastian, mesmo com sua crueldade fingida.

O mundo estava em preto-e-branco, claro que estava. Porque Belle partiria tão já. E levaria consigo boa parte da vontade que Sebastian tinha em ficar. Ele queria o mundo e a partida dela servia para lhe lembrar disso. Ele amava Belle e nunca tinha lhe dito isso porque era verdade. E porque não precisava dizer. Mas agora queria ter dito.

Não diria nada. Queria que Belle fosse livre como ele gostaria de ser livre também. “Gostar é a melhor forma de ter. E ter é, provavelmente, a pior forma de gostar”. O romantismo o consolava. Belle já havia lhe dito que ele era a contradição viva. Sendo doce ao ser cruel. Correto ao ser canalha. E romântico, sem nunca chorar.

Ele sabia que não havia motivos para ser triste. Mas era triste. Se sentia só. Feliz e infeliz. Era bom ela ter partido primeiro. Era tão ruim que ela tivesse partido. Mais contraditório ainda era pensar que, de todas que ele já beijara, Belle era a única por quem, pela despedida, ele choraria. Se refugiou no romantismo. Viu o nascer do sol com o doce namorado dela, tão mais abandonado que ele, e a linda melhor amiga dela, tão mais solitária que ele. Pensou se Belle realmente sabia o quanto era amada. Tola menina. Tão tola quanto ele. Ouviu “colorblind” e escreveu esse texto em sua cabeça para se livrar logo da pieguice. Tão tolo. Ela seria Belle e ele seria Sebastian. Em preto e branco.






J, M.